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Mariana Belmont

Há vida na Guarapiranga, uma das represas que abastecem o Estado de SP

Tartaruga de água doce flagrada desovando nas margens da Represa Guarapiranga, zona sul de São Paulo - Michel Pollmer
Tartaruga de água doce flagrada desovando nas margens da Represa Guarapiranga, zona sul de São Paulo Imagem: Michel Pollmer

Mariana Belmont

14/01/2021 04h00

Chegamos a 2021. E agora, qual vai ser?

Sem promessas, sem expectativas, sem esperança? Eu entrei neste "novo" ano achando que ele não será lá grandes coisas mesmo, mas, apesar dos desafios, não quero desanimar.

Ainda perdida com as datas, mas de volta e feliz que, pelo menos, saímos do túnel apertado de 2020. Um ano que ensinou demais, deprimiu demais, perdemos amigos demais, famílias demais. 2020 foi tudo meio demais, né? Ufa, acabou, mas diferente daquele sentimento de "ano novo, vida nova", no fundo sabemos que não, não entramos em um portal de felicidade - o dia 1/1/2021 já se mostra cheio de desafios.

De cara, essa semana já me trouxe esperança, mas não só pra mim: mesmo com toda a poluição, uma tartaruga de água doce foi flagrada desovando nas margens da Represa Guarapiranga, zona sul de São Paulo. A imagem é linda, e as trocas e sorrisos dos técnicos, especialistas, ambientalistas e moradores da região também. Sim, em meio à falta de políticas públicas para proteger nossos mananciais, a vida se mostra, se liberta e resiste. A espécie é exótica, foi introduzida no Brasil, sendo a tartaruga invasora mais comum do país, a trachemys scripta, ou a Tartaruga-de-orelha-vermelha.

"Pessoal, a cena é incrível, digna de National Geographic, mas essa espécie é exótica (é da América do Norte), ou seja, foi introduzida na região e compete diretamente com as espécies nativas. Isso também ocorre com os macacos-prego, os saguis, entre várias outras espécies. Entre tantas ações necessárias para se "salvar" a Guarapiranga, temos que incluir o controle de espécies exóticas, da fauna e da flora. Infelizmente é um grande problema pouco abordado pelos órgãos públicos e mídia em geral", comentou no mesmo dia o biólogo Fábio Schunck.

Crianças brincam na represa Guarapiranga - Reinaldo Canato/UOL - Reinaldo Canato/UOL
Imagem: Reinaldo Canato/UOL

A Represa Guarapiranga ontem

Quando criança, eu passava pela Avenida Atlântica. Nos domingos de sol, era só olhar pelos muros que dividiam a avenida e a represa e ver a quantidade enorme de famílias nadando e tomando sol nas margens. Lembro bem que em alguma entrada tinha uma placa em que estava escrito "Guarujapiranga". Eu achava aquilo demais. Afinal, lá do outro lado, no meu pedaço da zona sul, era na Represa Billings que a gente dava uns mergulhos, lá no Bernardino, no bairro da Barragem.

Naquela época eu ainda não sabia, mas a Bacia do Guarapiranga ocupa uma área de 630 Km² e sua vasta extensão compreende parte dos territórios dos municípios de São Paulo, Embu, Itapecerica da Serra e toda a área de Embu-Guaçu, além de pequenas parcelas territoriais de Cotia, São Lourenço da Serra e Juquitiba. Com todo este potencial hídrico, a represa era utilizada inicialmente para a geração de energia elétrica da Usina de Parnaíba, no Rio Tietê. Hoje, a represa abastece mais de 4,9 milhões de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo, segundo os dados de monitoramento da Sabesp. É utilizada para o controle das cheias dos rios da região e como local de esportes náuticos e lazer ao longo de seu percurso de 28 quilômetros de margens.

Eu vou dividir esse texto com quem eu aprendi e aprendo tudo da Represa Guarapiranga, o Mauro Scarpinatti, ambientalista e um dos organizadores do Abraço ao Guarapiranga. Se você buscar pelo Mauro na internet, ou em jornais, vai perceber que a história e a proteção da Guarapiranga atravessam a vida dele. A represa é o quintal do Mauro, que cuida com muito amor e coragem desse lugar que deveria ter mais atenção do Estado, afinal é a nossa água, e água é um direito.

"Minha relação com a Guarapiranga é antes de tudo afetiva. Cresci nas margens da represa, afinal na década de 1970, não havia parques ou áreas de lazer nesse fundão da cidade. Na verdade, passados cerca de 50 anos, elas ainda são raras, mas já existem alguns poucos parques. A margem da represa era o lugar para empinar pipas, jogar bola, jogar taco, fazer guerra de mamonas, e todo tipo de brincadeiras que as crianças das periferias conhecem muito bem".

Para algumas pessoas pode parecer sem importância, mas a nossa relação com o cotidiano da natureza e a vida colocada no território é essencial para seguirmos com a preservação do que nos mantém vivos, respirando e, nesse caso, sem sede. Em conversa com o Mauro, pedi para ele me contar sobre a represa. Mas não queria saber só da parte técnica, mas entender como, para ele, foi e é estabelecida a relação entre afeto, identidade, vida e meio ambiente naquele território que faz parte da trajetória de muitas pessoas, inclusive a dele.

"O tempo passou. Nas periferias a garotada começa a trabalhar cedo, comigo não foi diferente. Antes de começar como office boy, vendi picolé nos fins de semana para o público que frequentava a represa. Depois veio o trabalho, e o distanciamento forçado das paisagens e da farra com os amigos, mas a relação afetiva com a Guarapiranga permaneceu. Até que por curiosidade conheci a Lei de Proteção aos Mananciais, isso quando já tinha uns 17, ou 18 anos, e dava os primeiros passos nos movimentos populares da zona sul de São Paulo. Era início da década de 1980, o Brasil enfrentava a segunda grande crise do petróleo que gerou um problema econômico mundial. O desemprego disparou, e junto com ele as ocupações das áreas de mananciais por moradias populares. Comecei a atuar em defesa da represa, virei ecologista (era assim que chamavam)."

Achar que a Amazônia ou o Cerrado não tem nada a ver com a Mata Atlântica, e que os biomas não se conversam é um equívoco. Os biomas, os mares, os rios, tudo está diretamente conectado: o clima, os povos e comunidades tradicionais e toda a biodiversidade se entrelaçam. Por isso, a luta também deve estar em permanente ligação.

"Em 1988, 22 de dezembro, Chico Mendes foi assassinado em Xapuri, no Acre, e o impacto de seu assassinato foi gigantesco. Quase ninguém sabia quem era o tal Chico Mendes. Poucos meses depois, em 29 de abril de 1989, fizemos uma grande caminhada do Largo do Rio Bonito, percorrendo boa parte da Avenida Atlântica, que margeia a Guarapiranga. Reivindicamos, além da preservação da represa, algo inusitado: o direito à paisagem, isso porque ao longo da avenida haviam muros de cimento que impediam as pessoas de enxergarem toda a beleza".

A Represa Guarapiranga hoje

Infelizmente nada disso foi suficiente para impedir o processo de ampla degradação da Guarapiranga e de toda a área de Mananciais. A represa agoniza com os milhares de metros cúbicos de esgotos despejados diariamente em suas águas. As ocupações ganharam a participação de facções criminosas. Os órgãos de proteção foram desmantelados ou deixaram de existir. O poder público, quando acuado, diz que faz autuações, e enrola a população com a burocracia.

E no dia 11 de janeiro de 2020, na segunda semana do ano, moradores da região flagraram a cena emocionante de uma tartaruga desovando na margem da represa. Emociona, pois nos mostra que apesar de tudo, toda a batalha não foi perdida. Na verdade valeu, e vale muito a pena a luta diária de cuidar, denunciar e acompanhar a vida da represa.

Quase no fechamento da coluna pedi para a Marussia Whately, diretora do Instituto Água e Saneamento (IAS) falar sobre os desafios de garantir água para o abastecimento público nas áreas urbanas e o que representa essa essa cena da Tartaruga-de-orelha-vermelha nas margens da Guarapiranga.

"Os desafios de abastecimento de água nos grandes centros urbanos são inúmeros. Em São Paulo, uma das dificuldades diz respeito ao cuidado com os mananciais - não só para que eles tenham boa qualidade de água, mas para que tenham condições ambientais para o ciclo de renovação de água, para a melhoria das condições microclimáticas, para melhoria das condições de armazenamento. Ao ver em uma represa tão poluída, com tantos problemas de degradação, um sinal de resistência da vida, mesmo sendo de um animal exótico, fica a lição do tamanho do desafio e responsabilidade que nós temos de ter para mananciais mais saudáveis".