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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Juntando a fome com a vontade de comer

"O Nascimento das Tupiniquins - Amapô".  Autoria: Rafael Matheus Moreira, artista travesti paraense. - Reprodução/Rafael Matheus Moreira
"O Nascimento das Tupiniquins - Amapô". Autoria: Rafael Matheus Moreira, artista travesti paraense. Imagem: Reprodução/Rafael Matheus Moreira
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

05/05/2021 06h00

Como comer se a comida é escassa e a fome crescente?
Como sobreviver fazendo parte dessa massa de corpos que habitam as mais empobrecidas populações?
Subalternizadas, subjugadas, preteridas em seus ofícios, afetos e humanidades, as travas e travos sempre com sede e fome de vida.
Fome há, e é estrondosa. Os estômagos roncam graves seus desejos de justeza. Justeza, porque justiça por aqui anda muito difícil de se obter, diria que já faz 521 anos pelo menos que não vemos a sua cara.
Fome de poder exercer nossa potência, de não depender das migalhas pseudo-caridosas com ares de inclusão assistencialista, de podermos ser donas dos poderes e decisões de nossas vidas sem nos pautar na velha e famosa sobrevivência.

Viver! Uma palavra que sempre parece tão distante quando falamos de nós.
Viver! Um verbo intransitivo, porém, sempre congestionado. Impossível passar pelas vias da vida sem ser a pé. Está cheia, entalada, presa por pessoas auto-movíveis pelas suas heranças e privilégios de classe, raça e gênero.

Efêmera seria a dor se o estômago não latejasse, se não faltasse o almoço, a janta, o pão. Efêmera seria se fosse efêmera, não constante. Seria muito interessante poder "vencer na vida" sem precisar se preocupar com o café da manhã. De hoje. De amanhã. Seria, então, efêmera a preocupação com a sobrevivência.

Lá no reino de Afro-dite
A telha é de brasilit
A injustiça, sem limite
E o que não falta é apetite

Quisera eu poder dizer que é uma pequena parcela de gente que habita esse reino de mazelas. Preto(a)s, transvestigêneres, indígenas... Uma legião que compõe a maioria dessa terra brasil, em brasa, que queima os pés e nos faz suar pelo pão de cada dia. Não quero romantizar nossa luta, que sim nos torna imensas por, apesar das muralhas que nos impedem, estarmos conseguindo pouco a pouco re-conquistar o espaço digno na sociedade - graças a nós mesmas - que nos foi tirado. Mulheres fortes, gente de garra, povo de luta... Sim, e com muito orgulho! Mas que isso não sirva para rotular o engulho, não nos adjetive de forma rasa, tornando belo o sangue que escorre pintando as ruas e a força que tiramos sabe-se lá de onde, ainda que de estômago vazio. Que não pensem, mesmo que de forma breve, que o choro preso, o grito guardado e o sorriso no rosto escondem nossas dores. E não, não seriam essas características máscaras do dia a dia, mas a noção mais profunda e desesperada de que não há escolha senão continuar e agradecer por, ainda, estarmos vivas!

Com fome, mas vivas!

Dai-nos, Senhora, a força necessária pro meu povo vencer. Vencer o inimigo, não corresponder à essa meritocrata ideia de que um dia a gente há de "chegar lá", pois esse "lá" nada mais é que o oásis nesse deserto desumano, a ilusão de que o mérito próprio um dia fará cada uma de nós membra da alta $ociedade capitalista. Sabes bem, Mãe, que só nos dizem isso para nos distrair de nós mesmas, esquecermos nossas iguais e seguirmos no desespero de ganharmos a corrida sozinhas e a qualquer custo.

Ideia branca, cisgênera, colonial. Estória que esse pessoal conta pra nóis dormir, mesmo com a pança latejando, vazia, pra nóis fingir que é só tentar com mais força e com a tal da esperança que um dia nossa vez há de chegar.

Na real, tamo é cansada de engolir essa mentira toda. Tamo com fome, com sede e agora o apetite é de vingança! Eu sei, essa palavra pode te assustar um pouco se você não lê daqui, de onde eu falo, mas já parou pra pensar que talvez esse medo seja porque você acha que com a gente no poder faríamos com você o mesmo que fazem com a gente?

Não, relaxa, que a gente vem de outro canto, outros povos, outras vidas, e não dá pra estancar as feridas simplesmente abrindo outras. O que a gente quer é comer do que você come, beber do teu gole e sentar na mesma poltrona confortável do ócio - criativo, até mesmo, eu diria - pra poder por mais de um dia descansar. Restituição é o nome! Pegar de volta tudo o que nos foi roubado: de cada povo massacrado, a ceia de regozijar sua memória, sua ancestralidade e que não mais passemos vontade de habitar nossos lugares de direito.

Não é um pedido, mas uma exigência de respeito. É o fato de que se nos tiram o prato, recolheremos suas panelas. Se nos tiram as roupas, distribuiremos as nossas mazelas para que quem constrói nossa pobreza seja agora quem a carregará nas costas. Tamo cansado de ficar comendo bosta enquanto você ingere teu caviar. Queremos saber quem vai tentar silenciar esses estômagos, que já gritam - não mais roncam grosso. Gritam, e em coro! Quero ver quem vai conseguir calar.

Juntando, então, a fome com a vontade de comer, sem mérito, mas com os dentes que mastigamos a dureza da vida, há de se fazer um novo cardápio nessa história. No menu, cada ponto apagado da nossa memória, cada ingrediente que antes foi tido como herói. Torturadores, bandeirantes, capatazes, senhores de engenho, pais de família, que comeram ontem minhas irmãs por vinte reais ou à força e hoje serão servidos ao molho madeira. Molho da própria que eles vêm cortando aos montes para plantar suas fortunas.

A nossa volta - ou re-volta, porque não nascemos da dor desde o início - será, e é, orgânica, sustentável em suas bases sólidas e eco-sexual. É feita de raízes profundas, de afetos de espécie rara, daquelas que viviam nas matas - seus habitats - mas hoje, como as mataram, mostram suas caras sem medo de incomodar. As ruas, de rios abafados, já são correnteza. O lixo, de grandes acúmulos, o seu legado. E daqui em diante não deixaremos esse sabor engasgado. Mesmo na fome, mesmo pelos cantos mal vistos, seguiremos juntando os poucos ou alguns itens que possuímos para armar o nosso banquete. Nosso macete é o apetite, essa palavra suculenta que amostra os dentes quando é dita. Palavra de desejo, de decisão, de incômodo. Esse é nosso motor, e a mordida, nossa justeza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL