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No começo faltava papel higiênico, hoje falta ministro da saúde

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

30/07/2020 04h00

No dia 13 de março, eu fui praticamente excluída do meu grupo seleto e pequeno de amigas porque marquei de irmos ao bar do Mauro e desisti cerca de 4h antes do encontro. As notícias sobre a pandemia e a urgência do isolamento me assustaram absurdamente. Confesso exagero, mas um grande medo tomou meu dia.

Me prendi em casa, fiz faxina, zerei a sujeira e aqui estou desde então. Entre muitas chamadas de trabalho, os encontros e as conversas com alguns poucos amigos e com a minha terapeuta me salvam.

Todo domingo conto com amigas conectadas. Chega 20h estamos lá eu, Carol e Letícia, e às vezes Ana Paula, em outras Carol Gutierrez, e aceitamos sempre visitantes.

Bom, na verdade, a gente se fala todos os dias de surpresa ou não, às vezes durante a semana mesmo a gente se chama entre uma louça e outra, já atendi elas fazendo xixi, cozinhamos juntas, falamos de amenidades e repetimos as frases clássicas de 2020 "não aguento mais essa quarentena e ficar em casa sem ver ninguém", seguida de "não aguento mais falar que não aguento mais essa quarentena e ficar sem ver ninguém". E isso tem salvado a minha vida.

Essa semana me peguei escrevendo no grupo de umas amigas falando: gente, não nos ligamos hoje, tô meio emocionada e com saudade. Eu fiz isso chorando enquanto assistia TV. Agora estou aqui pensando no limite entre o uso da tela como meio de contato e o toque pessoal. A falta que isso faz e os novos rituais de encontro modificados para o momento da pandemia.

Assistimos ao Fantástico juntas, pois é. Que eu me lembre, eu assistia Fantástico quando morava com a minha família, mas voltamos a esse hábito semanal para ser um marco de encontro nosso - ficamos de duas a três horas conversando e interagindo. E falando coisas aleatórias, a bem verdade é que a gente nem ouve direito o que passa, mas sempre reclamamos das paisagens surreais de lugares distantes e com uma natureza linda, mas ajustada no Photoshop.

Seguimos assim semanalmente.

O número de mortes subiu, perdemos amigos, amigos perderam amigos e parentes. E seguimos nessa imensidão de desgraça. Me parece daqui que está tudo repetitivo demais, sufocante demais, não dá mais. Que saudade do futuro.

Os amigos fazem a diferença nesse período.

Eu aprendi, nessa quarentena, que se não fosse as chamadas surpresas eu tinha enlouquecido ainda mais. Os jantares esquisitos de cada uma cozinhando na sua casa e rindo, as conversas, as tentativas de dinâmicas de longe. Eu tirando foto sexy e elas brincando de stop virtual, acolhimento, choro e descoberta de palavras e percepções de vida que não tínhamos tempo de olhar.

Nenhuma de nós comprou tanto papel higiênico, inclusive me veio uma dúvida aqui bem importante: "Vocês realmente estão usando todos aqueles 500 rolos de papel higiênico?". Já tivemos 4.736 ministros da Saúde nesse período e seu papel higiênico não acabou, e agora temos papel e não temos nenhum ministro.

Vivemos em um país meio inerte, meio ruim, bem ruim e quase em coma.

Eu me perguntei, "quando essa loucura vai acabar?", e uma amiga respondeu: "Quando tiver vacina, Mari". Mas não era bem sobre o coronavírus, era sobre quem governa esse país e sobre quem não se importa com o outro e está indo aos bares sem máscara e curtindo uma onda.

Essa noite sonhei que tudo tinha passado ligeiro. Mas isso talvez seja apenas uma grande e imensa vontade.

Neste sábado dancei na sala, faceira. Assisti uma série, coloquei uma música e dancei, solta, balancei meu corpo pra entender se ele estava inteiro aqui, fechei meus olhos. Fui pra distante daqui. Eu nunca saia para dançar, mas me deu uma vontade nessa quarentena de dançar e suar muito entre as pessoas.

Me deu vontade de planejar rumos e vida com meus amigos no bar do Mauro. De cozinhar. De ficar repetindo para a Carol que morar na frente da praia não pode, as mudanças climáticas e tals, e ela tentando me explicar sobre escolhas da vida, mas tudo isso ao vivo. Eu falando que não gosto mais de Carnaval, mas caindo em um bloco do centro e ficando nele o total de 13 minutos.

Eu quero ter um bom governo para cobrar e pensar futuro com ele, quero meus amigos para planejar comigo e quero que os choros de alegria voltem a acontecer. E ter coragem de escrever para o menino que acho bonito, podendo encontrá-lo logo depois da mensagem.

A lista de quereres está enorme.

Que saudade de vocês.

Mariana Belmont