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Mariana Belmont

Por um futuro sem 80 tiros nas costas e mais "nóiz" no poder

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

23/07/2020 12h54

Quantos textos você já leu nos últimos quatro meses que começam assim: "Estamos cansados e sobrecarregados"? Eu, muitos. Eu mesma falo isso todos os dias. Live pra mim é só a da Teresa Cristina, nossa rainha da música de todas as noites e, claro, a melhor comentarista política. Tudo que TT quiser, eu quero para este país.

Mas enfim, fiquei pirando esses dias sobre o que eu queria dizer para o meu futuro, sabe? Ou perguntar pra ele. O que eu gostaria de ler, bom ou ruim, fora análises? Só pra não cair em cilada no futuro. Eu sei que vou cair.

Mas como sou ruim de memória, melhor registrar. E quem me fez ter essa ideia foi uma amiga durante conversas de bar que agora fazemos regularmente por vídeo, enquanto eu lavo a louça ou faço xixi. Ok, tenho mais perguntas, spoilers e algumas conjecturas.

  • Altas brigas lá em casa para o meu padrinho e tia respeitarem a quarentena. Já passamos dessa fase?

  • Tomei a liberdade de eu mesma fazer um podcast, que vou lançar nos próximos dias - não tem roteiro, com convidados nus. (não, não teve gente nua, pandemia né? Estou encalhada há uns meses);

  • A minha imensa sensação (e desejo!) é que o pagode e o samba precisam logo de um ministério, não nesse governo, claro;

  • Ah, anotando aqui para que no futuro a gente tenha Sérgio Vaz como ministro da cultura (e que exista Ministério da Cultura!) e Maria Vilani na educação;

  • E na música? Por aqui, o Emicida continua sendo apenas a melhor voz para ouvir, espero que aí na frente ele esteja ainda mais gigante;

  • O Brasil segue… péssimo. Será que os livros de história vão dar conta? Minha intuição diz que não, e que certamente nós periféricos, movimento negro e… acho que só, seremos os únicos a contar a história direito, os outros vão criar fake news. Isso quer dizer que as fake news ainda vão estar nos trending topics?

  • Ah, e os homens, brancos, ricos, classe média medíocre? Continuam tentando salvar o país (sem ao menos terem um bilhete único no bolso e um busão pra chamar de seu), se unindo e criando um grande levante nacional para defender a democracia? E aí, futuro, essa contradição continua por aí?

  • Sabe que às vezes eu sonho que as minorias (aquelas que habitam os bairros mais ricos, melhor explicar, porque uma galera às vezes finge que não sabe) da população aprendeu a andar mesmo de transporte público, trem Osasco-Grajaú às 18h. Será que realizei isso?

  • Estou curiosa para saber quantos pés de árvores teremos. Quando estou pessimista, o meu imaginário de futuro é a 23 de maio e os muros de plantinha do João Dória. Imaginar sobrar só isso no Brasil?

  • Também estou curiosa para saber se geral entendeu, por fim, o que é racismo, porque me parece que até os "bem intencionados" de 2020 não estão conseguindo. Por aqui ainda acham que fazer como princesa Isabel é mais jogo, tudo errado. O movimento negro brasileiro segue com um trabalho pesado;

  • Aliás, hoje, enquanto escrevo esse ponto, pelo menos dois jovens negros foram mortos pela polícia militar da cidade de São Paulo. Algo me diz que viveremos esses tempos muitos anos mais, mas precisamos parar o genocídio. Vocês descobriram como?

  • Gente, os partidos políticos ainda existem? Os dirigentes largaram o poder? Aqueles, homens, brancos de esquerda, que no meu tempo a gente chamava de esquerdomacho. Eles ainda existem, tão envergonhados ou evoluíram? O movimento negro, periférico, favelado, quilombola, indígenas e mulheres tomaram o poder? A democracia agora é organizada pelo povo?

  • Áurea Carolina já é Presidenta da República? Essa pergunta, se puder, queria spoiler hoje, só para esperançar aqui. Juro que não conto para ninguém;

  • Fechei o olho aqui e imaginei um futuro sem parlamentares da extrema-direita, sem o partido que se diz novo e o outro que se coloca como liberal, estou sem tempo para listar os outros. É verdade? Posso abrir os olhos sem me decepcionar?

  • Espero que os homens héteros estejam melhores no futuro, cara. Talvez eu esteja desejando muito, né? Ok. Pelo menos uma responsabilidade afetiva aí, companheiros;

  • Aah, gente! As pessoas voltaram a usar verde e amarelo da camisa da seleção? Eu ainda não aqui não tenho coragem, na verdade nunca tive uma. É muito cara e acho as cores péssimas, antes mesmo da galera piorar a fama dela;

  • Cara, eu comprei uma airfryer (a panela do futuro, dizem), na real eu já transformei metade do que coloquei lá em carvão, e nem churrasco tamo podendo fazer (aliás, já pode por aí?). Me diz, eu aprendi a usar ou devolvi para a loja?

  • Não tive tempo de planejar meu futuro, mas espero que eu tenha feito sobrancelha, cortado meu cabelo e raspado os pelos da perna, eu sei supérfluo, mas poxa me deixa sonhar;

  • Por fim, será que eu reaprendi a beijar na boca? Já não lembro mais o lado que tenho que virar, encaixar.

Ai gente, é bem cansada que digo para vocês que será muito difícil imaginar nossas vidas daqui uns anos. Na real sempre foi, mas vocês notaram que parece que está ainda pior. É uma lista de coisas aleatórias que tenho pensado, ela é enorme e muito maior.

Talvez eu imagine o futuro à la revista sentinela, das Testemunhas de Jeová, inclusive com o tigre ao nosso lado? Talvez. Mas é versão adaptada, e menos dolorida e com menos desigualdade.

É um jeito.

Vamos fazer uma lista de horizontes possíveis?
Vamos fazer uma lista para começar a contar o que está pegando aqui? Quem vai contar essa história?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Mariana Belmont