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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lembremos das nossas Transcestrais, mães da luta LGBTQIA+

The Stonewall Inn - Divulgação
The Stonewall Inn Imagem: Divulgação
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

09/06/2021 06h00

Muito se fala, no mês de junho, sobre Orgulho LGBTQIA+, sobre as marchas, as celebrações, as publicidades em torno da nossa existência e em prol da nossa visibilidade, mas ano após ano continuo sentindo uma falta gigantesca do conhecimento das pessoas acerca de como essa nossa luta começou para hoje termos um mês focado em impulsionar nossas vidas e nossas pautas de luta.

Aparentemente muito se fala em "Parada Gay" quando a luta não se trata apenas dessa população, e isso não é um mero equívoco. Em se tratando da Revolta de Stonewall, em 1969, houve e há uma publicidade construída em cima do marco histórico que leva as pessoas a acreditarem num protagonismo de homens gays brancos cisgêneros, quando sabemos que Marsha P. Johnson foi uma das principais figuras para a construção desse movimento nos Estados Unidos da América.

Stonewall Inn era um estabelecimento que recebia abertamente pessoas não-cisgêneras e não-heterossexuais em Nova York. Na época o afeto entre pessoas do mesmo gênero e as vivências trans não eram respaldados legalmente, pelo contrário, eram combatidos pela própria lei, que considerava o comportamento dessas pessoas como impróprio. As batidas policiais no estabelecimento, dada a realidade da época, eram constantes, mas foi na madrugada de 28 de junho de 1969 que as pessoas que ali estavam resolveram se posicionar contra essa repressão.

Marsha é lembrada por nós, inicialmente, pelo seu corajoso ato de jogar um tijolo em direção aos policiais como forma de protesto, mas esse foi apenas o início de seus feitos. Ela, ao lado de sua amiga e companheira de luta Sylvia Rivera, fundaram alguns anos depois a S.T.A.R (Street Transvestite Action Revolutionaries), onde acolhiam pessoas trans em situação de rua com cama, roupa e comida em um hotel. A organização não era registrada, não tinha uma grande infraestrutura como acredito que elas gostariam, mas era um respiro de acolhimento e respaldo que elas conseguiam dar para as pessoas trans em maior vulnerabilidade, onde elas tiravam seu sustento das ruas, da prostituição, para alimentar e dar abrigo à essas pessoas, inclusive para que as mesmas não precisassem ir às ruas para se prostituir.

Organizações como essa foram se tornando comuns para a população LGBTQIA+ norte-americana, principalmente entre as pessoas negras, dado que a vulnerabilidade delas era ainda maior. O alto índice de pessoas expulsas de casa pelos pais e a falta de empregabilidade tornaram esse tipo de ação necessária para garantir a sobrevivência dessas pessoas. Eram as famosas "Houses" (casas), geralmente gerenciadas por uma "Mother" (mãe), uma pessoa LGBTQIA+ mais velha, que acolhia outras mais novas - podemos ver isso muito bem retratado na série "POSE".

No Brasil, também encontramos na história registros dessas casas, como por exemplo o Palácio das Princesas, de Brenda Lee. Brenda era uma travesti nordestina que, com sua força de trabalho, conseguiu comprar diversos imóveis em São Paulo e construir cômodos para acolher suas princesas travestis, numa época em que o HIV se alastrava. Fora ela, podemos reconhecer nas casas de cafetinagem uma relação de acolhimento e cuidado também muito peculiar. A relação pela cafetinagem não está para nós como algo bem visto, mas dada a realidade miserável da população trans e a prostituição sendo praticamente a única fonte de renda, era muitas vezes por onde as travas conseguiam se organizar financeiramente. E para além do dinheiro e dos programas, eram nessas casas que as travestis conseguiam de alguma forma ter acolhimento, um teto, comida e o mínimo de dignidade.

Há tempos que nós, travestis, nos organizamos entre si - e para além de si - para garantir a sobrevivência de nós mesmas e das nossas, porém infelizmente, diferente do que muitas pessoas imaginam, não somos tão acolhidas e fortalecidas dentre as pessoas LGBs cisgêneras. Insisto em falar sobre população LGBTQIA+ em vez de "comunidade", porque nossas vivências dentro dessa sigla são bastante distintas e o acolhimento bastante seletivo. As pessoas trans sempre estiveram em desvantagem social em relação às pessoas cisgêneras, mesmo que gays e lésbicas, sem contar no apagamento das nossas vivências e ações históricas que foram e são constantemente apagadas por parte desse recorte cis.

Voltando para os EUA, em 1973, apenas quatro anos depois do marco de Stonewall, Sylvia Rivera subiu no palco de um evento público LGBT a contragosto dos organizadores e manifestou sua indignação em relação aos homens gays cisgêneros que, já naquela época, estavam apagando as travestis do movimento, sendo que elas foram figuras importantíssimas para o início de tudo. Sylvia, aos gritos, dizia para a multidão que enquanto ela e as outras travestis eram presas, espancadas e maltratadas, os homens cisgêneros gays insistiam em se colocar à frente da luta e apagá-las (podemos assistir a esse registro no documentário "A Morte e a Vida de Marsha P. Jhonson", na Netflix).

De forma muito semelhante, em 1985, Claudia Wonder se une a outras travestis para protestar nas ruas pelos seus direitos. São Paulo, década de 80, a operação Tarântula - operação de caça às travestis decretada pelos poderes públicos e com apoio das grandes mídias - vinha prendendo e matando a céu aberto várias de nós, simplesmente por sermos quem somos. Claudia e suas companheiras, então, passam na casa de Brenda Lee e convocam ela e suas filhas para irem às ruas. Ali fica registrada a primeira marcha pela "Liberdade Sexual" na cidade, onde - segundo Claudia no documentário "Meu amigo Claudia", dirigido por Dácio Pinheiro - não houve a presença dos homens gays cisgêneros para somar na luta.

Mais uma vez a história se repete. Mais uma vez as travestis assumem a linha de frente em prol dos direitos das pessoas dissidentes sexuais e de gênero e, como podemos observar hoje, continuamos a ser invisibilizadas e apagadas.

Pouco se fala sobre essas raízes do movimento, pouco se fala sobre essas vidas. Marsha foi encontrada morta no Rio Hudson em 1992 e não foi investigado o motivo de seu falecimento. Muitas de nós continuamos a morrer dia após dia e, se não fosse pela nossa força de sobrevivência latente, talvez não teríamos os avanços que conquistamos até aqui.

Não escrevo esse texto no intuito de dizer que homens cisgêneros gays não contribuem em nada com a luta, ou que as travestis construíram essa história sozinhas, porém não podemos negar o quanto isso não é lembrado e, no fim das contas, quem continua vivendo uma realidade miserável e extremamente violenta somos nós.

Sylvia já nos alertou em 73, e não à toa ainda se replica na boca de muitas pessoas a expressão "Orgulho Gay" ou "Parada Gay", quando a luta não é apenas sobre essa população. Protestamos e continuaremos a apontar os problemas existentes nessa estrutura, mas como Marsha e Sylvia nos ensinaram, nós precisamos muitas vezes fazer sozinhas pelas nossas, pois esperar do outro é custoso e quase irreal.

A Coletividade MARSHA!, a Casa Chama, a Casa Nem são exemplos atuais de coletivos e organizações geridas por e para pessoas trans, inspiradas nessa transcestralidade que carregamos. Esse trabalho, obviamente, conta com mãos de pessoas cisgêneras aliadas. É necessário que somemos nossas forças em prol das vidas mais marginalizadas e vulnerabilizadas. Não é segregando, mas relembrando as raízes da nossa luta e da nossa história que poderemos honrar nossas existências.

Sem Marsha não estaríamos aqui. Sem Claudia, sem Brenda, sem muitas outras não teríamos um terço da dignidade que estamos conquistando às duras penas. E sem pessoas aliadas que se unam à nossa luta os avanços seriam ainda mais lentos e custosos. Honremos nossas transcestrais, todes nós. Homens gays cisgêneros também, honrem àquelas que deram suas vidas para que hoje vocês possam estar onde estão. Nossa história é construída em cima de muito sangue, o mínimo que devemos fazer é respeitar àquelas que sonharam e lutaram para nos dar um futuro melhor. Nossas mães são travestis, e é do útero-abraço delas que nasce nossa prosperidade.

Nesse mês do Orgulho LGBTQIA+ que se inicia eu saúdo a todas as travestis, vivas ou não. Nossas vidas são valiosas, nossas memórias preciosas, e somente elas manterão nossa história intacta.

#ProsperidadeTravesti

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL