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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bial e Ronaldo: treze anos se passaram e a transfobia permanece

Bial e Ronaldo: treze anos se passaram e a transfobia permanece - Reprodução/TV Globo
Bial e Ronaldo: treze anos se passaram e a transfobia permanece Imagem: Reprodução/TV Globo
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

26/05/2021 06h00

Pretendia essa semana completar uma trilogia de textos sobre afeto aqui nessa coluna, porém a transfobia tanto não nos dá descanso que me sinto obrigada a falar hoje sobre o episódio do programa "Conversa com Bial" que foi ao ar no dia 20/05, última quinta-feira, onde o apresentador entrevistou o ex-jogador de futebol Ronaldo Fenômeno. É extremamente revoltante e inadmissível - como disse também a cantora Linn da Quebrada sobre o caso, no twitter - assistir ao episódio do programa e ver que treze anos se passaram desde que Ronaldo virou manchete mundial por ter se envolvido com três travestis e pelo visto nada mudou, pelo menos não para o ex-jogador e para o apresentador, no que diz respeito às transfobias enraizadas em seus pensamentos e comportamentos.

Eu tinha quinze anos na época do acontecido e me lembro muito bem do quanto me incomodou assistir ao show de horrores que a mídia e o próprio ex-jogador construíram a partir do fato dele ter convidado três travestis profissionais do sexo para viverem uma noite juntes. Matérias e mais matérias, entrevista no programa Fantástico, da Globo, uma tremenda mobilização e especulação sobre o ocorrido como se fosse o problema mais sério que a nossa sociedade enfrentava no momento, ou pior, o bafão mais vergonhoso, de um ocó que saiu com travestis e depois, com a maior cara lavada, disse que não sabia que eram travas, as moças, que pensou que fossem cisgêneras - aqui traduzo com minhas próprias palavras, pois ele mesmo desconhece, pelo visto, tal nomenclatura - e que se envergonhava profundamente por esse "equívoco".

Construirei esse texto me recusando a tratar as travestis no masculino, como todos os meios de comunicação fizeram em 2008. Além do absurdo da situação, era vergonhoso assistir como a imprensa tratava essas travestis e expunham seus nomes mortos - que, para quem não sabe, são nossos nomes de antes da transição de gênero- e as inúmeras matérias que insistiam em criminalizar essas corpas, alegando extorsão da parte delas em relação ao Ronaldo para não levar a situação à imprensa, ao mesmo tempo que uma delas alegava que o ex-jogador não queria pagar o preço combinado previamente pelo programa.

Não cabe a mim aqui decidir quem estava certo ou errado em relação aos pagamentos desse michê, muito menos julgar a atitude das travas de querer mais dinheiro para não levar o caso à mídia, dado que, como pudemos assistir, elas mesmas saíram em desvantagem nessa situação toda - o que não é nenhuma novidade para nós, dada a transfobia enraizada na nossa sociedade. Me interessa analisar e evidenciar essas transfobias, sejam as existentes no acontecimento de 2008 como as presentes no encontro entre Ronaldo e Bial na última semana.

O programa recente nos mostra como ambos não evoluíram um milésimo sequer em relação aos seus entendimentos sobre pessoas trans na sociedade. Não houve revisão de seus próprios comportamentos e falas da parte de Ronaldo e, sobre Bial - que em agosto de 2020 entrevistou a cantora trans Linn da Quebrada em seu programa - vemos um descaso completo para com nossas vidas e identidades, tratando as travestis no masculino, perguntando se Ronaldo fez o que fez para "chamar a atenção", como que em um "pedido de ajuda" - onde o jogador ainda responde dizendo que precisava mesmo era de terapia naquele momento.

É perverso esse circo que se arma em relação às vidas trans. O homem cisgênero, protegido de todas as formas, sai ileso e com ares de arrependimento da situação, se colocando inclusive num papel de vítima, reiterando seu "engano" sobre a identidade das garotas como se elas fossem as culpadas desse caso. É muito comum vermos situações como essa, mesmo fora da mídia, onde homens cisgêneros procuram travestis para satisfazer seus desejos sexuais e depois se "arrependem", em um lapso de moralismo e transfobia, e as ameaçam de os enganar, tratando-as como se fossem homens se passando por mulheres, e muitos desses casos acabam, inclusive, no assassinato das mesmas - escrevi sobre esse fetiche no meu texto "Teu ódio não é erótico: o homem cis e a trava".

Há um pacto muito profundo entre homens cis para o mantenimento de seus poderes na sociedade patriarcal. Eles se protegem a qualquer custo, mesmo que para isso precisem desmoralizar qualquer indivíduo que esteja imbricado na situação que os põe em risco. Risco ilusório nesse caso, dado que seus privilégios por si só os protegem de qualquer problema que envolva travestis. Por mais que possam sair envergonhados pelo fato de se relacionar conosco - o que já é um problema, dado que não há vergonha alguma em amar ou sentir atração por travestis - nosso destino é sempre pior e mais miserável.

Não é nenhuma novidade que esses homens nos procuram na calada da noite. Não tem nada de novo, também, em vê-los nos tratando no masculino e como criaturas não-humanas, dignas de vergonha e repulsa. E é um fato que, muito provavelmente, Ronaldo não procurou travestis para satisfazer seus tesões apenas uma vez, mas somente esse caso veio à tona na grande mídia, e é o suficiente para nos revelar a podridão de seus pensamentos em relação a nós.

Pedro Bial, com sua carreira e seu posto de intelectual na sociedade brasileira, é inadmissível corroborar com esses pensamentos e falas. Qual era a necessidade de rememorar o caso de 2008 treze anos depois? E mais, trazê-lo de volta no intuito de investigar o porquê de Ronaldo Fenômeno ter vivido tal ocasião, tratando as travestis como uma vergonha em rede nacional. Você, como um comunicador, tem uma responsabilidade gigantesca para com o conteúdo de seu programa, para com os conceitos que produz e reproduz para um país inteiro, mas pelo visto eu e minhas irmãs estamos precisando aparecer por aqui para te ensinar a fazer o seu trabalho com mais respeito e profissionalismo. Respeito esse que você não teve nem mesmo em relação à Linn, sua convidada no último ano. Você não levou em consideração em momento algum a conversa que vocês travaram. Perdeu a oportunidade de revisar seus conceitos e, dada a ocasião com o ex-jogador, propor um novo olhar para o acontecido, trazendo para o público e também para Ronaldo uma reflexão que contribuísse para a nossa humanização, e não para mais uma vez nos colocar como vergonha em rede nacional.

Você poderia muitas coisas Bial, mas foi incompetente. E não me acanho aqui, não poupo minhas palavras, porque também como profissional da comunicação e uma pessoa que produz conhecimento sei o quanto é importante escolhermos bem nossas palavras. Precisamos denotar nitidamente quem deve passar vergonha nesse momento, e pode ter certeza que não somos nós, as travestis.

Agora, Ronaldo, tão mais fácil e belo seria se você assumisse seus desejos. Ou se realmente se "confundiu" há treze anos atrás ao chamar as travestis para uma noite de sexo, que reconhecesse o erro e não utilizasse o fato, no passado e agora, para tentar se redimir, como se tivesse cometido o maior pecado de sua vida. Demonizar nossos corpos diz mais sobre vocês, homens cisgêneros e indignos do nosso afeto, do que de nós mesmas, que ainda vivemos, enquanto população, uma marginalização massacrante.

Se é de dados que precisamos, posso reiterar que nosso país além de ser o que mais mata pessoas trans no mundo é também - olha só que curioso - o que mais assiste pornografia com pessoas trans. Também temos uma estatística de que 90% das travestis trabalham compulsoriamente na prostituição. Não pauto aqui nenhum julgamento em relação a quem escolhe a prostituição como seu trabalho, mas problematizo sim o sistema que nos impele à esse ofício compulsoriamente, sendo o único meio possível de sobrevivência, dado que para nós é muito mais difícil - quase impossível eu diria - conseguir emprego nas mais diversas áreas. Seguimos com nossa expectativa de vida na faixa dos trinta e cinco anos, enquanto pessoas cisgêneras vivem em média setenta e cinco anos. É menos da metade da expectativa de vida de vocês, e são esses discursos que também contribuem para a nossa constante marginalização e morte.

Por sorte não estamos mais em 2008. Hoje, felizmente, estamos muito mais atualizadas em nossos discursos. Nossas lutas vêm ganhando espaços de maior visibilidade e, inclusive, temos pessoas como eu mesma aqui, e tantas outras, trabalhando nos meios de comunicação e podendo alertar a vocês, mais uma vez, de que estão errando, e muito! Vocês têm acesso à informação. Vocês sabem muito bem o que estão dizendo. Vocês, inclusive, sabem muito bem o que fazem quando nos retratam assim em prol de "salvar" suas próprias peles, mas esse papo já não cola mais, e não somos mais apenas nós, pessoas trans, que temos conhecimento de como vocês têm agido no mundo. Para nos desmoralizar vai ser preciso aperfeiçoar demais a técnica de vocês, e eu duvido que consigam, a essa altura do campeonato, serem mais profissionais do que nós, a ponto de conseguirem nos despistar.

Finalizo reiterando minha profunda revolta em relação ao acontecido, mas que isso sirva de exemplo para mostrar que nós, travestis, merecemos muito mais os espaços que vocês estão ocupando e temos muito mais a contribuir positivamente com a sociedade do que vocês que estão nesses postos de poder há muito tempo. Os tempos estão mudando para quem muda junto, e podem ter certeza que pensamentos e falas ultrapassadas como essas de vocês estão fadadas, cada dia mais, ao fracasso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL