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Obrigada Krenak e Emicida, pelas pequenas alegrias da vida adulta

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

24/09/2020 14h28

Dia 190 da pandemia, ou da quarentena, talvez do meu tempo em casa.

Acordei, respirei, banho de manjericão, rezei, fui ler umas coisas na internet e terminar uma série boba que eu tinha parada. A ideia era ir me sentindo calma até chegar 16h20.

Há mais de um mês, a organização do Festival Literário de Iguape me ligou para fazer um convite: mediar uma mesa com Emicida e Ailton Krenak. Fiquei paralisada olhando para a minha mesa de trabalho, querendo gritar pela janela. Um encontro com dois grandes intérpretes do Brasil, que nos ajudam a formular melhor o momento em que vivemos e como chegamos aqui.

Eu sou fã do Emicida, e mesmo que pareça bem piegas, falo isso para todo mundo. Eu sou! Não finjo normalidade, acho ele um pensador do nosso tempo: consegue elaborar e ter uma conexão com o mundo que eu não consigo ainda escrever. Eu já escrevi sobre o último disco dele aqui, mas não consegui ainda avançar sem parecer fã demais.

Eu li Ailton Krenak, seus quatro livros. Todos de forma absolutamente apaixonada e olhando para aqueles pensamentos como forma de reconstruir o mundo. Virei fã, virei leitora e ouvinte. Quando escrevo sobre visão de futuro, faço uma espécie de ritual: pego os livros na mão, às vezes eu nem abro, só sinto e ouço a voz dele dando direção.

Nos reunimos 16h numa sala virtual. Conversamos. Foram 50 minutos muito lindos, entre sorrisos e apontamentos, voltei com meu caderno cheio de anotações e amor. Encontro de escuta e felicidade! Sim, eu estava completamente feliz e inteira ali - conectada e feliz de poder viver esse momento da minha vida.

E começamos assim: Terra, memória, tempo e energia vital são fundamentos. Temas centrais em obras literárias publicadas mundialmente, base do pensamento krenak, bantu-kongo, caiçara, quilombola. Principia, conforme Newton nomeou suas interpretações das leis da natureza, foi a palavra em latim utilizada por Emicida para tratar do encontro de corpos e culturas ao longo da história.

O território é um caminho inteiro, é o chão que a gente nasce, é a vida que a gente constrói e são as lutas que a gente determina. Fronteiras e territórios são também linhas traçadas nos nossos corpos e cabeças, pertencendo ao mundo possível, cuidando da terra, plantando, olhando o nosso entorno.

A conversa me fez voltar para o meu território, aquele que faz a gente nascer, sabe? Aquele lá de Parelheiros. Com a horta do meu padrinho, com a comida do meu avô e com contornos. A mata, as águas e o cheiro de casa.

No meio da conversa, nos emocionamos. Krenak se emocionou depois da fala do Emicida, eu me emocionei com Krenak, olha foi lindo.

A coluna dessa semana é um agradecimento. Para quem perdeu a conversa que também levou o nome "Principia", dá para assistir no canal da #FLI2020.

Como pergunta final para Emicida e Krenak, mas estendo para vocês também: qual é o seu sonho para adiar o fim do mundo? Vou deixar aqui as respostas para vocês experimentarem.

Emicida

"Eu acho que a coisa que liga todos nós de fato é esse desejo profundo de contentamento. Esse desejo de olhar para dentro de si e perceber que faz sentido sonhar e construir. E se eu pudesse dizer meu sonho para adiar o fim do mundo é essa ideia, e é por isso que eu tô aqui com vocês. Que a gente consiga se compreender como uma parte humilde dentro de um ciclo, essa é a forma mais simples que eu posso querer adiar o fim do mundo. Um desejo profundo de ser feliz."

Ailton Krenak

"O sonho que nos anima a pensar em uma humanidade possível e adiar essa ameaça de fim de mundo, é que, na verdade, não tem mundo nenhum para acabar. Quem acabaria somos nós, as pessoas, o mundo continuaria. Só o amor pode salvar a gente. Pode parecer óbvio, mas não é não, porque estamos falando de outro tipo de sentimento que nos une a tudo e que é possível derreter as muralhas que nos separam uns dos outros. Esse amor acompanha esse sentimento de gratidão pela vida."

Mariana Belmont

E o meu sonho é que a gente possa sonhar outros sonhos, horizontes possíveis. Precisamos romper com o jeito que estamos usando o mundo. Construir outras formas de viver esse momento no mundo e poder amar e ser feliz.

Mediar essa mesa foi um presente e eu agradeço a amiga, companheira de jornada e grande inspiração por construções de futuros possíveis Bianca Santana, que eu conheci tem pouco tempo, mas parece que eu conheço há muitas décadas. Sou feliz por te conhecer nesse percurso. Bianca é encontro o tempo inteiro.

É isso, o texto é para agradecer e ainda começar a pensar sobre nossos cinquenta minutos de conversa intensa, de uma troca importante, de poesia e visão de mundo.

Finalizei o encontro, desliguei e me botei a chorar - lágrimas de alegria e imensidão. Eu chorava algo de dentro, inteiro, de esperança, poesia e filosofia sobre mim e sobre nós. Era algo bonito, não sei explicar, senti as lágrimas e ainda não desvendei essa presença.

Obrigada, Emicida e Krenak.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.