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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nos encontraremos quando tudo passar?

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Imagem: iStock

Mariana Belmont

15/04/2021 06h00

Estou apática. Entorpecida. E surtando diante de tanta tragédia.

O que eu sinto, sentada aqui no sofá de casa, é uma tristeza meio sem tamanho. Há semanas, todos os dias, olho para os números de mortos, e parece que todos aqueles "nomes e sobrenomes" viraram números mesmo. Estamos apáticos. Vivemos em um país que, dia após dia, está exterminando as pessoas. As notícias nos chegam: mais de mil pessoas morreram em decorrência da covid-19 em apenas um dia. Ontem, mais de 3 mil. Hoje, mais de 4 mil. Números.

Eu tô há dias num abismo. Como me desconectar do mundo real, não consigo. Não consigo tirar um sabático de notícias, porque eu trabalho com direitos humanos e com pessoas. Meus amigos estão doentes e eu preciso estar cotidianamente querendo saber como estão. Não consigo me alienar em programas de televisão.

No começo da pandemia, eu perdi uma das grandes pessoas da minha vida: o Tio Hélio. Dediquei uma coluna inteira a ele e ao sentimento de impotência e dor diante da perda de quem amamos. Não poder se despedir é devastador. Aí a gente foi perdendo os amigos, amigos de amigos, família de amigos. Eu ligo em casa quase todo dia, sabe? Falo com a minha tia, meu primo e meu padrinho, minha família. Queria poder prendê-los em um lugar até tudo isso passar.

Um grande amigo ficou internado na UTI por dias. Semana passada ele teve alta, está em casa, está bem. Uff, receber a notícia de que ele estava se recuperando, indo pra casa, foi absurdamente libertador. A angústia espremida pode, finalmente, dar lugar à alegria. Mas não por muito tempo. Na mesma semana meu padrinho apresentou sintomas. Agonia, agonia, angústia, angústia?o resultado: negativo. Ufa, de novo!

Consegui dormir aquela noite.

Acordo na segunda com duas notícias, um amigo querido internou, descobriu que estava com covid e piorou. Horas depois a notícia que perdemos o Vermelho, um artista brilhante que conheci no trajeto da vida pertinho da galeria A7MA. Perdemos pessoas todos os dias. E nosso emocional foca nos amigos internados.

A minha impressão é que não podemos viver entre constantes ufas! Será mesmo que a gente tá entendendo o tamanho do luto? Aquele processo quando a gente perde alguém querido e amado, fica triste, chora, faz os rituais de despedida para a passagem da pessoa ser tranquila.

Não temos nem mesmo sequer o tempo adequado das despedidas.

Quem vai sobrar quando isso acabar?

Nos últimos dias, além do medo, meu corpo foi tomado por uma saudade, pensei nas pessoas e aí fui lembrando que elas já se foram.

Saudade dos encontros de domingo, da família e dos amigos reunidos.

Será que quem sobrar vai se reunir, se abraçar e ficar um tempo grudado até sentir o sangue circular pelo corpo? Será que meu corpo vai voltar a ficar quente e conseguir, no tempo das coisas, se nutrir novamente do afeto? Será que conseguiremos nos reinventar, lembrando de quem perdemos e acolhendo quem quase se perdeu, mas achou o caminho.

Tem muita gente triste, eu tô triste.

Tem gente com fome.

Tem gente morrendo.

Ninguém aguenta mais e, mesmo junto, tá todo mundo sozinho lidando consigo mesmo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL