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Nesta eleição, precisamos de pessoas que sonhem com cidades possíveis

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

01/10/2020 12h08

E vem chegando as eleições, aquele curto e belo momento em que nós temos a possibilidade de transformar as cidades que vivemos. De sonhar cidades mais humanas, justas e conectadas com a realidade das pessoas que constroem de ponta a ponta, da margem ao centro.

Todo esse sonhar me lembra um trecho do livro "The Spirit Catches You And You Fall Down", Farrar, Straus and Giroux, NY, 1998, de Anne Fadiman, que traz uma reflexão igual a minha sobre esses territórios em constante construção e luta:

"Sempre senti que a ação mais interessante não está no centro das coisas, mas onde suas bordas se encontram. Gosto das linhas costeiras, limites climáticos, fronteiras internacionais. Lugares onde curiosas fricções e incongruências acontecem, e onde, geralmente, se você se coloca na tangência, se permite ver os seus lados melhor do que se estivesse no meio de qualquer um dos dois."

No último domingo, apesar da alteração no calendário por conta da pandemia do coronavírus, que, aliás, segue matando milhares de pessoas pelo mundo inteiro, começamos oficialmente o período eleitoral. Sim, embora pareça que, em 2020, já vivemos 3 anos em 1, temos ainda uma relevante tarefa: escolher prefeitos, prefeitas, vereadoras e vereadores.

Para chefe do Executivo municipal vence o candidato com a maioria dos votos. Nos casos de municípios com mais de 200 mil habitantes, se o primeiro colocado na disputa para prefeito não tiver a maioria dos votos válidos, faz-se o segundo turno. Já para os membros dos Legislativos municipais, vale o sistema de eleição proporcional: as vagas são ocupadas levando em consideração o total de votos recebidos pelo partido dos candidatos.

Não sei se você tem acompanhado, mas tem muita gente boa nas cidades, muitas candidatas e candidatos de movimentos negros e periféricos, mulheres, negros, LGBTQIAs, indígenas, quilombolas - pessoas que há séculos seguem sem representantes que pareçam mais com a gente do que com uma estátua de homem branco genocida virando herói.

Um mar de gente que poderia dar forma e respiro para esse país dominado por uma pequena parcela que dissemina ódio e incompetência. E não se engane, é uma grande responsabilidade encarar esse desafio, essa jornada que é estar em espaços de decisões.

A eleição municipal é fundamental, e pode e deve passar pelo sonho e projeto de cidades mais justas e humanas, cidades que sejam planejadas para todas e todos, a partir das periferias, dos quilombos, das terras indígenas, dos territórios que não são priorizados nos planejamentos. Tá liberada a utopia, tá liberado pensar, desenhar e caminhar para uma cidade que seja responsável pela vida das pessoas e dela mesma.

Uma cidade com um ar que não nos deixe doente, que não leve nossas casas quando chove muito, que não faça ninguém pisar no esgoto, que não jogue poluentes em nossas águas. É difícil, mas é possível imaginar uma cidade que caiba o mínimo, na qual as pessoas consigam viver e não mais ter que sobreviver dentro do ônibus por mais de 6h por dia.

Em uma matéria recente, o professor de patologia Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina da USP e especialista em poluição atmosférica, disse que os riscos proporcionados pelo consumo recorrente de CO2 são maiores para os mais pobres. Isso se dá pelas horas de transporte público. Isso quer dizer que a pessoa que mora periferia e trabalha no centro está diretamente mais exposta à poluição, a desenvolver doenças respiratórias, distúrbios pulmonares e cardíacos. Isso sem falar no aspecto emocional.

Eu cresci, e hoje eu já coleciono duas campanhas eleitorais na vida, sem contar as articulações e amizades que ganhei olhando para política como lugar de construção de realidades, utopias e afetos. A política é fundamental em tudo que a gente faz, no busão que minha tia ainda usa muito cedo para ir ao hospital, na vaga dela para operar no SUS, na aposentadoria do meu padrinho carpinteiro. Política é e está em tudo.

Já é hora de darmos um passo importante em direção ao desenho de mais políticas públicas com e para quem tá no ônibus, com meu padrinho, minha tia, meu primo e as milhares de pessoas longe dos espaços elitistas de decisão. A gente vai precisar reconstruir, criar e usar experiências bem sucedidas de tantos que vieram antes, as prefeitas, os prefeitos, os vereadores e vereadoras que nos ajudaram a começar a sonhar. Sim, já houve um tempo assim em algumas cidades.

A tal "nova política" desconstruiu direitos e políticas públicas sérias, usou a palavra periferia para apoiar retirada de direitos historicamente conquistados e jogar o jogo das bancadas que arrasam com o país.

É isso, estou feliz de ver uma galera topando entrar na política institucional, feliz de viver em um tempo de tanta gente olhando para a mudança. Pessoas que já movimentam seus bairros, seus movimentos e suas pautas, e que, muitas vezes, fazem o papel do Estado.

Sigo animada em construir horizontes, camadas, proteção e sorrisos para cidades mais justas. Uma construção de consensos e de enfrentamento dos preconceitos e o um meio ambiente que possa ser centralidade das discussões sobre vida e as paisagens da cidades.

Planejar as cidades a partir das periferias, dos territórios, sejam eles urbanos ou rurais. Com a mão e o olhar de quem vive nesses lugares. Um diagnóstico fino e prático, mas também com direito a utopias.

E porque não uma cidade que nos transforme em pessoas felizes? A gente precisa nos permitir sonhar horizontes que nos parecem impossíveis.

Vamos falar mais sobre política e eleições por aqui, mas o que posso adiantar é que nos próximos dias teremos no ar uma Agenda Mínima de Clima para Governos Locais, que traz o entendimento que 2020 é um ano crucial para a ação climática e que as cidades exercem papel fundamental para a implementação de políticas públicas efetivas para a redução de emissões de gases de efeito estufa, e para o desenvolvimento urbano sustentável, resiliente e inclusivo.

Anota aí, com cuidado e atendendo as exigências sanitárias, vamos votar no dia 15 de novembro. Com meu papel escrito a lápis e meu sonho na bolsa e com uma agenda enorme de cobrança e proposição.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.