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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Movimento negro combate o racismo ambiental enquanto Brasil passa vergonha

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante cerimônia no Palácio do Planalto (29/09/2020) - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, durante cerimônia no Palácio do Planalto (29/09/2020) Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo

Mariana Belmont

22/04/2021 06h00

Hoje é dia do Brasil passar vergonha na Cúpula do Clima, pelo menos essa é a expectativa em torno da participação do governo Bolsonaro no encontro com 40 líderes mundiais que se reunirão, a convite do presidente americano, Joe Biden, para discutir ações conjuntas para tentar preservar o meio ambiente.

Para quem, como eu, está lendo "A terra inabitável - uma história do futuro", do jornalista David Wallace-Wells, sabe que a chance de salvarmos algo é muito pequena, ainda mais quando um dos países tem Ricardo Salles como ministro do Meio Ambiente, um sujeito que negocia com madeireiros e fecha os olhos para o garimpo ilegal em terras indígenas. Vergonha não é nada perto do colapso ambiental que o Brasil lidera nos últimos anos, só dar uma olhada nos números do desmatamento ou a lista de horrores que transforma o país em terra arrasada.

Enquanto você lê esse texto o Bolsonaro terá um discurso de três minutos, aqueles três longos e vergonhosos três minutos de elevador sem assunto na reunião da Cúpula do Clima. Enquanto você lê esse texto, Salles já pode ter falado mais alguma frase inesquecível , e mentirosa.
Enquanto você lê isso, milhares de pessoas estão passando fome, e essa conversa em busca de soluções tem tudo a ver com isso.

Vamos aguardar.

E a comida vai acabar mesmo?

Em 2018, o planeta ficou 1,1ºC mais quente, segundo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), organização de cientistas vinculada às Nações Unidas. O sistema agrícola deve ser um dos setores mais afetados pela mudança climática, com mais ou menos danos, a depender da região. Frequentes chuvas ou secas intensas podem levar à escassez de alimentos e à fome, segundo o IPCC. Em 2014, alterações no clima já afetaram negativamente safras de milho e trigo em diversos locais do planeta. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 800 milhões é a quantidade de pessoas que passam fome no mundo hoje.

Aqui no Brasil, as mudanças climáticas estão conectadas ao descaso e abandono do governo.

E enquanto o Brasil passa vergonha diante de líderes mundiais, mais da metade dos domicílios brasileiros (55,2%), ou seja, mais de 116,8 milhões de pessoas, conviveram com algum grau de insegurança alimentar nos últimos três meses de 2020, e 9% deles vivenciaram insegurança alimentar grave, o que significa que 19 milhões de brasileiros passaram fome. Isso é o dobro do que fora registrado em 2009, e representa um regresso ao nível observado em 2004, quase um ano após o lançamento do programa Fome Zero. É o que revela o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da covid-19 no Brasil.

Desde o dia 0 da pandemia era esperado que a disponibilidade e o acesso à comida ocupassem o centro das preocupações no contexto de pandemia ao lado dos cuidados com a saúde das pessoas infectadas ou não pela covid-19. Tanto é que organizações e movimentos sociais se movimentaram e continuam se movimentando com urgência para promover campanhas e distribuição de cestas pelo país, afinal, #TemGenteComFome.

Diante da promoção da política de morte do atual governo brasileiro e da destruição dos direitos, além de cobrarmos o Estado, temos que ter em vista que as organizações comunitárias e populares em busca por autonomia são fundamentais. Com a pandemia de covid-19, além das mais de quase 400 mil mortes notificadas, o agravamento da crise econômica tem deixado pessoas negras e pobres ainda mais vulneráveis. Em 2020, a Uneafro Brasil mobilizou uma campanha de doações para a distribuição de mais de 25 toneladas de alimentos em 57 territórios, extrapolando os 39 territórios onde estão articulados os núcleos de educação popular.

Mas, por mais que as cestas básicas sejam importantes para garantir a segurança alimentar de milhares de pessoas, essa é uma ação insuficiente, limitada e insustentável. É urgente trabalhar por soberania alimentar. Cada território precisa ter o direito de decidir sobre suas formas de viver e de consumir e produzir alimentos. Aprender com o movimento quilombola e campesino a travar a luta popular também nas cozinhas, quintais, terrenos comunitários é fundamental, e a Uneafro começa a fazer isso nos territórios ainda em 2021. O projeto, que visa estimular o debate sobre alimentação saudável e produzida perto da casa das pessoas, se inicia com a articulação para que três hortas sejam implantadas em territórios onde já existem núcleos de educação popular da Uneafro Brasil.

Precisamos de coragem! Qualquer pessoa deve ter consciência sobre a realidade das condições ambientais do planeta. Afinal, as mudanças climáticas prometem erguer um império da fome entre os pobres do mundo.

O racismo ambiental está no dia a dia

"Em setembro de 2019, um jovem negro foi torturado por seguranças do supermercado Ricoy na zona sul de São Paulo, acusado de roubo. Dois anos antes, João Vitor, de 13 anos de idade, foi assassinado por seguranças da lanchonete Habib's. Pedro Gonzaga, assassinado no supermercado Extra, e João Alberto Silva Freitas, assassinado no Carrefour ganharam repercussão nacional. Todos esses casos escancaram o genocídio negro promovido por empresas privadas com a conivência do Estado brasileiro. Mas eles também nos indicam como a população negra é refém de consumir em grandes redes varejistas capitalistas que, além de lucrarem com a venda de comida industrializada e com veneno, persegue pessoas negras nos supermercados como se fossem criminosas; torturam e matam", nos situa Bianca Santana, jornalista, militante da Uneafro Brasil e diretora da Casa Sueli Carneiro.

Movimentos e organizações de base começaram a incorporar ao seu trabalho formações sobre racismo ambiental, agroecologia e soberania alimentar. O objetivo é contribuir com a auto organização territorial e comunitária da juventude negra na resistência ao racismo e à necropolítica. E isso é urgente: estar na centralidade do debate ambiental, na mesa de decisão e cobrar o Estado.

Precisamos nos fortalecer em rede, produzir conteúdo, participar de debates e fazer parte de conversas sobre a construção de futuros, sobre os próximos tempos. Cuidar da água e da terra é fundamental para a nossa sobrevivência, e o papel do território periférico, por meio da economia do cuidado e dos saberemos, é fundamental para o clima e para a vida das pessoas.

Hoje (22), Dia da Terra, acontece um aulão com o tema "Diálogos sobre educação popular e agroecologia urbana", com transmissão ao vivo, às 19h30, pelas redes da Uneafro Brasil. O chamado "aulão ambiental" faz parte da programação do Núcleo Virtual da organização e pretende unir os movimentos urbanos e os do campo para uma troca de experiência e aprendizados sobre sobrevivência. A principal discussão será sobre a importância de posicionar a soberania alimentar no centro do debate político e social, assim como o direito à moradia, o acesso à alimentação saudável, ao uso da terra, à água potável e ao saneamento básico por parte dos povos brasileiros.

No dia da Terra passaremos vergonha internacional, mas teremos o movimento negro mais uma vez se organizando para trazer temas urgentes e importantes para a centralidade da sociedade. Estaremos lá!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL