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O meu lugar é cercado de luta e suor, esperança num mundo melhor

21.jul.2014 - Estrada de terra no bairro Chácara Santo Amaro, em Parelheiros, zona sul de São Paulo - Leonardo Soares/UOL
21.jul.2014 - Estrada de terra no bairro Chácara Santo Amaro, em Parelheiros, zona sul de São Paulo Imagem: Leonardo Soares/UOL
Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

13/04/2020 04h00

Eu gosto bastante de música.

E em tempos como o que estamos vivendo elas têm sido minha fuga, meu descanso e o momento que me permito chorar, dançar na casa, ouvir tomando banho, trabalhando e fazendo comida. Faço uma boa faxina desde os 12 anos com um belo grupo Sensação tocando no som bem alto.

Fecho os olhos e posso ver a dinâmica de faxina lá de casa, levantar no sábado às 8h com uma preguiça desgraçada, meu padrinho já tinha levantado 3h atrás, o café estava pronto e o pão fresco com mortadela na mesa. Ele começava a tossir na sala para que eu levantasse logo, porque o ritual dele era antes de qualquer coisa pendurar o tapete no quintal e socar com a vassoura e depois pegar a mangueira e lavar, o sol era tão forte e bonito aos sábados que, no final do dia, o tapete enorme já voltava para o chão da sala.

Meu papel era passar o pano nos móveis, tirar a coleção de perfume nunca usado da minha madrinha, passar o lustra móveis e colocar tudo de volta. Eu fazia isso bem rápido, ai que preguiça de limpar a casa, eu sempre detestei e achava uma perda de tempo. Hoje, com a minha casa, se eu não limpar, o banheiro não se limpa sozinho. Não é mesmo, jovens? Correndo eu fazia a minha parte.

E cantava alto "Acho que não adianta correr atrás deste amor, quem dera eu estivesse perto, deste teu olhar, meu sonhar, meu viver, teu cheiro em outra pessoa, e o meu pensamento em você, é impossível te esquecer, meu amor..." bem alto, minha tia Cássia ama o Marquinhos do Sensação, até hoje e a gente limpava a casa com esse disco no repeat, que loucura. Mas eu amo, vocês sabem.

Nesses dias que tenho passado todo tempo da minha vida nesse apartamento, fico pensando sobre a minha infância naquele espaço de terra batida, com muitas árvores, gansos, galinhas e galos correndo. Era bem gostoso, mesmo quando eu descalça no quintal, desafiando a natureza, pisei em um formigueiro e quase morri. Grande momento que posso não lembrar nesse registro aqui. Doeu pra cacete.

Eu nasci em um bairro muito rural, muito longe do centro de São Paulo, então era bem difícil a gente sair e circular pela cidade, fiz isso algumas poucas vezes entre a infância e a adolescência. Em compensação, conheço cada canto de Parelheiros, mas é sempre uma surpresa trafegar pelas estradas da região, olhar o horizonte longe, sentar na escada do sítio do Jamil e olhar o "cavalo branco passar", sabe aquela serração? É o choque de ar quente do litoral com ar frio da Serra do Mar, criando um cenário fantástico na floresta. É lindo mesmo, para quem nunca viu procure algum vídeo, é mágico.

Minhas lembranças são de uma infância em que tudo era muito difícil, mas era tudo muito livre, com muita música e terra. Que saudade. Já falei sobre importância da lembrança para nos ajudar a construir novos futuros, sobre sonhos possíveis de outros mundos que vamos construir a partir da vida vivida. O tempo, a nova dinâmica da vida, esse tempo comigo mesma, o tempo todo e sem brecha para me distrair de mim, têm me deixado curiosa pela história que me fez chegar até aqui. Das idas nas cachoeiras com os amigos, dos passeios pelo bairro para ver as pessoas, das festas com os amigos até altas horas, dos passeios de carro (sempre prejudicados pelo tempo...hahaha) pelas estradas. Pelos olhares de gentileza do Tio Hélio, pão quente do Gorô, das conversas com o Rosca Fina na porta da padaria e de tantas lembranças que me ensinam que o afeto nas ruas é possível.

Sentar na caixa de luz que ficava pertinho do portão, cruzar as pernas, mão no queixo e a esperança de dias melhores. Olhar a rua de dentro do meu quintal de terra, cheio de árvores. Nossos sonhos, perdas, lembranças, vontades, segredos e medos nos fazem bem, no fundo são quem nos somos.

A música, principalmente o samba me fizeram ser quem eu sou. Era a música que completava as ruas, enchia os lugares, fazia os bares cheios, as praças bonitas, a padaria em clima de amizade e troca com o carro do Cris tocando algum samba. É sobre pessoas e lugares nossa existência no mundo também.

Ser generoso com o que a gente foi, como limpamos a casa, como eram nossas manhãs, nossas tardes de sol, e às vezes a chuva se misturava com terra e deslizava pelo quintal. Parece tudo poesia, mas a gente sempre achou jeito de caminhar e sorrir em meio aos problemas e bagunças da vida. E o meu lugar, como diria o mestre Arlindo Cruz, "é cercado de luta e suor, esperança num mundo melhor, e cerveja pra comemorar...". Dorme e sonha com um mundo melhor, e acorda com a realidade e sai para enfrentar a realidade.

Mariana Belmont