PUBLICIDADE
Topo

Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A cidade que produz comida para quem tem fome

Arpad Spalding
Imagem: Arpad Spalding

Mariana Belmont

06/05/2021 06h00

Qual a sua relação com a comida?

Escrevi aqui sobre o caminho que a fome percorre na mesa dos brasileiros e o que se sente com fome, sobre o que a redução do auxílio emergencial causa na vida direta dos brasileiros - a fome -, e qual a saída para que os dados da fome não sejam tão assustadores.

Nos últimos dias, Ecoa tem nos apresentado reportagens especiais sobre Alimentação, passando por políticas públicas, por tipos de alimentação, comidas mais populares e muitos outros temas.

Para mim, a comida tem uma relação forte e intensa com a vida da gente, com o afeto e as dinâmicas da nossa casa. Da falta ou da abundância. Dos dias do mês onde a despensa está cheia e quando vamos moderando o que tem para dar tempo e fazer render até o dia de pagamento.

Chegou aqui em casa um pacote grande de pinhão e eu não me lembro de outro alimento, mas deve existir, que faça me conectar mais com Parelheiros. A paisagem na estrada chegando lá na minha casa é repleta de grandes araucárias. O pinhão é a semente da Araucária e a parte comestível da pinha, e é nativa. Entre março e agosto dá para ser feliz comendo pinhão cozido. Na frente do meu quintal tem uma antiga linha de trem, lá tem algumas araucárias e é de lá que meu padrinho pega vários, coloca na panela de pressão e a gente come pinhão a valer desde criança. Era sempre uma aventura ir lá catar as sementes.

A comida nos conecta com relações familiares e amigos: a dinâmica de buscar, ver crescer e compartilhar é antiga, costumes tradicionais de indígenas e quilombolas. Partilhar e conectar o alimento à terra, a convivência e a história.

Fui criada com uma família de padrinhos nordestinos, madrinha pernambucana que brigava para não ter desperdício de comida em casa e que criou a dinâmica para comermos comida e não "besteira", segundo ela. Quando ela dizia isso, falava dos ultraprocessados, salgadinhos e coisas da doceria. Em casa era comida de verdade e uma parte significativa da horta e da criação de galinhas do quintal.

Produção em Parelheiros - Arpad Spalding - Arpad Spalding
Imagem: Arpad Spalding

Há uns dias recebi no Whatsapp imagens de caixas de produtos fruto da transição agroecológica, processo que possibilita benefícios ambientais, sociais e econômicos dos agricultores lá do extremo sul, também, minha terra. Os produtos estão sendo vendidos para movimentos e organizações que fazem campanhas para a distribuição de alimentos para famílias que estão em situação de insegurança alimentar leve, moderada ou grave. Ou seja, com fome.

Desde o começo da pandemia, agricultores da zona sul da cidade de São Paulo, articulados pela Cooperapas, seguem fazendo doação de cestas para vários grupos diferentes. Muitos agricultores estavam perdendo sua produção, principalmente convencionais, pela baixa venda.

"Uma experiência legal desse processo de doação e articulação de cestas com valores mais baixos para a população mais vulnerável, é que os agricultores convencionais começaram a se sensibilizar e pensar em fazer a transição agroecológica da sua produção. Um deles separou uma área dentro do seu sítio para manejo orgânico, separou uns 10 mil metros para fazer esse manejo dos produtos que ele manda para as cestas populares. Aí ele se empolgou e arrendou outra terra para plantar exclusivamente produção orgânica. O combinado com ele é que aos poucos vai largando o convencional e ficando apenas com os orgânicos", contou meu amigo geógrafo e agricultor Arpad Spalding.

Veja só, em uma movimentação solidária que faz com que a comida chegue na casa de quem precisa, e na casa dos agricultores que precisam vender seus produtos, outros frutos foram gerados. O incentivo para que agricultores convencionais façam a transição e ajudem a preservação ambiental local, os rios e o ar. Isso quer dizer que existem programas, como o Projeto Ligue os Pontos, e articulações para que as periferias consumam alimentos com qualidade e sem agrotóxico, e, como consequência, geram empregos importantes para a economia local.

A campanha #TemGenteComFome, da Coalizão Negra Por Direitos, incluiu orgânicos e produtos em transição nas suas compras de cestas para distribuição pelo país. Porque as pessoas precisam comer bem e com qualidade. Isso tudo ainda incentiva que as produções cresçam e que sejam popularizadas ainda mais, como o trabalho que o Movimento Sem Terra faz há muitos anos por todo Brasil.

Na prática e como prática, a campanha acaba incentivando o consumo de produtos orgânicos, ou ainda em transição, e a criação de hortas comunitárias nos territórios, como forma das pessoas se envolverem na produção para que tenham uma fonte de alimento permanente. Implementar políticas públicas e parcerias de estímulo à produção local, acessível, sustentável e circular de alimentos saudáveis e de redução do desperdício, garantindo o acesso de toda população a uma alimentação regular, saudável, beneficiando a saúde e qualidade de vida de todos. Além de estimular e convocar governos para que dêem subsídios aos agricultores. Esse é um dos pontos fundamentais da Agenda Urbana do Clima, criada por diversas organizações sociais em 2020.

Tudo isso faz parte de uma sociedade disposta a se alimentar bem e viver no coletivo para ter histórias e tradições alimentares para contar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL