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#ForaBolsonaro antes de qualquer conversa

Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

14/05/2020 04h00

Depois de um texto excelente como o da semana passada, como se superar nessa semana? Não sabemos, vamos descobrir juntas, né? Eu também já estou sem repertório para falar mal do Presidente da República, Jair Bolsonaro. Aliás, se vocês quiserem usar nosso espaço democrático de comentários para sugerir xingamentos e orientações de como podemos fazer para ele sair da rampa do planalto, agradecemos. Caso queiram usar o espaço para me orientar emagrecimento ou me ofender, por favor, pelo menos usem as vírgulas corretamente.

Eu tenho pensado sobre o que podemos pensar neste momento, claro, para quem tem tempo de pensar. Primeiro queria pedir para não usarmos mais a expressão "novo normal". Afinal, novo normal para quem? Reflitam, aí da casinha de vocês, se antes desse pedaço desastroso da humanidade, a gente vivia em tempos normais.

Há exatos 2 meses, 60 dias, estou em casa. Durante o que restou do verão, usava camiseta e calcinha todos os dias da semana. Agora no outono, uso pijama, meia e meu moletom de toca, que tem sido meu melhor amigo. E não tô usando calcinha, não tô vendo vantagem. Vocês estão usando?

Eu já não sei qual é o dia da semana e o que eu combinei ou não, mesmo com agenda. Só sei que temos, por aqui, uma rotina de trabalho insana. É tudo ao mesmo tempo, agora e pra já - urgências do tempo que estamos vivendo. Televisão ligada, computador 20h direto, celular na mão. E essa r-o-t-i-n-a não tá dando certo. Chora com o governo, desliga a televisão, mas liga no jornal nacional rapidinho e desliga, porque assistir a morte em horário nobre nunca me fez bem.

E a culpa de vocês, como está??
A minha tá aqui, oscilando entre a sala e o quarto.

Tenho me perguntado muito sobre como estamos lidando com as nossas culpas e privilégios. Em um cenário de pandemia - em que perderemos milhares de pessoas, principalmente negros e pobres das periferias rurais e urbanas de todas as cidades do país -, será que estamos realmente preocupados ou ainda estamos apenas protagonizando nos lugares de destaque que nos cabe.

Quem tira o presidente primeiro do poder, quem puxa a primeira mobilização? Estamos de verdade ouvindo e lendo as necessidades das pontas e largando dois pontos de privilégio, para que a maioria da população seja ouvida?

Você homem branco classe média? Sim, você. Como está sua culpa hoje ao acordar e olhar o mundo? Não por ser branco, hétero, classe média e usar calça caqui, mas por sua atuação no mundo mesmo. Vou falar com vocês, meus amigos aqui que não largam o osso do privilégio e estão ali caindo mais pro canto esquerdo do que para o direito. Vocês, por um acaso, conhecem pessoas negras e pobres? Já pegaram ônibus às 18h para o terminal Varginha?

A culpa é uma coisa de louco.

Certa vez um amigo me disse, durante uma das brigas, das muitas que tivemos, algo que me marcou e falei na terapia, compartilhei com muitos amigos e tenho falado bastante para mim mesma nos últimos dias. Afinal, só tenho a mim mesma aqui em casa (risos).

Ele me olhou nos olhos e disse: "Mas Mariana, você é privilegiada, mora aqui em Pinheiros, mêo, e tem uma renda xyz, pára com o discurso sobre periferia". Sim, se ele ler este texto pode ser realmente o fim, mas eu me lembro e ele verbalizou exatamente isso, além de ter dito de tantos outras formas e jeitos. Bem, eu tenho bilhete único e sou privilegiada, porque mesmo sendo uma sujeita periférica, hoje moro na zona oeste de São Paulo. Não preciso me deslocar para o meu local físico de trabalho durante a quarentena que estamos vivendo, tenho salário e sou uma mulher branca. Sou ciente dos privilégios que eu acumulei nos últimos tempos. Nunca disse que não era.

Em dois meses de isolamento social, em casa, absolutamente sozinha, eu vivo pensando sobre isso e, em parte, eu me culpo, sim. Ainda não descobri como resolver isso, talvez na terapia. Mas meus amigos me ajudam muito a olhar para esse meu novo lugar, com cuidado e sabedoria. Ainda não lido bem com a culpa e acho que por hora tenho sobrevivido bem.

Em tempos de pandemia, eu queria pedir um grande favor aos meus amigos e não amigos: olhem o mundo de uma forma mais generosa, sejam cuidadosas e cuidadosos e estudem mais sobre as diferenças no mundo. Olhem para os dados e percebam o problema neles, não fiquem apenas chocados e virem para o lado em seguida, e continuem querendo salvar o mundo sem olhar para os seus privilégios. Façam juntos e sejam transparentes.

A gente vai precisar estar juntos, vamos precisar sair da frente uma hora. E meus amigos, a história cobra, é só ler as histórias. A cobrança vem. Só vamos construir um levante de mudança, verdadeiramente significativo, se a gente olhar para a desigualdade social e genocídio. Nossa parte não é apenas captar recurso e tentar protagonizar isso, nossa parte é também aprender com quem veio antes de nós.

Mariana Belmont