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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É tempo de derrotar quem nos mata

Vista aérea mostra área de desmatamento na fronteira entre a Amazônia e o Cerrado, em Nova Xavantina, no Mato Grosso - Amanda Perobelli/File Photo/Reuters
Vista aérea mostra área de desmatamento na fronteira entre a Amazônia e o Cerrado, em Nova Xavantina, no Mato Grosso Imagem: Amanda Perobelli/File Photo/Reuters

Mariana Belmont

21/05/2022 06h00

Pensei diversas vezes como escrever esse texto. Tenho ficado sem criatividade, antes eu sentava na cadeira e navegava entre as palavras, mas agora sinto que não sei mais pegar essa maré. Pode ser o cansaço, a quantidade de trabalho e a falta de tempo ou a força dele que só me deixa correr.

Passei os últimos dias no Cerrado, acordando e olhando para essa mata linda, sentindo o cheiro pelo vento. Eu amo a Mata Atlântica, a Amazônia, mas o Cerrado me nota e me olha com cara de quem gosta de mim.

Sabe quando a humanidade se embrenha na natureza? Você pega um barco e passa pelas comunidades caiçaras, faz uma trilha e encontra agricultores trabalhando em sua agrofloresta ou conhece de fato o modo de vida impressionante e importante da população quilombola e indígena.

Sentar com Dona Laura no Quilombo da Fazenda, ouvi-la falar que o clima não é mais o mesmo, que o homem branco está acabando com a natureza e isso vai ser perigoso para todo mundo, principalmente para as comunidades que mais protegem a natureza, que cuidam de suas casas que são as florestas.

Antes da viagem eu reli Ailton Krenak: "O que nos resta é viver as experiências, tanto a do desastre quanto a do silêncio. Às vezes nós até queremos viver a experiência do silêncio, mas não a do desastre, ninguém precisa vir tirar a gente daqui, vamos atravessar o deserto, temos que atravessar. Ou toda vez que você vê um deserto você sai correndo? Quando aparecer um deserto, o atravesse". É como se ele estivesse sentado diante de mim me orientando, assim como Dona Laura.

Essa semana o Observatório do Clima lançou o plano de reconstrução ambiental do país, um documento com 74 medidas que o próximo presidente da República pode adotar nos primeiros dois anos do novo governo para começar a reverter o legado tóxico de Jair Bolsonaro e reconstruir a política ambiental do país.

O documento foi entregue às campanhas dos principais pré-candidatos ao Planalto, exceto a do atual detentor do cargo. Na última terça-feira (17), o Observatório também lançou um posicionamento político sobre as eleições no qual afirma que a única esperança para o meio ambiente, os direitos humanos e a democracia no Brasil é varrer Bolsonaro nas urnas em outubro. "Com Bolsonaro não há futuro para a política ambiental no Brasil", afirma o relatório Brasil 2045.

Vou me atentar aqui, a partir da lembrança da existência de Dona Laura e Ailton Krenak, ao tema 4 do documento lançado, que fala sobre justiça climática. Eu particularmente, e ouvindo minhas referências do tema, não uso esse termo, usamos por aqui racismo ambiental, a justiça que não existe e parece branca demais para apaziguar o racismo colocado na estrutura as ações do estado, no jeito de operar de organizações da sociedade civil e a vida real das pessoas nas pontas das cidades e nos territórios rurais do país.

A proposta apresentada como caminho crucial para enfrentar esse problema é incluir na produção da política climática, e nos debates relativos a ela, a interseccionalidade de elementos como gênero, etnia, raça, classe, orientação sexual, localização geográfica e idade, entre outros que geram suscetibilidades distintas. Antes do atual governo, a política climática brasileira vinha reconhecendo algumas dessas vulnerabilidades. Mas o que já era insuficiente agora no atual governo é ainda pior. É preciso expandir e considerar os saberes e contribuições desses grupos para o combate às mudanças climáticas, inclusive na formulação de conteúdo que subsidie a tomada de decisão governamental.

Os direitos humanos precisam ter centralidade nos debates e construções sobre políticas climáticas. No último verão brasileiro, por exemplo, vivenciamos a ocorrência de chuvas extremas em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia com impactos devastadores para sua população e para muitos municípios, com mortes e destruição concentradas especialmente em populações mais pobres que viviam em áreas de risco. Na mesma estação, no Rio Grande do Sul, um calor intenso e a estiagem levaram a perdas na produção agrícola e a problemas no abastecimento de água e energia. As comunidades periféricas foram as que mais sofreram.

O mundo tem pouco mais de 90 meses para solucionar o maior desafio coletivo já enfrentado pela humanidade, a crise climática. NOVENTA MESES. E assim começa o documento que precisa ser esgarçado e ampliado, com mais contribuições do movimento negro, movimento indígena, movimento de mulheres e periférico das cidades. Não temos mais condição de só aprovar planos prontos, precisamos sentar na mesa da elaboração e das negociações.

No mais, agradeço a generosidade, profissionalismo, dedicação e toda entrega da incrível Suely Araújo, especialista-sênior em políticas públicas do OC. Ela é a principal organizadora do trabalho. Sua prontidão de ouvir, construir e estar à disposição para um horizonte possível de país é muito admirável e fico feliz de hoje poder aprender e te ouvir. Agradeço e honro demais sua existência nesse campo.

A recriação do mundo, o mergulho profundo para desafogar ele do fim é possível o tempo todo e só é possível coletivamente, mas com o protagonismo da maioria da população.