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Mari Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Movimentos auto-organizados e os males do culto à personalidade

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Imagem: iStock

Mari Rodrigues

02/04/2022 06h00

Uma coisa que tenho percebido ao fazer parte de um movimento auto-organizado é que às vezes somos colocadas como líderes ou pessoas muito importantes desse movimento. Seríamos "a cara" dele.

Obviamente, certas pessoas e mesmo o grupo ficam felizes por terem alguém a quem se reportar em caso de alguma dúvida sobre como proceder na construção do movimento, mas ao mesmo tempo, creio que este é um "título" incômodo.

Por quê? A influência dessa pessoa é tão grande que o movimento passa a ser de pessoa x ou de pessoa y, e não de pessoas, unidas por uma pauta comum. E, muitas vezes, isso se torna um culto a essa personalidade. Os interesses egoístas dessa pessoa acabam predominando sobre o interesse do grupo.

Uma coisa precisa estar clara: movimento auto-organizado não pode ser culto à personalidade de ninguém. Ele é feito de pessoas, que devem ser respeitadas no caminho, e não manipuladas.

Costumo deixar bem claro para colegas do coletivo que todo mundo pode dar uma ideia a ser discutida pelo grupo, sem precisar de autorização, e isso tem funcionado bem. E qualquer coisa é feita após a discussão.

Também brinco que herdamos dos portugueses o desejo da volta de Dom Sebastião, rei de Portugal desaparecido em combate. Essa veia messiânica nos leva a tomar decisões estranhas em coletivos, em movimentos políticos, e mesmo nas eleições: sempre queremos aquela pessoa que vai nos salvar de nossa própria miséria.

Mas a nossa miséria, só nós podemos acabar com ela. Não é uma outra pessoa, sozinha, por mais benevolente que seja, que vai salvar a vida de ninguém. Os movimentos coletivos servem para nos ajudar a atingir esse objetivo para o qual foi criado, e não para alimentar egos ou servir a interesses puramente egoístas.