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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

E quem não bebe do teu chá de revelação? #NãoàPL504

 E quem não bebe do teu chá de revelação? #NãoàPL504 - Divulgação/PSOL
E quem não bebe do teu chá de revelação? #NãoàPL504 Imagem: Divulgação/PSOL
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

27/04/2021 16h36

Penso naquelas crianças, essas, que não compreendem as cores que deram à sua genital.
Penso nelas, que levam sequelas vida a fora pelas expectativas do seu enxoval.
De pênis rosa, vagina azul, brancas e marrons
Que são enganadas desde um prévio ultrassom,
Que nem imaginam o que as espera fora do ventre.
Quando foi, na história do humano, que a tecnologia da saúde se tornou ferramenta para escanear o instrumento sexual e secreto, de secreções e desejos, e que como um dedo, orelha ou vesícula, possui função biológica, mas insistem em dizer que é de gênero?
Antes mesmo de saber-se no mundo, de chorar, respirar e comer, já impõe-se um prévio saber sobre o futuro e seus feitos na Terra. Prefiro chamar de guerra essa máquina exploratória que usa sua oratória para convencer as infantas que sua genital é sua glória, que honrar a norma a faz santa.

Glória, Glória, Aleluia! Mais uma criança que nasce e já sabe que não pode ser sua. Que seu corpo e sua história lhes raptaram bem antes de terem noção do ultraje que acometia sua trajetória.

Chuvas de enxovais cor de rosa, para a mais nova vagina que nasce.
Carros, espadas e armas para o pênis azul. Que impasse!
Servos da nobre família, que herdarão seu dinheiro, suas regras, suas culpas,
Que se não, herdarão suas multas por desobedecer a ordem.
Que triste essas genitálias, que nem mesmo podem ser corpos.
Que mesmo vestidas, cobertas, continuam sendo vistas entre as pernas.
Tristes intersexo-humanas, mutiladas desde antes de saberem que mesmo ambíguas
poderiam se sentir completas em sua dialética biológica.

É um extermínio constante
Das potências desobedientes da regra
Das corpas multi-mutantes que, impedidas de se reconhecerem, se fazem no escuro dos cantos.
Tão poucos os acalantos, os abraços e afagos progenitores, que quando veem o comportamento destoante expulsam, espancam e matam.
E os cis, elegíveis de pompa
Que se sentem no direito de intervir
Pelo próprio bem de si mesmo, sem mesmo ouvir o choro entalado
Da criança que só queria poder
Amar a si e a quem bem quiser.
Triste das travas pequenas, dos N-beibes e transmasculinos
Que nascem menina ou menino, quando poderiam nascer só o corpo que é!
Sim, nascer bem nasceram, sem gênero ou sexualidade
Mas ainda a estúpida sociedade quer dizer como devem agir.
Mais uma vez, a vagina, o pênis e a autoridade para mandar ou servir a vontade do cis-hetero rei do país.

Me pergunto constantemente: qual é o tamanho poder que guardamos no fundo do peito por sermos quem somos no mundo, exigir o devido respeito, que tanto atenta aos pudores da santa mãe Marta Costa, que se assusta e que faz sua proposta de mais uma vez nos calar?
Qual é a urgência sagrada de em meio à 300 e lá vai cacetada de mortes nesse terceiro mundo, de vírus, chacina declarada, que nos põe como prioridade.
Prioridade de violência, de mais uma vez pela morte - pois pela vida não gritam!
De apagar-nos dos holofotes para as nossas crianças não verem.
Marta e amigos conjuntos, vou dizer mais uma vez com carinho pois acho que a cognição de vocês ainda não os permite entender:
Trava fui, sou desde sempre, mesmo de azul florescente, mesmo com carrinhos e bola, sou travesti e não foi de repente que resolvi (sic.) me ser.
Era criança trava, mini-biu, bixa loka, era desmunhecada e, sim, penteava as Barbies que não ganhei.
Meu amigo era boy de buceta, de tetas e cabelos longos, que mesmo escondido em escombros do cis-play imposto por vós, fazíamos planos de guerra para conseguir sobreviver.
Mesmo na falta de amor
Na falta de referência
Na falta de propaganda
Na falta de casa, merenda
Na falta de escrúpulos dos eleitos
Na falta de base escolar
Na falta de paz de espírito, fazíamos estratégias para não desabar.
Alguns na base da porrada, nos silêncios, isolamentos,
Na prostituição infantil, desistindo do papel inadequado
Na fome e morando nas ruas, ou mesmo dentro do seu santo lar
Persistimos em sermos nós mesmes sabendo que havia horizonte, mesmo sem enxergar.

Algumas aos 17, aos 12, aos 27
Alguns aos 35, 65, 40
Não importa, seja aos noventa, mas uma hora o horizonte há de chegar,
pois não há armadura que guarde o animal mais selvagem
Não há humano que risque a linha que nos divida, mesmo que sendo sofrida, da nossa potência de desabrochar.
Então não adianta. Já disse, sou trava desde infanta e não há lei que nos possa parar!
Travesti, lésbica ou viado
boy-trans afeminado,
Seja qual for o babado, não começa aos 18
Gênero não tem maioridade, e vocês mesmos o sabem
Insistem em empurrar goela abaixo desde o ultrassom todo dia,
Mas o nosso babado é outro, não é cor de azul, verde-amarelo
Não é pela ordem e progresso das heranças coloniais
Não somos ambulantes genitais para agradar o patriarcado supremo
Somos seu mais doce veneno de liberdade e saber.
Portanto, cara Marta e amigos, se essa carta vos chega
Não é para fazer-lhes um pedido, mas para que sim compreendam
Que há vidas a serem salvas
Amores para serem amados
Corpos abençoados que sim, estão e estarão pelo mundo
Quer queiram quer não queiram
Desde muito antes de tudo, e além do que está e virá
Que continuaremos aqui
Publicizando nossos amores
Nossos poderes e dores
E acolhendo as crianças que vocês insistem em matar.

Para cada criança tolhida de sua liberdade
Mais cinco com maturidade, para hoje e amanhã te desarmar.
Para cada genitália mutilada, na vida de vocês a cilada de com seu Deus se retratar.
Para cada aprisionamento, mil e tantos tormentos, revoltas de meninos fermento para essa massa crescer.
E se insistirem em nos calar, falaremos pelos ouvidos, olhos e cotovelos,
Gritaremos pelos joelhos,
Que se levantarão de suas rezas para em prol da própria vida lutar.

Vocês estão criando bombas, que explodirão em suas próprias casas.
Deixem as crianças em paz.
Deixem nossas infâncias livres.
Se não tens capacidade de o fazer, nos deixem cuidar então, para que felizes possam se montar de barro, bonecas e asas,
De lama e argila fresca,
pois por mais ódio que vocês ofereçam
Nosso amor sempre tende a ganhar!

*Não à PL 504/2020, proposta pela deputada Marta Costa (PSD) e que visa proibir a publicidade, através de qualquer veículo de comunicação e mídia de material que contenha alusão a "preferências sexuais"(sic.) e movimentos sobre diversidade sexual relacionados a crianças no Estado de São Paulo. A PL será votada nesta quarta-feira (28/04) na ALESP. Precisamos barrar essa proposta violenta e inconstitucional!
Nossas vidas não são brinquedo, muito menos má influência! E hoje somos mais e mais fortes, portanto, lutaremos incansavelmente pelos nossos direitos garantidos pela constituição federal!
LGBTfobia é crime!

#LGBTNãoÉMáInfluência!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL