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Mariana Belmont

Domingo é dia de voto antirracista e indígena e esperança nas cidades

Pedro Borges, cofundador do Alma Preta - Arquivo Pessoal
Pedro Borges, cofundador do Alma Preta Imagem: Arquivo Pessoal
Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

12/11/2020 04h00

Gostaria de começar esse texto me disponibilizando para apoiar a equipe da retrospectiva 2020, deve ser um trabalho bem difícil. A dúvida é se será um especial 24 horas ou uma semana direto. O ano não foi exatamente o que chamamos de tranquilo. Nesses últimos tempos, não houve (e não há!) um dia sequer, em que a gente não abra as notícias e se depare com o terror da morte.

E chegamos até aqui: estamos há três dias das eleições municipais. Entre o início do período eleitoral e o dia 15 de novembro de 2020, muita água passou por baixo, por cima, por todos os lados desse Anhangabaú. A pandemia não acabou, as pessoas continuam morrendo, continuam sem emprego e sem esperança de tempos melhores no futuro.

A gente abre as notícias e nem tem novidade: é sempre uma denúncia nova, um vexame novo, um crime novo e milhares de pessoas morrendo, enquanto nos gabinetes bem equipados e cheios de seguranças, os nossos parlamentares e prefeitos seguem impunes e confortáveis, bem nessa ordem. Eles usam seus cargos para barganhar secretarias, usam a falta do básico para barganhar votos, são frios e, em grande parte, são homens brancos privilegiados e de famílias bem abastadas nas cidades.

Sim, esse é o perfil padrão que dá o tom nos cargos políticos no Brasil. É triste, eu sei, mas é urgente não perder a esperança na política, é necessário sonhar e lutar para que o futuro seja possível e construído por nós - todes nós.

No domingo temos uma grande chance de transformar e projetar futuros para as cidades - uma oportunidade única para pensarmos, recomeçarmos e desejarmos como sonhar de novo. Isso porque a escolha dos nossos representantes impacta como viver bem na cidade que nascemos, ou escolhemos para viver.

Desde de criança eu gosto de política, mas a política das pequenas coisas, sabe? A política que projeta um bairro melhor, não deixa meu padrinho e minha mãe tanto tempo fora de casa trabalhando e passando tantas horas no transporte público. A política real acontece sim nas instâncias de poder, mas antes de tudo, ela acontece no dia a dia das cidades: na nossa rua e no olhar atento para a falta de algum serviço essencial para nossa sobrevivência.

Falar que precisamos sonhar com municípios melhores para se viver, pode parecer um jeito romântico de enxergar a realidade, ainda mais quando pensamos em cidades com grandes complexidades e desafios. Mas eu acho que é justamente nesse momento de grande dificuldade nacional, que as cidades precisam passar por remodelações e possibilitar novos sonhos. Isso tudo para que as pessoas possam não morrer de fome, ou de frio nas ruas, ou nas filas de hospitais ou ainda pelas mãos armadas do estado.

E não se enganem, o modelo da velha e conhecida política patriarcal - com estruturas de poder criadas por homens brancos e ricos - tem nos levado ao colapso e dado fim às nossas utopias. Passamos alguns bons anos ganhando fôlego e construindo políticas para que a população se mantivesse viva.

E como mudamos isso? Poderia listar aqui uma quantidade de campanhas de grupos, movimentos e coletivos de extrema importância para uma virada urgente nas cidades. Mas diversas iniciativas foram lançadas para indicar candidatos comprometidos e com propostas sérias e importantes para as cidades. Então vou destacar duas aqui, que me parecem mais urgentes.

Não nos cabe mais apostar nosso voto nas mesmas pessoas, e como diz Sérgio Vaz "a história não perdoa os covardes". Precisamos ousar e eleger para as câmaras municipais das cidades e para as prefeituras, aquelas e aqueles que representam a maioria da população brasileira.

A pandemia é, sim, muito grave e exigirá cuidados no dia de ir às urnas. Os cuidados sanitários já conhecemos de cor e salteado, por isso: cuidem-se. No entanto, só nos sentiremos seguros - individual e coletivamente - se elegermos pessoas comprometidas com a vida e o bem-estar social. O voto de cada um é imprescindível neste momento! Abrir mão desse direito pode trazer riscos ainda maiores. E, para isso, é preciso votar!

Em quem votar?

Votos antirracistas

Vocês bem sabem que a falta de representação negra nos parlamentos, denunciada há anos, ganhou notoriedade em agosto deste ano, após decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que definiu que o dinheiro do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e o tempo disponível para candidatos em rádios e na TVs deve ser proporcional ao total de candidatos negros que o partido apresentar nas disputas eleitorais. A decisão, apesar de favorável, levanta outras questões do racismo estrutural, como, por exemplo, as candidaturas que não se comprometem com as pautas que discutem a questão racial e a autodeclaração de pessoas brancas como pretas ou pardas.

Por isso, apresento aqui a plataforma "Votos Antirracistas", que traz candidaturas de pessoas negras com trajetória de trabalho e compromisso com movimentos, entidades, grupos e coletivos negros, periféricos, favelados, quilombolas e ribeirinhos, em diversas cidades brasileiras. Além de conectar as candidaturas à potenciais eleitores, a plataforma engaja apoios presenciais e à distância, possibilitando que os interessados contribuam na divulgação das ideias da candidata ou candidato, mobilizem familiares e amigos e possam contribuir financeiramente para campanhas.

O compromisso político das candidaturas apresentadas na plataforma estão colocadas em 4 documentos que sintetizam as propostas do conjunto do movimento negro para o país: o Manifesto 'Enquanto houver racismo não haverá Democracia', a Carta de Princípios e Agendas da Coalizão Negra Por Direitos, a Agenda Marielle Franco e o Programa da Convergência Negra.

Campanha indígena

A página é uma iniciativa da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e é dedicada ao apoio e visibilidade de candidaturas indígenas. Espaço importante para incentivar e ampliar a representação indígena nos poderes legislativos e executivos em todo o país. Demarcando espaços de poder pela garantia de uma construção de sociedade mais plural e menos desigual. A realidade da política partidária sobretudo em milhares de municípios espalhados pelo país é bem distinta dos contextos das grandes capitais. Muitas alianças locais podem ter contextos diversos às visões políticas partidárias em âmbito nacional. A Campanha Indígena busca construir uma caminhada com passos cada vez mais firmes, com trajetórias das lideranças na defesa dos direitos indígenas e do reconhecimento dessas candidaturas pelos povos.

A galera do Gênero e Número colocou no ar uma super ferramenta, em parceria com a ONU Mulheres Brasil, com diversas indicações de candidatas pelas cidades.

Sonhamos todos com um parlamento nacional e câmaras municipais que sejam ocupados em sua maioria por negros, indígenas, periféricos e toda a maioria da população brasileira. Eu sonho e te convido pra sonhar e construir essa realidade juntes!

NO DIA 15 DE NOVEMBRO, COLOQUE SUA MÁSCARA, LEVE SUA CANETA, USE ÁLCOOL EM GEL E VOTE!