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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A pandemia não me abandonou

Mulher segura placa em que se lê "fechado" na porta de um estabelecimento comercial - iStock
Mulher segura placa em que se lê "fechado" na porta de um estabelecimento comercial Imagem: iStock

Mariana Belmont

02/09/2021 09h05

No começo da pandemia, nas primeiras semanas, houve quem escrevesse textos poéticos, coisas longas que apontavam mudanças drásticas no modo de vida dos seres humanos. Propostas que misturavam passado e presente, inflexões algorítmicas e reflexões teóricas, baseadas em escritos antigos, todos muito provavelmente escritos por homens brancos que já tinham as respostas na ponta da língua (risos).

Fiquei pensando sobre isso essa semana, buscando entender esse buraco todo sem fundo que a humanidade se meteu. O Brasil? Caiu de cara no alçapão que estava no fundo do buraco. Sim, a coisa tá feia, e aparentemente aquela história (ou ladainha?) de novo normal e de repensar o capitalismo, a forma de viver e de ser evoluído, não rolaram por aqui.

Pois é, o Ailton Krenak está certo, sempre está.

Mas essa semana eu sucumbi ao pânico e ao surto, que foi individual, mas que parece acontecer coletivamente no mundo, no Brasil. Chorei com força durante 4h. Deitada na minha cama, aninhada e sentindo um abandono tremendo, um desejo de falar com alguém. Não consegui nem pegar meu celular para escolher uma pessoa, porque as pessoas estavam se encontrando.

Parei de chorar na manhã seguinte, enquanto tomava uma xícara de café. Fiquei ali rememorando o momento e pensei: "acho que a pandemia bateu forte em mim". Foi tipo uma pancada na cabeça, que você acorda e percebe que as coisas estão fora do controle, ou sempre estiveram.

Chapei de pandemia. E no pensamento daquela manhã, martelava na minha cabeça o sentimento de que: "parece que perdi o jeito com meus amigos, com quem me relaciono". Quando eu choro muito, fico com dor de cabeça, e vocês? Olhos inchados e dor forte. Eu estava de ressaca de mim mesma, de um surto de abandono e falta de jeito com as pessoas.

Hoje consigo olhar para esse momento e percebo que tanto tempo longe das pessoas me fez uma pessoa estranha, que não quer encontrar, que evita sair, que resiste aos convites e que não propõe nada, nem um encontro na calçada. A vontade é só de sair correndo e ficar em casa com a rotina chata, de muitas horas de trabalho e coisas que inventei para cuidar de mim e do meu corpo. Tudo ótimo, eu adoro, não reclamo, mas e as pessoas, e aquela sensação de esbarrar com elas?

Para onde a gente olha quando está assim, como a gente chama alguém, como a gente diz que alguém faz falta, como a gente reconecta e pede para estar perto? Não sei, não lembro. Eu costumava propor algo todos os dias depois das 18h, ou ser convidada esporadicamente para um jantar. Ou só chegar sozinha no bar do Mauro e lá encontrava todos que precisava.

É difícil descobrir as nossas sombras e trilhar a jornada pra dentro de si. O encontro com elas nem sempre é dos mais aprazíveis: nos esquivamos, fingimos não ver, empurramos pra baixo do tapete e engolimos seco. Mas arredias, elas permanecem ali nos dando pistas e oi. Requer coragem olhá-las de frente.

E dói, né?

Os encontros que não aconteceram, as estradas não rodadas, as viagens, as risadas e os abraços. Nossa que saudade de um abraço longo e sem medo de não ter feito um exame de covid. E o monte de cerveja e comida que não bebi e comi?

Mas tudo bem, não são lamentos, afinal não adianta chorar o leite derramado. Saudade de viver experiências, sabe? Abraçar.

Muita gente escreveu textos sobre abraços e beijos, sobre falta disso e daquilo, a quantidade de compras online, mas pouca gente sabia mesmo o que ia acontecer, quais seriam os motivos de tanto choro, tristeza e falta de desejos e futuros.

Então, meus caros, peçam apoio, não faltem na terapia, sem autodiagnóstico. Peguem o telefone e liguem para alguém, nem que seja para esse alguém te ouvir chorar ou reclamar. Se puderem, morem perto de amigos e brindem um café fora de hora.

Hoje me sinto inteira, anteontem, ontem eu era metade. A impressão é que caminho longas distâncias nessa trilha, mas preciso parar no caminho para descansar e me lembrar que dá para pedir ajuda, que a pandemia não acabou e que ninguém está verdadeiramente bem.

Todos estamos cansados e tristes, mesmo os imprudentes que vão para os bares lotados, baladas e casas de show.

Quero viver grandes histórias com meus amigos, chorar e sorrir com eles, estar na praia e no mato sendo feliz. Quero aproveitar o resto desse mundo. Pisar na água fria e sentir o corpo arrepiar.

Obrigada aos amigos, que me aguentam, estão perto e me amam.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL