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Marina Mathey

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não estás acostumado

 No pano de fundo de nossas noites, Deus com seu dedo conhecedor traça um pesadelo multiforme impossível (1890), de Odilon Redon .  - Original da Galeria Nacional de Arte. Aprimorado digitalmente por rawpixel (domínio público)
No pano de fundo de nossas noites, Deus com seu dedo conhecedor traça um pesadelo multiforme impossível (1890), de Odilon Redon . Imagem: Original da Galeria Nacional de Arte. Aprimorado digitalmente por rawpixel (domínio público)
Marina Mathey

Marina Mathey é cantora, atriz e diretora. Multiartista e militante pelos direitos de pessoas trans, apresenta uma coluna com conteúdos relacionados a arte, questões sóciopoliticas e acontecimentos gerais, propondo ensaios com provocações para transver o mundo a partir de uma perspectiva não-hegemônica e inquieta.

17/03/2021 04h00

Venho por meio desta comunicar que existem mais coisas entre a paz e a guerra do que conhece a nossa vã filosofia. Nosso amigo Shakespeare disse uma vez que é "entre o céu e a terra", mas em tempos caóticos e de crise humanitária tomo a licença para repensar sua fala.

Creio que vivemos, e não é de hoje, um sintoma de extremo desconforto e intolerância de grande parte das pessoas para com as características, comportamentos e visões de mundo que não condizem com as suas próprias. A lógica do cancelamento nas redes sociais, os governos autoritários ressurgindo em diversos países do mundo, a desigualdade social em um crescimento assustador. Fico abismada por ver como as pessoas acostumam-se facilmente às violências estabelecidas em seus mais diversos âmbitos para a manutenção dos poderes. O capitalismo normal, as violências de classe, raça e gênero normais, o descaso absoluto de um líder político para com a população de seu país normal, o genocídio normal. Tudo, absolutamente tudo incomoda menos do que o que foge ou luta contra esse sintoma social da naturalização das estruturas vigentes. Óbvio, não é nenhuma novidade que temos as mídias de massa na maioria das vezes trabalhando em prol da manutenção dessa normalidade, pois nada melhor para os mais ricos que tudo permaneça assim como está.

Creio que o processo que estamos vivendo com essa pandemia mundial nos proporciona - talvez pela primeira vez - a possibilidade de um olhar mais abrangente sobre as relações humanas que vêm sendo construídas já há muito tempo e que não comportam a qualidade de vida e a dignidade de todos os seres. Por muito, e ainda agora, a desumanização de determinadas vivências se tornou hábito necessário para a manutenção da vida esbanjante de uma pequena porcentagem da população, e como tudo que é praticado de forma repetida e constante se torna um hábito, essa violência se naturalizou e aparentemente se tornou algo normal, como se fosse uma regra da natureza que ela exista para o funcionamento do mundo.

Mas é só estudarmos um pouco da história da humanidade que podemos perceber que as coisas não foram assim desde sempre e que, portanto, existe a possibilidade de mudança, existe a possibilidade de darmos corpo à nossa revolta e repensar formas de socialização mais igualitárias e respeitosas para todes, onde inclusive não precisemos ser vistos como iguais - o que hoje muito é dito para apagar as violências estruturais vigentes - mas potentes e complementares em nossas diferenças.

O que quero propor aqui, de hoje em diante, é que não estejamos mais acostumados a nada. A inquietude é uma virtude daqueles e daquelas que firmam um compromisso com a verdade, essa que anda tão questionável nos últimos anos. Ser uma pessoa inquieta é poder encontrar a paz no caos, compreender que a luta pelos direitos e pela dignidade de todes é algo constante e diário, e que essa sim possa se tornar um hábito. Não mais um hábito de apatia, alienação e conforto, mas um hábito inquieto, desestabilizante, um hábito de duvidar e questionar constantemente o que é ou está estabelecido como regra. E isso vai além do universo particular de cada pessoa. É sobre perceber e sentir o incômodo daquele e daquela que não habita a mesma realidade que você, sobre ver que existem múltiplas formas de existência e situações que não correspondem à sua própria e que elas coabitam o mesmo mundo que você, portanto são também de sua responsabilidade.

Eu entendo que possa parecer difícil - ainda mais num momento de pedido por isolamento social e num mundo individualizante - que atuemos em conexão com os diferentes e aparentemente distantes de nós. Mas o pobre está trabalhando na casa, na fábrica, no comércio do rico; as profissionais do sexo - muitas delas travestis - por mais que invisibilizadas, estão em contato direto e constante com os pais de família que as procuram diariamente na prostituição. Então se esses encontros podem ser hoje mantenedores da desigualdade e da violência, por que não pensarmos eles como possibilidades de aproximação.

Não digo para que o trabalho doméstico, a exploração da mão de obra das classes mais pobres, a realidade que empurra as pessoas trans para a prostituição precisem e tenham que se manter para que nos encontremos, mas já que é o que vivemos hoje, como podemos a partir disso possibilitar outras camadas mais significativas quando estes encontros acontecem? E aí sim poder transformá-los, repensá-los.

Enquanto o corpo alheio parecer para alguns apenas mão de obra ou objeto de consumo continuaremos a não perceber que quem compra corpo, comprável é. Quem descarta, descartável é, e assim por diante.

Portanto, nem a paz nem a guerra, pois essas são co dependentes, mas todo o entre essas palavras e ações que pode nos encaminhar para alguma perspectiva divergente, menos cômoda, menos rígida, menos binária, onde as dores possam ser sentidas por todes e que esbanjemos coletivamente do que nos é necessário para viver.

Reitero: não falo aqui sobre sermos todos exatamente iguais, mas que a violência possa ser redistribuída - como já bem disse Jota Mombaça - e, com nossos couros mais aliviados, possamos respirar mais profundo e oxigenar nossas posturas. É sobre respiração. É sobre quem pode e quem não pode respirar ainda hoje, em tempos que até mesmo o oxigênio tem se tornado um espaço de disputa e, contraditoriamente, de contaminação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL