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Mariana Belmont

Um natal no verão pandêmico de 2020

O que quero refletir é sobre qual o nosso olhar para quem consome e quando - quem pode ou não - Keiny Andrade/UOL
O que quero refletir é sobre qual o nosso olhar para quem consome e quando - quem pode ou não Imagem: Keiny Andrade/UOL

Mariana Belmont

24/12/2020 04h00

Já estamos há 295 dias em casa e há sete do final de... Não, não? Do início de 2021. E depois das águas de março fecharem o verão - e a gente em casa -, eis que? Chegou o verão, de novo.

Semana do Natal. Eu já não aguento falar de saudade, de toda essa distância, da falta que as pessoas fazem no dia a dia, até daquele moço bonito do ônibus ou daquela moça que pede nossa bolsa para segurar em dias cheios e de chuva. Nossa, que saudade que dá do caminho.

Essa semana fiz uma viagem no tempo, queria reviver o Natal da minha infância, como eu gostava dele. Foi importante para eu descobrir que, mesmo sozinha em casa, vou vivê-lo da melhor forma, da forma que eu gosto: esse ano vou eu mesma fazer a minha ceia de natal, ouvir uma música e tomar uma cerveja no meu copo preferido, enquanto cozinho coisas que lembram a minha casa.

Quando era criança, íamos eu, minha madrinha Lourdes, minha tia Cássia e minha prima Luélly até o Brás, para comprar coisas que duravam todo o ano, roupas basicamente. Não lembro muito das coisas que elas compravam pra mim. Lembro do caminho: cedinho já estávamos lá, andando por todas aquelas ruas cheias de gente, pessoas de todo um grande Brasil. Comíamos no mesmo restaurante, uma comida só provada nos nossos dezembros de alegria pelo Brás.

Bermuda de algodão com elástico e cordão na cintura, uma camisa pólo e o sapato vulcabras 775, era essa a roupa do meu padrinho, Seu Francisco, e ainda é até hoje. A gente voltava para casa muito feliz. Na minha memória eram duas grandes aventuras em família: a ida ao Brás para Aparecida do Norte, no 12 de outubro, com todo o bairro. Nossas idas ao santuário da Cidinha é bem uma história para se contar, rolava muita pegação, muito pão francês com bife a milanesa (marmita de busão fino), fofoca e almofadas nessas viagens.

Minha mãe trabalhou quase a vida inteira em lojas de atacado no Brás. Eu, ainda recém nascida, ia com ela todos os dias para a loja e ficava num cesto lá no estoque. Ia e voltava com a minha mãe. Olha, pensando bem, eu já rodava essa cidade desde muito cedo.

Revisitei a memória natalina da minha vida, porque há algumas semanas, imagens de uma 25 de Março lotada em meio à pandemia me trouxeram algumas agonias. Queria que as pessoas não precisassem se aglomerar, nem na rua, nem em campanha eleitoral e muito menos para compras de natal. Mas é isso que acontece.

Essa semana tive que sair de casa para resolver umas coisas e passei por ruas de bairros ricos da cidade de São Paulo. Ali nos Jardins, no Itaim, Oscar Freire. Imagens de shoppings, nada populares, lotados. Todos esses lugares amontoados de Gucci e Prada, mas sem grandes reflexões do consumismo da classe AAA.

E veja, não é uma defesa ao consumo. O que quero refletir é sobre qual o nosso olhar para quem consome e quando - quem pode ou não.

Estamos chegando a 200 mil mortes por covid-19, as pessoas seguem nas ruas, trabalhando e tentando um corre para sobreviver. E a classe média descolada segue pedindo caipirinha de vodka na rua Aspicuelta com a máscara no queixo. E os hospitais públicos e privados seguem lotados.

Não temos planos, o governo federal não tem plano, o governo de São Paulo tem um plano para as eleições de 2022. Mas para salvar vidas mesmo, não há planos. Nunca houve plano de salvar, só de matar.

Na semana do natal, cansados ainda, a vida segue sem plano de pausa, porque o país está desmoronando. E talvez comprar umas roupas ali no centro para revender na minha quebrada pode ser um alívio para a noite de natal, sem papai noel.

No fim sou otimista, posso me frustrar, mas gosto de pensar que, em algum momento, o abraço e os encontros possíveis vão chegar. Não sei se vamos revisitar e refazer os passos do passado em outro tempo, se vamos nos reinventar, mas certamente nada será como antes. Então, se você acredita no natal como momento de renascimento, desejo que a gente ressignifique esse renascimento, que a gente se proteja, que a gente espere para encontrar toda a família e celebrar.

Nossa, agora quase no fim lembrei aqui que da segunda até a quinta série eu usava uma saia vermelha de algodão e camiseta branca. Em cima do palco, cantava Simone. Eu tinha oito anos e já pensava que "O ano termina e nasce outra vez".

E vai acontecer em breve.