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Mariana Belmont

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A mulher e o direito humano de escolher

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Mariana Belmont

11/03/2021 04h00

Esse texto é uma carta às minhas amigas e também a todas as mulheres. Vou contar essa história na semana internacional da mulher, porque acho que, no fim, vou me livrar de um monstro, e porque realmente acredito que compartilhar com outras mulheres e mostrar para elas que "calma, tá tudo bem falar sobre isso" vai me ajudar e nos ajudar a abrir caminho nas nossas vidas. E que ao final deste texto, possamos juntas guardar isso na caixa das histórias bem resolvidas.

Em 2018, deixei a vida me levar para viver um relacionamento que pra mim era super possível, mas que na realidade não passou do campo da ilusão e do meu (falso) controle da situação. Eu tinha medo de contar sobre mim, abrir meu coração. E existindo no mundo de um jeito vulnerável, achei que poderia ser julgada sobre minha própria vida e escolhas - aquele julgamento externo e eterno, eu não queria sentir no corpo.

2018 foi um divisor de águas, pra mim e para o país, para o mundo, talvez. Em 2018 eu topei uma campanha eleitoral na pele, no coração e na alma. Foi dolorido demais chegar ao fim com tanta ferida política e uma lista imensurável de derrotas e desmontes.

Mas também foi naquele ano que eu topei olhar para fora e me jogar em uma relação. E como em todo começo soam sinos românticos e explodem flores na tela, não vou fazer diferente: sim, a paixão chegou e, com ela, a cegueira natural aos enamorados. Foi genuíno e intenso, pelo menos do meu lado. E isso me acompanhou por muitos dias em casa, na vida e, talvez em grande parte, nas minhas decisões.

A coisa mais louca em uma relação abusiva é que ela é cíclica - sempre entre a tensão e a "lua de mel". Não é bem que você não enxerga, porque no fundo, você identifica que aquilo ali não tá legal, aquilo ali é meio demais, meio violento demais. É mais sobre estar vulnerável, estar esgotada, dependente, ameaçada. Num pulo - entre uma violência e outra (e veja, violência emocional também é violência!) - você se percebe sozinha, no fundo do poço. Dói. E te digo, não se culpem por isso. Eu me culpava e não me culpo mais.

Engravidar foi uma consequência que eu não esperava, que loucura isso acontecer. Primeiro veio a tensão da suspeita. Exame, de sangue, que era pra pular a etapa da dúvida. Até que saiu o resultado, justo (ou seria junto?) no dia prévio do segundo turno das eleições presidenciais. Encarei de forma bem consciente.

Não é nada corriqueiro, mamão com açúcar, fichinha, quando se é mulher, não é nada fácil. É difícil. Tudo te assombra: quem tem atende nos exames, os médicos, alguns amigos, os olhares na rua, tudo parece que é para você. Quando se é mulher, você sempre é a mira.

O ato de decidir era, e continua sendo, sobre mim. Estar no palco principal de decisões é sobre estar só e encarar de frente uma dor, não só a física, mas a dor de um abandono De alguém que, no fim, não era realmente ninguém na minha vida.

Claro, depois que uma mulher passa por isso, seja por escolha ou por ordem natural, um outro mundo se abre. São novos olhares. Contar isso, em parte, é abrir demais a minha vida nesse espaço, mas também tenho pensado sobre como podemos nos vulnerabilizar para que outra pessoa, que possivelmente eu nem conheça, se identifique e sinta um abraço meu.

E perceber que pedaços de mim, que antes estavam espalhados pela história da minha vida, estão sendo conectados, é tão importante e verdadeiro. Mas qual segredo a gente coloca no mundo? O que a gente conta, o que a gente não conta, pra quem conta, pra quem a gente não conta? Pouca gente sabe, pouca gente estava próxima, pouca gente comeu coxinha comigo depois de tudo.

A expressão "se deixar apaixonar" é completamente sem sentido. Deixar o que? Qual o controle sobre a vida? Não temos. E isso é bom, mas me fez caminhar em caminhos muito diferentes do meu lugar de antes, me fez mergulhar em mim profundamente.

Eu engravidei e perdi naturalmente, mas poderia ter sido uma escolha legítima. Mas como o universo é livre, ele mesmo tomou conta de tudo da forma que tinha que ser, mesmo com uma dor física imensa. Foi natural.

Poucas pessoas sabiam, agora muitas sabem.

Terapia, roda de mulheres, a Barca com Lua Barros, na Rede Amparo, amigas e encontros comigo mesma e a pandemia me curaram do pior de mim. E escrever também tem me feito isso.

Hoje eu olho para trás e nada seria diferente, porque não dá para a gente mudar experiências do passado, não dá para fingir que nada aconteceu e não aprender e ressignificar tudo. É sobre retomar a vida de outro jeito, ainda vulnerável, mas melhor que ontem e menos dolorida. O caminho foi muito difícil, ainda é, porque todo dia a gente lida um pouco com a gente mesmo.

Uma relação que findou ali, no momento que eu contei para ele. Era como, enfim, pudesse me libertar de um sonho que foi bom, mas por ficar presa nele, se tornou ruim. Doeu tanto, tanto. Eu lembro de doer muito. Noites inteiras doendo doendo e eu não sabia muito contar também.

Conto isso aqui, mas com a garganta seca e uma vida inteira sobre mim. E contar isso na semana do Dia Internacional das Mulheres também não foi uma escolha fácil, mas estou fazendo quase sem medo. E também para agradecer às poucas mulheres que estiveram comigo, seguem comigo e me dão a mão na vida. Seguraram minha mão, pagaram meu vinho, e são as pessoas que me encorajam a ser eu mesma. Com todos os meus dilemas.

Acredito que contar sobre a gente é um exercício político também, afinal, quando a gente existe no mundo, nas reuniões, no trabalho, na rua, no supermercado, nos hospitais, somos um corpo. Um corpo no mundo colocado e ali presente com todas as nossas dores. E só é possível lutar porque ele existe, mesmo que falhando às vezes ou em constante ameaça.

Doeu demais. Hoje é cicatriz. Eu a sinto aqui comigo, quando passo a mão sobre ela. E encorajo as mulheres a olhar para dentro de forma genuína, acolhedora e com força. Só caminhando comigo mesma, consigo estar melhor com o outro. Sei lá, é nisso que eu acredito.

Eu escrevo pra vocês pensando que a bagunça em nossas vidas é bem-vinda para dar forma às coisas que precisam. Para cidades melhores, para países melhores. Escrever nos dá pistas sobre os tipos de lutas que queremos lutar.

Sigo admirando vocês, sou grata e honro demais tudo que vivo perto das mulheres, que muitas e diversão, são meus caminhos pra achar o melhor de mim.

"Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
Quem me diz onde é a estrada?"

- Maria Bethânia

Obrigada.
Beijo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL