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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como acordar desse pesadelo?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Mariana Belmont

25/03/2021 04h00

Era meio da semana, o interfone tocou. Abri a porta e desci para buscar o tal pacote, sem tirar o fone e sem desconectar da reunião que estava acontecendo ali, naquele momento, tudo meio junto, tudo meio misturado. Entre uma fala e outra, levantei a cabeça, e para a minha surpresa estavam todos na portaria me olhando. Eu desci sem máscara. "Negacionista", gritavam na brincadeira aqueles que me conhecem bem e sabem que não meto o nariz pra fora de casa há mais de ano. A vontade mesmo era de sentar no chão e chorar.

Poxa, tô em casa há um ano, sem ver minha família lá em Parelheiros, se eu saí umas 10 vezes para coisas como dentista e cartório foi muito. Eu não percebi que desci sem máscara. Minha cabeça está condicionada a levantar da cama no mesmo horário, faço xixi ou cocô, esquento a água para o café, tomo banho, pego o café, sento no computador e sigo o dia em reuniões, escrevendo, cumprindo as tarefas da lista enorme de coisas que não terminam nunca. Me levanto, esquento almoço, almoço na frente do computador. A rotina só muda quando faço exercício físico para conseguir continuar andando sem dor.

Eu sou obediente, gente. Sempre fiz tudo que meus padrinhos mandavam, cumpria horário, era educada e acredito na ciência desde criança. Mas na real, tô cansada. Cansada e desesperada.

Uns dias atrás - dia em que mais de 3000 pessoas morreram vítimas de covid-19 e do governo federal - ,estava eu sentada no sofá da sala, vendo jornal, e não consegui não reparar no semblante do Átila Iamarino. Ele estava acabado, nitidamente cansado e de saco cheio de falar a mesma coisa há mais de um ano na televisão, nas redes e em todos os espaços. Sinto muito, Átila, e só saio de casa quando você me liberar, juro.

Eu ouvia o Átila ao mesmo tempo em que olhava a janela aberta na sala. "O vírus seria capaz de entrar por ali? Não viaja, Mariana". Será? Na dúvida (e no pânico) levantei e fechei a janela e a cortina.

Outro dia mandei um áudio para umas amigas falando: "cara, fazia séculos que não conseguia ler um livro tão rápido. Esse final de semana li um livro inteiro. Cara, você já leu 'O Avesso da Pele', romance do Jeferson Tenório? NOSSA! É tão maravilhoso quanto dolorido. Um trajeto de romance e de história, uma construção narrativa que eu gostaria de saber escrever. Uma linha em zig zag sobre uma vida marcada pela dor e o racismo, da violência executada pelas mãos do Estado contra homens negros neste país." Áudio enviado.

Entre uma reunião e outra, estendo a roupa, lavo uma louça e faço um macarrão qualquer para comer rapidão.

Meu humor transita entre o preciso agradecer que a minha família tá bem e eu também, e o labirinto difícil de uma angústia e desespero de não ver horizonte. Chego naquele cômodo do cansaço e da tristeza imensa pelos números de mortes e amigos na UTI.

Ainda tem isso, amigos muito queridos e próximos na UTI.

O que mais me tocou foi um amigo, que eu nem sabia que estava internado, me respondendo uma mensagem dizendo que não estava bem e que não sabia se ia sair dessa. Nesse mesmo dia, fiz um spam-textão, um áudio desesperada para a minha tia e meu padrinho sossegarem o c* em casa, não dar rolê no bairro, e terminei dizendo "POR FAVOR, FIQUEM VIVOS".

É difícil lidar com a própria família. E olha que minha família sabe que precisamos nos cuidar, que não podemos sair... A minha família, gente, acredita na ciência! Ela se cuida pelo SUS a vida inteira, nunca tivemos convênio. Inclusive, na semana passada, meu padrinho tomou a primeira dose da vacina, um vídeo fofo perguntando em quanto tempo ele poderia tomar a cervejinha dele de novo depois da vacina (risos nervosos).

É isso, gente.

As notícias são desanimadoras. Entre dados, campanhas, vida real e tudo mais misturado com uma profunda tristeza e falta de esperança nacional. Uma bad trip coletiva horrorosa.

Tive um pesadelo em meio a uma noite meio mal dormida, sonhei com o Presidente da República em exercício. No pesadelo eu era assessora de imprensa do Planalto, foi bem louco, eu via alguns amigos jornalistas de longe e olhava para eles com cara de desespero. Foi horrível. Ufa, acordei!

Talvez seja isso mesmo, vivemos em tempos de pesadelos constantes. Acordados ou dormindo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL