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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Meu filho(a) é trans. E agora?

Integrantes da ONG Mães pela Diversidade na Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo, em 2016. - Reprodução
Integrantes da ONG Mães pela Diversidade na Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo, em 2016. Imagem: Reprodução
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

14/04/2021 06h00

Hoje meu papo é com você. É, você mesmo, pai ou mãe de uma pessoa trans e, principalmente você que não está sabendo lidar com essa realidade. Já faz tempo que essa conversa está sendo adiada e, por mais que pareça ser difícil, por mais que se finja uma aparente naturalidade, eu sei que vai ser melhor passarmos algumas coisas a limpo.

Venho aqui dessa vez não para julgá-los, mas para tornar algumas coisas mais nítidas, quem sabe conseguir fazer vocês perceberem que as coisas podem ser mais simples do que parecem. Saibam de antemão que vocês não estão sozinhos(as), que seu filho ou filha não é a única pessoa trans no mundo e que se vocês não estão sabendo como lidar com a notícia ou a realidade de ter um/a filho/a trans entenda que muitos não sabem, e infelizmente isso é algo naturalizado na nossa sociedade.

Desde muito tempo aprendemos com o senso comum que é errado ou ruim ser trans. Os filmes, novelas e até mesmo os jornais, em sua maioria, retratam essas pessoas de forma hipersexualizada, erotizada, como se ser trans - e principalmente ser travesti/mulher trans - fosse uma escolha para viver da prostituição ou algo do tipo. Também as pintam como violentas, risíveis, caricatas, de forma a desumanizar suas existências. Insistem em dizer das mais diversas formas que pessoas trans nasceram no corpo errado, que são vítimas do destino e perpetuam mais e mais a ideia de que, portanto, são anormais, aberrantes, indignas de respeito e/ou portadoras de algum distúrbio patológico. Mas preciso te contar que mentiram para você esse tempo todo, e mentiram com tanta força e persistência que parece ser impossível acreditar no contrário.

No imaginário coletivo do senso comum a palavra "trans" ou "travesti" liga-se automaticamente à prostituição e à marginalidade. Não vou dizer que isso não existe porque infelizmente é a realidade de 90% dessa população, mas precisamos entender os motivos que nos levam a isso. Sendo o Brasil o país que mais mata pessoas trans no mundo, temos uma normalidade que empurra nossos corpos para essa vulnerabilidade e torna a prostituição compulsória a única alternativa para sobreviver. Muitas dessas pessoas são expulsas de casa pela família na adolescência ou pré-adolescência, assim como também do contexto escolar e, futuramente, do mercado de trabalho em geral pelo simples fato de serem trans, de não corresponderem à cis-normatividade (vale lembrar que cis é a pessoa que se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer, portanto cis-normatividade é o conjunto de regras impostas que impedem o reconhecimento de qualquer identidade que não corresponda a elas). Violência física, psicológica, institucional e estrutural são recorrentes e, somadas, levam ao alto índice de desemprego, de carência de moradia e de direitos da população trans.

É nítido que vivemos um aumento devastador no nosso país da fome, do desemprego e da falta de moradia digna, porém para as pessoas trans isso é negligenciado independente e além da realidade atual. Mas não quero me ater a dados hoje. É preciso repeti-los para que não nos esqueçamos de que estamos falando de um problema histórico e estrutural, mas estou interessada em trazer para você hoje a possibilidade de compreender que o que constrói o macro são nossas micro relações, e que apesar de estarmos em desvantagem, com diversos meios de comunicação e autoridades trabalhando para a nossa desinformação sobre a transgeneridade, nós podemos transformar isso pouco a pouco no nosso entorno, começando cada um por si mesmo e pelas do seu ciclo de convivência.

Diante disso eu te proponho algumas reflexões: Você já conviveu com pessoas trans? Caso sua resposta seja positiva, com quantas? Em quais espaços? No seu trabalho e nos seus espaços de lazer você encontra e/ou se relacionada, mesmo que indiretamente, com pessoas trans? Você teve pessoas trans no seu convívio escolar ou elas fazem parte desse ambiente que seus filhos/as habitam? Você já jantou com alguma pessoa trans? Já conversou com uma? Antes de seu filho/a, alguma outra pessoa da sua família já havia transicionado de gênero?

Paul B. Preciado, filósofo espanhol, cita em seu artigo "Quem defende a criança queer?" uma fala de sua mãe, se posicionando após relutar contra o fato de seu filho ser um homem trans: "Nós também temos o direito de ser seus pais". Essa fala é muito valiosa, já que, como Preciado mesmo elabora, não foi dado nem mesmo a essas pessoas - no caso vocês que me lêem também - o direito de serem pais e mães de pessoas dissidentes de gênero. O Estado, as mídias de massa, a igreja, a escola... todos os mais diversos contextos fizeram por onde para convencer-nos de que ser trans não é uma realidade possível e que, se assim for, essas pessoas são merecedoras do nosso desprezo.

Se hoje vemos, a passos curtos, um aumento da presença de pessoas trans em alguns contextos, até mesmo na mídia, é fruto de muita batalha. Se hoje alguns insistem em dizer que ser trans "está na moda", que pessoas estão transicionando de gênero por influência ideológica é porque ainda muito se enxerga essas vivências como irreais, anormais, não-humanizadas. O babado é que por conta dessa desinformação toda, ou melhor, desse excesso de informações mentirosas e alienadoras, muitos pais e mães acabam por reproduzir essas violências com seus filhos e filhas ao invés de compreender e respeitar suas existências. Muitos inclusive se sentem de alguma forma culpados por seus filhos o serem, tomando para si a frustração de não terem conseguido perpetuar neles a normatividade cisgênera que aprenderam a ser e a reproduzir. Mas não cabe aos pais esse poder, dado que a existência de cada um e cada uma só diz respeito a si mesmo/a, e a única coisa que talvez seja possível de perpetuar, dentro desse mecanismo da norma, seja o apagamento e a exclusão, já que pessoas trans sempre existiram nos mais diversos povos, com diferentes denominações, e continuaremos aqui independente das opressões que estão postas.

Portanto, o que vale mais? Persistir em negar que existimos e fugir a todo custo de conviver conosco, de acolher seus próprios filhos e filhas ou dialogar, se instruir e possibilitar pra si mesmos um outro olhar sobre o mundo? Será que vale tanto a pena persistir no erro e se afastar de seus filhos que vocês - como vocês mesmos dizem - tanto amam? Então por que a dificuldade de olhar para o que seus filhos/as são ao invés de se basear no que queriam que fossem? E mais, por que não se debruçar para compreender e respeitar suas existências dado que não conhecem essa realidade ao invés de negá-la? Só assim vocês recuperarão ou conquistarão o real direito de serem nossos pais. Somente com o acolhimento poderemos transformar essa realidade. E nesse caso, acolhimento não é apenas o afeto demonstrado, mas o respeito à nossa identidade de gênero, aos pronomes de tratamento que condizem com esta identidade e também a atitude de se tornarem nossos aliados na luta por direitos, contra a discriminação. Acolher e respeitar, não tolerar, pois a ideia de tolerância mais uma vez reitera o pensamento de que estamos fazendo algo errado ou ruim. Como já disse antes, essas violências são constantes e em todos os espaços, desde o acesso negado a um banheiro público, ao desrespeito ao nosso nome e gênero e também a extrema dificuldade de conseguir emprego nos mais diferentes setores.

Estamos aqui! Continuaremos aqui, seja vivendo nossa verdadeira identidade ou escondidos/as, tentando sobreviver apesar das dores e opressões, mas com vocês com certeza fica mais fácil. Ter o acolhimento da família é o primeiro passo para uma vida mais digna. Por favor, se deem o direito de serem nossos pais e mães, façam isso por nós, mas principalmente façam isso por vocês mesmos. Não permitam que tirem isso de vocês porque eu garanto que, se tentarem um pouco mais, terão algo que tanto querem, mas que estão tentando lhes roubar, que são seus próprios filhos/as.

E por último, mas não menos importante, saiba que você não está sozinho/a nessa luta, que existem pais e mães mobilizados, organizados e que inclusive estão dispostos a acolhê-los, como as Mães pela Diversidade, por exemplo. Não arquem com essa responsabilidade como se vocês fossem os criadores do problema, nem mesmo pensem que nós o somos, pois vocês também são vítimas da transfobia, porém é necessário trabalho, dedicação e instrução para transpassar essa barreira e não perpetuar a violência que lhes ensinaram. A transição é coletiva! Vamos juntes!

*Dedico esse texto a Rosana e Frederico, pais de uma travesti chamada Marina. Meus pais. Pelo direito de vocês serem meus pais e pelo meu direito de ser filha de vocês! Eu amo vocês!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL