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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Travesti: Território de ternura afiada

A artista Mavi Veloso em foto do projeto #OmeninoQueRoubavaSorrisos, por @Bernoch_ - Bernoch
A artista Mavi Veloso em foto do projeto #OmeninoQueRoubavaSorrisos, por @Bernoch_ Imagem: Bernoch
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

07/04/2021 06h00

Poderia fazer elucubrações complexas
Completamente enxertadas de embasamento histórico
Mas travesti é osso duro
Não é fácil
É fóssil
e talvez palavras demais possam maquiar sua firmeza

Poderia entrevistar das anciãs às mais katitas
Resgatar todas as fitas
Que não registraria toda a memória que tentam nos apagar

Gostaria de revelar com toda doçura e crueldade
O que há por detrás da verdade
De um corpo travesti.
Desmascarar toda a caricatice
desmantelar a caretice que tenta nos corromper.
Quereria eu poder contar as histórias da minhas
mostrar suas manias
línguas
Pernas e punhos
Cerrados e firmes de tanto e tanto resistir.
Suas histórias da rua
De necas mal lavadas engolidas por 20 arô
De peles rasgadas para espantar alibã
De carne marcada pela imoralidade de ser apenas uma trava.

Tantas vidas
Tão pouco tempo ainda
Tão pouca expectativa
Mas tanta e tanta agonia que ainda se pode cantar.
Nos anos 80, a tarântula,
No dia a dia as cobras,
Em 2019 a besta.
E elas
- Nós -
Mal acostumadas ao zoológico
Fazendo o circo pegar fogo
Ganham seus ares e territórios
Conquistam seus alqueires
E mesmo que não queiras
Fazem do dia sua morada também.

Ai, quantas já foram namoradas
Dos mais ricos pais de família.
Minha querida, você já se perguntou por onde anda
Seu marido, seu pai, seu filho
Nas noites de sumiço
De trabalho até mais tarde
De cerveja com os amigos que você nem desconfia?

Já se perguntou o que seria do seu matrimônio sem nossas dores?
E para que rimar amor e dor
Para que guardar rancor, se isso não rasga a tua carne?
Para que sentir o cheiro do suor se ele não escorre na sua pele?

Mas...
Vamos deixar de lado essa história um pouco
Pois eu sei que te repele.
Quero falar mesmo é da ternura dessas travas.
Das gordas
Das magras
Necudas
Raxadas
De xuxu ou sem
Com peito, dois ou três
Nos escritórios, palcos e cafés
Você sabe bem como é que é
Que a rua toda balança quando a gente passa
Aquela menina, cheia de graça
Que entorta o pescoço de todos na rua
Seja pela sua beleza
Pelo estranhamento
Ternura
afiada de tanto sacar seu olhar.
Que firma seu caminhar e segue
Fingindo que não é coisa sua
Porque se o mundo a vê nua
Ela se veste do que é!
E se a verdade nua e crua
Não pode adentrar morada sua
Aguarda e atenta
Respeita e aguenta
Que por mais que tu repita o contrário
Travesti também é carne de mulher!

Que por mais que não esteja em teu honorário
Que finja que nosso caminhar diário não tem a ver contigo
Também te falo, meu amigo
Teu falo não é o nosso
Dá pra ver pelo teu umbigo
A diferença que o teu troço
Não tem nada a ver comigo
E se o babado é biológico
Se a justificativa é a ciência
Fica com tua terra plana
Teu saber empírico
Ensimesmado até o caroço
E saiba que se vê em nós um moço
Será que então não é você
Que se esforça em não ver
no espelho
A mais bela e afiada
A mulher jamais falada
A menina jamais igualada
Conhecidíssima como a noite de Paris?

É, meu bem querido
Queiras ou não queiras
Tua chefe vai ser trava
Tua filha assim já é
E continuo repetindo:
Se a verdade nua e crua
Não pode adentrar morada sua
Aguarda e atenta
Respeita e aguenta
Que por mais que tu repita o contrário
Travesti também é carne de mulher!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL