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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A biografia de Sueli Carneiro deve ser leitura obrigatória

Sueli Carneiro, a ativista responsável por enegrecer o feminismo no Brasil - Natalia Sena Carneiro
Sueli Carneiro, a ativista responsável por enegrecer o feminismo no Brasil Imagem: Natalia Sena Carneiro

Mariana Belmont

13/05/2021 06h00

Eu tô aqui pensando em como escrever o texto desta semana sem chorar, mas já é impossível desde 2018. Passei alguns minutos na frente da minha estante de livros buscando com o olhar os meus livros preferidos, espiando e checando se estão ali.

E ao fazer isso, fiquei tentando lembrar de dois momentos marcantes para mim com Bianca Santana e Sueli Carneiro. Em pouco tempo, muita história! É muita vida dentro de uma vida, é muito tempo em meio a intensidade. Poucos anos, mas que num triz, parecem o tempo de toda uma vida, não sei explicar.

Depois de uma reunião no Geledés - Instituto da Mulher Negra, saímos para almoçar e voltamos para a sede do instituto. Esperávamos o elevador eu, Sueli e Douglas, um ao lado do outro. Eis que em questão de segundos, Sueli virou para mim e disse: "Você está escrevendo para o UOL, né? Li seu texto e replicamos no portal do Geledés". Eu sorri. Não consegui dizer absolutamente nada.

Sueli Carneiro leu meus textos, nossa!

Mas bem antes, em 2018, estava lá eu no lançamento de pré-candidatura do meu querido amigo Douglas Belchior, de pé na porta do Teatro Oficina, ao lado da Carô, uma amiga, que puxou a mim e a Bianca pelo braço e disse: "Vocês se conhecem? Precisamos falar dessa campanha, e acho que vocês deveriam se conhecer!". No dia seguinte, me vi sentada na casa da Bianca para organizar a campanha. Nunca mais sai de perto dela.

Alguns vão dizer que o elo foi o Douglas Belchior. Errado não tão! Ele realmente esteve presente nos momentos mais importantes desses encontros. E me pegou pela mão para eu permanecer aqui, no lugar que deveria estar.

Obrigada, Douglas.

Muitos textos serão escritos sobre o lançamento de um livro que é uma marca importante na história do Movimento Negro Brasileiro. O dia 11 de maio de 2021 será lembrado, e deveria ter sido feriado, pelo evento de lançamento de "Continuo Preta", livro que Bianca Santana escreveu sobre a vida de Sueli Carneiro.

Na jornada de escrita do livro, pude me aproximar de histórias do movimento negro que eu nem imaginava. Não me ensinaram na escola: me privaram e privaram várias crianças e adolescentes de viver a verdadeira história do Brasil.

Mas eu já tinha ouvido sobre a Sueli Carneiro, em uma aula de história no ensino médio, com o professor Edélcio. Lembro dele falar sobre a Sueli e lamentar que não tinha nada sobre ela no livro de História que o Governo do Estado de São Paulo nos dava. "É uma pena não ter nada sobre a importância do movimento negro nos nossos livros, não temos Milton Santos nos livros de geografia. Não temos a Sueli Carneiro". Acho que nunca contei isso para ninguém.

Durante a live de lançamento do livro, muitos momentos passaram pela minha cabeça. Enquanto a Bianca escrevia, a gente conversava e trocava o tempo inteiro. Ela enviava fotos e coisas sobre a pesquisa e os processos.

Houve uma noite em especial que eu vi algumas coisas e respondi em áudio, um áudio longo e cheio de choro emocionado. Não era tristeza, era a mesma emoção que eu sinto agora ao escrever esse texto: uma emoção sem tamanho pelo fato de poder, enfim, ouvir uma outra versão da História - aquela que não estava nos livros didáticos. Fico sempre me perguntando por que mais pessoas não sabem disso? Deveriam.

Semanas se passam dentro dessa pandemia que já levou quase meio milhão de pessoas em um ano, só no Brasil. Jovens negros continuam morrendo nas favelas e periferias do país. A imprensa continua com medo de falar a palavra genocídio e de apontar os reais culpados dessa situação que é histórica. Pessoas morrem de fome ou são mortas, porque estão com fome e precisam achar um jeito de viver. Você pode não querer enxergar, mas o racismo está em todo lugar na sociedade, o tempo todo.

Eu queria ter acordado na quarta pós-lançamento e ver o livro sobre a vida da Sueli, que é a vida do movimento negro brasileiro, em todas as capas de jornais e revistas. A importância dessa mulher para a história é gigante.

O release do livro divulgado pela editora Companhia das Letras, diz "uma das maiores intelectuais públicas do Brasil, referência histórica do movimento negro, biografada por uma das mais promissoras vozes da nova geração", e eu não posso discordar de nada.

Sueli Carneiro é uma das principais intelectuais públicas brasileiras. Em mais de 40 anos de ativismo, ela vem combinando escrita, academia e intelectualidade para qualificar uma luta política que enegreceu o feminismo no Brasil e, ao mesmo tempo, colocou as mulheres como protagonistas do movimento negro.

"Entre a esquerda e a direita, sei que continuo preta". Mais do que célebre, a tirada proferida por Sueli Carneiro sintetiza um lugar político fundamental para o movimento negro brasileiro. E sua vida oferece o desenho exemplar dessa posição.

Para dar conta de uma longa trajetória política que se confunde com a própria história do Brasil pós-redemocratização, a Bianca Santana realizou muitas e muitas horas de entrevistas e empreendeu uma escavação documental cuidadosa nesta biografia que é, a um só tempo, tributo à caminhada de Sueli Carneiro, repositório de informação sobre a luta das mulheres negras no Brasil e, por tudo isso, preciosa fonte de inspiração para as futuras gerações.

Espero que esse livro chegue nas escolas, que seja livro didático ao lado de livros sobre Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento e outras milhares de referências negras que construíram a história desse país.

Bianca é quem senta com a gente na calçada e fica horas conversando sobre muitas coisas. É a amiga que precisa de abraço e transborda amor. Bianca é parceira, amiga, referência. É quem cuida e quem chama atenção para nos cuidar. É quem nos orienta para seguirmos juntas e juntos pelo que precisa ser feito.

Bianca Santana é dançarina do tempo, tecelã de vidas, movimentos e tempos históricos. É quem nos lembra que precisamos registrar a história, como fez ao registrar a vida da Sueli Carneiro.

Finalizo esse texto agradecendo ao Douglas Belchior, por conectar pontes, amontoar um monte de gente importante e fazer a coisa acontecer naturalmente. Muito respeito e admiração por você, amigo. Obrigada por nos chamar para a revolução.

Viva Sueli Carneiro!
Viva Bianca Santana!
Viva e obrigada ao Movimento Negro Brasileiro!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL