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Mariana Belmont

Falta muito para o fim do mundo?

Manifestação em frente à loja do Carrefour em Porto Alegre (RS) onde João Alberto Silveira Freitas, 40, foi espancado até a morte - Hygino Vasconcellos/Colaboração para o UOL
Manifestação em frente à loja do Carrefour em Porto Alegre (RS) onde João Alberto Silveira Freitas, 40, foi espancado até a morte Imagem: Hygino Vasconcellos/Colaboração para o UOL
Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

26/11/2020 04h00

Faltam 35 dias para acabar 2020.
E se ele realmente acabar algo vai mudar? Será que estaremos caminhando rumo ao novo mundo? Fui rever meus textos em outras colunas aqui e fiquei pensando que eu reclamei bastante, eu sei. E não peço desculpas por isso, gente. Foi puxado mesmo. Se você sentiu você é de Marte, se bem que nem lá estamos deixando as pessoas em paz, né? Toda hora tem um humano indo para algum planeta descobrir o que tem de bom para conseguir acabar.

Gente, para de ir para o planeta dos outros, vocês não cansam de destruir a Terra? PARA!

Achei que esse texto poderia ser de temas aleatórios, sabe? Como nossos grupos de amigos na pandemia, que vão de conversas de pânico e desespero a receitas e encontrinhos reduzidos e sem imagens para o instagram. Vão de falar mal de homem branco privilegiado (seria esse um exemplo de pleonasmo?) a séries novas ou velhas que viciam.

Uma coluna que pede #ForaBolsonaro, #ForaSalles, que pede Rodrigo Maia, queremos o impeachment do presidente Jair Bolsonaro, mas também pede que a gente sonhe, ame e quebre umas vidraças sim. É realmente a vida real.

O Brasil nos ajuda a ter muitos temas para falar, debater e entrar em crise nos milhares de grupos temáticos que possuímos no celular. Na última semana estamos aqui em uma corrida sem fim de tentar nos convencer de coisas óbvias na política, no candidato que precisa ganhar, não só em São Paulo, mas em outras cidades com segundo turno. Uma corrida sem fim de debates muito parecidos uns com os outros, cheio de jornalistas com experiências sobre cidade e mais experiência em fazer pergunta ruim e sobre o PT.

Saudade do meu ex.

Vivemos na república do caos, da confusão, das queimadas, do desespero, dos altos números de mortes por covid e pela mão do Estado ou pelo Carrefour.

Semana passada eu voltei a ser o que eu mais temia, a pessoa que treta no Facebook, pois é. Fui tomada por um ódio inexplicável, eu li o post de um amigo, não concordei e fiz outro post. Veja, eu não comentei na publicação dele, eu não chamei ele no inbox para tentar entender porque ele não fez algo que eu achava que era o certo. Eu errei.

O ódio me fez reagir com uma postagem bruta, mal educada e desleal. Eu não estava aberta para debate, para troca, não deixei ele falar, ou tentar entender o meu contraponto. Eu reagi e fechei a porta do diálogo. Foi um erro, mas eu vou sim justificar minha ação com os últimos meses, o cansaço e a quantidade de problemas, seja ele no campo coletivo ou no privado.

Há um cansaço no meu corpo descontrolado, eu durmo, mas não descanso. Eu tento produzir e só vou reagindo as demandas da lista que faço no meu caderno, porque ainda não aprendi a usar o trello do trabalho. Eu vou riscando, cada riscada é um mini orgasmo, uma lágrima que cai e uma pequena vitória.

Minha cabeça acha que é preciso falar sobre tantos temas urgentes, começar a pensar em 2021 e desenhar como vamos agir e trabalhar com as coisas importantes, mas na prática ela não avança.

Então, eu tô contando os dias para um recesso, umas férias, um tempo. E não estou criando expectativas com 2021, mentira, estou. Uma parte do meu coração aceita que vai ser mais um ano difícil, mas outro pedaço dele diz que essa perspetiva ai nos provoca a construir pontes, formas e afetos para encarar mais dias ruins. Aquela parada de sonho e horizonte possível que falo para vocês.

Joga para o universo, me falaram uma vez. Parado na porta da minha casa, de saída, eu perguntei se íamos nos ver de novo e ele respondeu "joga para o universo". Eu tô levando para a vida, mas também me protegendo e cuidando para não jogar sem olhar meu arremesso.

Eu joguei pro universo, pedi um novo dia
Onde tudo se ajeita e nossa colheita é paz e alegria
Eu joguei pro universo, vibração positiva
Trevo, figuinha e suor na camisa..."

— Emicida

Me olhei no espelho depois do momento de fúria, quando não concordei com a ideia de um amigo sobre política, e vi uma pessoa que eu não quero ser, que eu não acredito que seja possível ser para construções de futuros. Sigo não concordando com esse amigo, mas é um amigo para toda vida, que eu respeito e admiro. E acho de verdade que os afetos nos transformam, claro há limites humanos para as relações, um limite de respeito e de noção da realidade.

Eu peço desculpa para esse amigo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.