PUBLICIDADE
Topo

Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quem pode usar vestido, Rodolffo?

Arquivo pessoa/Marcelo Cedeño
Imagem: Arquivo pessoa/Marcelo Cedeño
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

24/03/2021 14h29

Para quem acompanha o Big Brother Brasil 21 já deve ter sacado do que vamos falar hoje, mas para quem não acompanha vou dar aquela explicadinha: foi possível assistir no último final de semana do programa a alguns comentários bastante problemáticos do jogador Rodolffo sobre Fiuk estar usando vestido. Não só problemáticos, na verdade comentários em tom jocoso, de "brincadeira", mas que carregam o machismo, misoginia e transfobia enraizados da nossa sociedade. "Transfobia, Marina?". Sim! Mas fica tranquile que vou chegar lá já já.

Que o jogador é um típico agro-boy, cisgênero, branco e supostamente hétero como já bem conhecemos outros vários na nossa sociedade não podemos contestar. É costumeiro que pessoas que falam deste lugar, que carregam esses marcadores sociais tenham posturas como essa e até mesmo achem elas normais, mas felizmente temos dentro do programa algumas outras que possam não só criticar tal postura, mas se opor completamente a esse tipo de discriminação - Obrigada, Gil e Fiuk!

Não pretendo neste texto me ater apenas ao acontecido, pois debater sobre o direito de Fiuk usar ou não um vestido, passar ou não maquiagem no rosto seria muito superficial da minha parte. Quero convocar vocês a uma reflexão sobre como operam os padrões de gênero na nossa sociedade e, principalmente, a lógica patriarcal e misógina por parte dos homens cisgênero, supostamente heterossexuais e, majoritariamente, brancos - que hoje tomo a liberdade de apelidá-los de Rodolffo para não perder a piada.

"O que vem primeiro? Gênero ou violência? Não importa. São a mesma coisa" (tradução de Travis Alabanza no espetáculo teatral "Burgerz").
As normas de gênero operadas pela sociedade contemporânea, advindas diretamente da colonização europeia, impõem violentamente uma noção binária onde homens e mulheres possuem hábitos, vestimentas e, principalmente, papéis sociais bastante distintos. Sabemos bem que existe uma ampla gama de identidades de gênero possíveis no mundo: pessoas não-binárias, travestis, homens trans, pessoas agênero, gênero-fluido, e muitas outras mais. Essas múltiplas identidades podem ser identificadas em outras sociedades com diferentes nomes: Hijras (India), Muxhes (México), Two Spirits (povos ameríndios norte-americanos) ..., mas ainda há um pensamento negacionista - olha lá, a palavrinha do momento - que acredita que desde que o mundo é mundo a lógica binária opera, seja onde for, e que ela é a regra dessa nossa maravilhosa natureza.

Dentro dessa lógica binária e normativa de gênero podemos encontrar facilmente algumas - ou várias - brechas, onde ela não se sustenta. Por exemplo: pelo ponto de vista dos Rodolffos existe uma compreensão de que homens vestem calça e mulheres usam vestido, certo? Da mesma forma que homens não usam maquiagem, não fazem xixi sentados, não se depilam... Isso, somado a uma cultura que menospreza e diminui qualquer característica que aproxime alguém do que é tido como "feminino", que contradiga em suas ações essa norma imposta, compõem o pensamento patriarcal que opera a manutenção da supremacia cis-masculina, seja ela em poderes aquisitivos e/ou subjetivos.

Esta lógica é tão normalizada e enraizada que até mesmo a biologia tenta incansavelmente nos convencer nos livros que também se adequa a ela - por mais que seja uma tentativa impossível - apagando nossa liberdade de autocompreensão e ditando o gênero das pessoas - por essa mesma lógica - a partir de suas genitálias. Valeria citar aqui as violências que isso acarreta à população intersexo, mas me proponho a discutir isso mais a fundo em outro momento.

Sendo assim, o pensamento Rodolffiano se resume, basicamente, a:

  • Pênis = homem = heterossexualidade = calça = poder = superioridade.
  • Vagina = mulher = vive para o homem = vestido/saia = funcional = subalternidade.

Quando vemos a postura do jogador de tirar sarro de Fiuk por usar vestido podemos nos perguntar: Por que Fiuk não pode usar vestido? Mas penso que a melhor pergunta seria: E quem pode? Pois Fiuk é colocado automaticamente numa posição de bicha, de feminino, de "mulherzinha", de menos homem ao se vestir com tal roupa, portanto passível de ser ridicularizado por Rodolffos, mas se Fiuk não fosse um homem, mas uma travesti, podemos ter plena certeza que essa ridicularização seria ainda maior e constante.

Ao passo que homens cisgêneros que se indumentam de símbolos ditos femininos são tidos como menos homens, travestis e mulheres trans são constantemente masculinizadas pelos Rodolffos. Bixas e pessoas afeminadas em geral são tratadas no feminino, mulherizadas para assim, serem afastadas do ideal de masculinidade, ao mesmo tempo que se uma dessas pessoas, anteriormente ditas homens cisgêneros, transicionam de gênero e passam a se reivindicar enquanto travestis ou mulheres trans, essas mesmas automaticamente são masculinizadas, tratadas no gênero masculino, no intuito de deslegitimar suas existências. Percebem a lógica?

Toda e qualquer pessoa que nasce com pênis e que se reivindica homem mesmo se utilizando desses símbolos será alvo de chacota, inferiorizada, porém, quando a reivindicação de uma pessoa com pênis é para com sua mulheridade, sua travestilidade, quando esse ser se potencializa nesse espectro do feminino os Rodolffos tentarão, a todo momento, dizer que não, que isso não é possível e que mais uma vez eles que estão sendo mal compreendidos - Oh, grandes detentores da verdade!

Balela! Precisamos urgentemente descolonizar nossos entendimentos de gênero e seus papéis sociais. Precisamos mulherizar o mundo, não para que todes sejam mulheres, mas para que todas as identidades sejam sim respeitadas em suas pluralidades, para que entendamos todes que são atitudes e conceitos Rodolffianos que levam às altas taxas de feminicídio, de estupro, de assassinato de pessoas trans e LGBTIA+ em geral. Não é só uma brincadeira equivocada, mas uma lasca de uma pirâmide de poderes e de opressões vigentes.

Para encerrar, não é sobre validarmos quem pode ou não usar vestido, nem mesmo chegarmos a uma conclusão sobre a situação que ocorreu no programa de TV, mas nos questionarmos e observarmos com afinco como essas lógicas tem realizado tamanha catástrofe na história, como elas corroboram com mortes consecutivas, disforias - sendo essas de todas as pessoas, não só pessoas trans - e inclusive com um aumento massivo de cirurgias estéticas, grande parte em adolescentes, para tentar se adequar aos Rodolffos.

Pode parecer que estou indo longe demais, que estou levando ao extremo uma simples piada, mas não estou. E se você não compreendeu os pontos levantados te convido a acompanhar os próximos textos que ainda virão, pois espero pouco a pouco conseguir adentrar mais e mais essas discussões que precisam de tempo, de elaboração e seriedade. Um texto não será o suficiente.

Paciência, meu povo! Não para ensinar os Rodolffos, mas para nos entendermos cada vez mais potentes em nossas desobediências de suas normas delirantes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL