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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Você confia nas travestis que contrata ou está apenas cumprindo cota?

Getty Images
Imagem: Getty Images
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

11/08/2021 06h00

Das várias experiências profissionais que tive até hoje em projetos propostos e coordenados por pessoas cisgênero posso dizer que acabo de passar pela mais incrível, saudável e satisfatória, e muito disso se deve a principalmente a duas coisas: respeito e estar junto de outras travestis. Para pessoas cisgênero e brancas pode parecer estranho dizer isso, mas só quem é trans/travesti sabe ou pode imaginar o que eu quero dizer - e pessoas cis pretas, dado que nesse sentido nossa realidade no mercado de trabalho se aproxima em vários pontos. O respeito, que deveria ser algo inerente às relações, é bastante custoso de receber quando se é uma travesti.

Eu, como atriz, já transitei por diversos espaços, equipes e projetos e a sensação de desconfiança e subjugamento é praticamente regra quando se trata de projetos coordenados por pessoas cisgênero. É como se ouvíssemos da boca dessas pessoas palavras e elogios maravilhosos e, ao mesmo tempo, o subtexto expresso as faz se autoindagar: "será que ela é boa mesmo no que faz?", "será que eu fiz a melhor coisa ao chamar essa travesti para trabalhar?", e o processo se torna uma constante avaliação da nossa excelência, onde o primeiro e mísero "erro" pode servir de justificativa para responder essas perguntas de forma negativa e definitiva.

Acabo de encerrar como atriz o processo de filmagem do espetáculo "Brenda Lee e o Palácio das Princesas", projeto do Núcleo Experimental, e vivi pela primeira vez a sensação de ser realmente respeitada em um projeto, que confiaram no meu trabalho e estavam todes ali dispostos a me dar suporte quando necessário, a ouvir as questões que eu pontuava e a realmente cocriar esse espetáculo que contará um pouco da história dessa travesti tão importante para a nossa história e para a luta por dignidade de pessoas portadoras de HIV e travestis em geral na década de 80/90.

Pela primeira vez me senti plenamente confiante e confiada pelas pessoas envolvidas no projeto, desde a direção até minhas parceiras de cena. Isso se deve, sim, à minha maturidade como atriz de teatro e audiovisual, aos 10 anos como profissional que venho construindo com muito esforço, dedicação e estudo, mas muito disso também é resultado do tratamento que eu e as outras travestis que compõem esse elenco recebemos.

Minha sensação é de que tudo foi planejado e preparado para nos receber em nossa máxima potência e nos deixar à vontade para fazer o que fomos contratadas para fazer: atuar. É muito comum termos que realizar funções que não nos competem quando trabalhamos nesses projetos, principalmente agindo como consultoras sobre transgeneridade, tendo que passar o tempo todo explicando nossa vivência trans e corrigindo erros de tratamento, de pronomes, de conceitos, isso quando não também reescrevendo parte dos roteiros, revendo figurinos... Já passei por situações das mais absurdas, como por exemplo um diretor que, além de eu fazer todas essas outras funções citadas acima sem receber por isso, insistia desde o meu teste até o set de filmagem em me tratar constantemente no masculino.

É de se esperar que uma pessoa que contrata uma travesti - e no caso para fazer também uma personagem travesti - saiba ao menos respeitá-la. É esperado que o respeito a qualquer pessoa seja uma premissa de toda relação humana, e no espaço de trabalho um direito básico, porém não é bem assim que as coisas funcionam no dia a dia dependo de quem você é.

O fato de eu estar com mais cinco travestis em cena nesse filme-teatro é um outro dado extremamente importante, não só para o contexto do trabalho como também para o seu resultado, nesse caso em se tratando de um material cênico. Além de representatividade trans, da importância de termos pessoas trans trabalhando em todos os lugares e interpretando personagens trans para que paremos com a cultura do transfake - leia mais sobre na minha coluna "Você sabe o que é transfake?" - é urgente que falemos sobre proporcionalidade.

Parafraseando a atriz e transpóloga Renata Carvalho com as minhas palavras: uma travesti contratada para um projeto altera a vida de uma travesti. Duas travestis contratadas alteram a vida de duas travestis. Três travestis contratadas alteram o projeto! Enquanto nossas presenças forem singulares, ainda estaremos cumprindo uma fachada para que as pessoas cisgênero se sintam menos culpadas perante a transfobia estrutural, ainda será sobre assistencialismo e sobre uma pseudo-transformação dos contextos hegemônicos.

Quando me deparo neste espetáculo com outras cinco travestis ao meu lado, construindo personagens distintas, complexas e apresentando cada uma sua personalidade própria, singular, começamos a construir um espaço onde nossa vivência é vista e reconhecível enquanto múltipla, plural, contrapondo ao imaginário do senso comum do que é ser travesti, composto por características rígidas e estereotipadas. Parece óbvio dizer que cada pessoa é um mundo, que não somos todas iguais, porém a construção social sobre nós é tão equivocada e enrijecida que só conseguimos reconstruir esse imaginário em coletivo, em maior número.

Falo por essa perspectiva do teatro e do audiovisual porque é o meu ofício, meu espaço de atuação, assim como aqui em Ecoa, como colunista - onde também temos outras pessoas trans, Noah Scheffel e Mari Rodrigues, compondo o time de colunistas - mas a proporcionalidade e o respeito às pessoas trans deve ser uma premissa para todo e qualquer contexto. Precisamos, estamos capacitades e temos o direito de assumir todos os postos de trabalho, inclusive cargos de coordenação e chefia nos mais variados contextos. Nos manter inferiorizadas e em pequeno número é mais uma forma de nos manter na marginalidade, na miséria. Que firmemos um pacto de não se contentar com a ausência da culpa branca e/ou cisgênera em pequenos atos, mas de realmente estarmos empenhades em transformar uma realidade social, E, para isso, precisamos nos comprometer verticalmente com essa mudança.

Esses são dois pontos que trago aqui enquanto essenciais para o início deste processo. Caso queira saber mais sobre como começar essa transformação, nos procure, nos contrate. Nosso papo continua! Vamos desdobrando pouco a pouco por aqui, tirando da gaveta as conversas deixadas para depois. Se cuidem e cuidem das travestis que vocês têm por perto.

Ciclo de Trabalho Ecoa -  -

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL