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Mariana Belmont

Desistir também é um ato revolucionário

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

22/10/2020 04h00

Um cansaço infinito, que não passa de jeito nenhum. Eu tentei dormir e fechar os olhos só pra me concentrar em outras coisas. Tentei terminar a lista de tarefas dos meus dias, tentei ler coisas acumuladas, tentei ser mais paciente em reuniões e conversas com amigos, EU TENTEI e sigo tentando.

São 221 dias de pandemia, contados desde o dia 13 de março, ou, se você preferir, sete meses inteirinhos de muita confusão e cansaço. Estou definitivamente exausta, em uma uma saga de ver filmes aos montes e sem criatividade.

Será que vou conseguir me relacionar de novo, com amigos, família ou qualquer pessoa? Eu sinto tanta saudade de todos eles - o coração chega a doer. Sinto saudade de casa, da minha tia, do meu afilhado e do meu padrinho. E sinto saudade dos meus amigos.

Quantas vezes a gente olhou para o estado em que o país está e chorou? Hoje mesmo me levantei do computador, peguei um copo de água para um remédio, olhei pela janela e comecei a chorar. Sozinha e inconsolável, chorei, chorei e chorei. Era como se prédios estivessem caindo, florestas pegando fogo e muitas pessoas morrendo por uma pandemia. Fui até tomar um banho para deixar desaguar tudo aquilo que me atravessava.

Pensar sobre futuro, pensar agendas, pensar como a gente reconstrói, como a gente corre desse abismo e enfrenta outro jeito de revolucionar e viver melhor com os nossos, já faz parte do meu dia a dia, mas hoje, ontem e anteontem não consegui. Eu juro que tentei, forcei meu corpo, mas não dá. E sim, vou justificar a ausência pelo cansaço, mas só por essa semana.

Um amigo me falou anteontem "desistência é a palavra, mana", e eu entendi isso como um momento de se afastar para ver de longe, não interferir e seguir nossas tretas daqui. Eu agradeço a ele por me dizer isso, ajeitou uma porção de coisas aqui dentro sobre várias outras que estavam incomodando. E se você ler isso, vai pensar que estou falando de desistir da vida inteira, mas não. É sobre poder desistir de dar "murro em ponta de faca" e só você se cansar. Então vamos esperar, respirar aqui e pegar embalo para o que faz sentido. Obrigada, mano.

Sim, esse texto é sobre cansaço mesmo. Era para ser mais um sobre eleições, mas não deu. Então, vamos nos contentar com o presente, que nos faz reagir ao agora sem planejamento prévio.

Hoje é quinta, 22 de outubro de 2020, dia que finalizo uma jornada que topei estar. Nunca tinha me dado uma coisa assim, as listas para melhorar a vida eram sempre sobre como parecer para o mundo externo. Estudar sobre coisas, não pensei nada sobre mim, nunca deixei eu mesma me acessar.

E por mais que a gente viva no limite, busque algo material para se sentir satisfeito, entre em um curso de como ser melhor naquilo lá do trabalho, ou corra para que a emergência não se torne urgência e a gente siga sobrevivendo, no fim, tudo isso não permanece de fato. Nossa, tô cansada.

Mas eu topei mergulhar de cabeça na jornada DÜO, com Pedrinho e Lua. Eu já falei deles aqui sobre amor e coisa e tal, lembra? Quando vi a chamada no Instagram do Peu, achei logo que nem era para mim, desencanei e fechei a janela. Depois abri de novo, e fiz o básico: li a descrição da jornada (risos). Me inscrevi na hora, sem dilemas, afinal era preciso encarar um desafio desse: ouvir, ouvir, escrever e aprofundar meu grau de consciência.

Mesmo cansada, encarei a jornada dura e difícil de me olhar por dentro e olhar para os lados, protagonizando a minha história. O DÜO é um lugar para quem deseja cuidar das suas relações - não importa em que âmbito, diz a descrição. Pois fui lá e fiz, e nesse caminho, escrevi muito sobre todo o processo, fiz áudios longos para mim e para os outros, contei para meus amigos, provoquei amigos para que a gente conversasse.

O passado nos ajuda a nos conectar com o presente, nos faz encarar o presente de frente, remodelando ele todos os dias, e noa ajuda a poder também fazer as pazes. E o futuro, nesse a gente pensa também, eu penso nele todos os dias e encorajo vocês e quem mais precisar que precisamos construir novos futuros, mas também novos presentes.

Um texto cansado, mas um texto pedindo para que a gente também se dê a oportunidade de recuar, se dê a oportunidade de dizer que está cansada de lutar. Só por hoje. Um texto para cuidar no nosso corpo e da nossa mente. Uma vez a minha amiga Áurea Carolina disse uma coisa, e eu jamais esqueci, e eu repito sempre:"Sem corpo presente e saudável, não há luta". A gente só encara a multidão, seja ela externa ou interna, se a gente estiver bem. A estrutura da desigualdade social nunca nos deixa descansar, mas precisamos estar atentos a isso, se a gente consegue se cuidar minimamente, que tal replicar isso para a família, para alguns amigos. É saúde emocional.

Eu queria poder abraçar vocês agora.

Uma jornada dolorosa, cheia de saudade, solitária e precisando ocupar meu lugar naquele sofá.

E por falar em renunciar, lembro aqui que, na última terça, o grande Pepe Mujica renunciou ao cargo de senador no Uruguai e encerrou seu discurso dizendo "Há que se agradecer à vida. Vencer na vida não é ganhar. Vencer na vida é levantar-se e começar de novo cada vez que se cai". E todos os senadores se levantaram e aplaudiram Mujica.

Obrigada, Mujica.

Desejo sempre Gilberto Gil para vocês, nas alegrias e nas tristezas, na vida, assim devagar e ouvindo "Eu quase não saio. Eu quase não tenho amigos. Eu quase que não consigo. Ficar na cidade sem viver contrariado".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.