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Mari Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A pessoa negra pode entrar numa livraria

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Imagem: iStock

12/03/2022 06h00Atualizada em 12/03/2022 12h04

Esta semana gostaria de continuar falando do "Devir cachorra" de Itziar Ziga, porém uma triste coincidência me deu o tema de hoje: o livro foi comprado em uma das filiais de uma livraria que recentemente se envolveu num grande escândalo e exemplo do que não se fazer quando o racismo bate à sua porta.

Uma importante pesquisadora do campo da computação foi junto com a irmã a uma outra filial dessa mesma livraria, num bairro de classe alta do Rio de Janeiro. No Twitter, ela relatou ter passado por um caso de racismo: "o segurança se sentiu no direito de me seguir e parar em cima dos livros que eu estava olhando", escreveu. "O que me deixou com mais raiva foi ele parar em cima dos livros que eu estava vendo, se debruçou em cima dos livros a ponto de eu pedir pra ele me dar licença pra eu continuar olhando. Esse foi o nível. Eu falei com a gerente pra ela não dizer que não foi avisada."

Após comunicar a gerente, diz que recebeu deboche: "A primeira pergunta que a gerente me fez foi aonde eu morava". Isso seria completamente descabido com qualquer pessoa, mas, no caso, as duas clientes (ex-clientes agora, imagino) são negras. E como explicarei adiante, no imaginário popular de nossa sociedade racista infelizmente parece que ainda cabe tomar atitudes como essa com pessoas negras.

Conversei com Guilherme Bastos Assumpção, estudante de letras na Universidade de São Paulo e integrante do Coletivo Negro Cláudia da Silva Ferreira, para entender melhor como a população negra pensa essa recorrência de tratamentos ruins por parte de seguranças de lojas, por vezes tão negros como as pessoas que eles abordam rudemente.

No imaginário coletivo, ainda remanescente de uma sociedade recém-saída da escravidão, o único lugar reservado aos negros é a rua, o céu aberto, onde, marginalizados, podiam ser expostos como mercadoria. Com a abolição, a política eugenista do período tratou o negro como inimigo, o que também criou a ideia de que a rua é um lugar perigoso, exatamente porque essas pessoas estariam lá. O fato de o negro adentrar este espaço parece impensável na cabeça dessas pessoas.

E isso faz pensar na racialização das oportunidades. A existência de uma cientista negra é impensável. A possibilidade de essa mesma cientista negra poder comprar livros com seu próprio dinheiro (e devemos citar que ela é voraz consumidora de livros!) é igualmente impensável. Porque para as pessoas que ainda têm essa mente escravocrata, é impensável ver o negro ascender na vida como um branco.

Por isso ainda chocam iniciativas como o processo seletivo de trainee de pessoas negras, sobre o qual até cheguei a comentar, e mesmo a política de cotas raciais em consolidação ainda causa discussões apaixonadas.

Falam que os movimentos negros exageram em suas críticas. Mas todo mundo sabe quem é perseguido nas lojas de bairros de classe alta. Quem é barrado nas festas de bacana das zonas boêmias. Quem é abordado pela polícia nas periferias (e sofre com a sua violência desmedida, às vezes perdendo a vida sem motivo).

Voltando ao caso da cientista, a loja respondeu com uma nota que não diz nada. Respondi à nota em sua rede social, e aqui repito. Não basta "não compactuar" com estas atitudes criminosas. Não basta "não ser racista". É preciso fomentar a cultura do antirracismo e capacitar funcionários, mesmo os terceirizados, como são os vigilantes, tão vítimas deste sistema racista quanto aquelas pessoas que foram ofendidas. Qualquer coisa que não envolva a tomada de atitude para que eventos lamentáveis como esse parem de acontecer tão recorrentemente não passará de demagogia barata e de palavras ao vento.

A cientista abriu uma campanha para fomentar a criação de uma livraria com princípios inclusivos. Esperamos que este episódio sirva para que tanto a livraria onde comprei, pasmem, um livro feminista, quanto todos os outros estabelecimentos comerciais deste país se toquem sobre a necessidade de respeitar os seus clientes e potenciais clientes.

A assessoria de imprensa da livraria entrou em contato com a coluna para oferecer seu posicionamento sobre o caso:

"A Livraria da Travessa reforça seu posicionamento de que não compactua com nenhuma prática discriminatória de qualquer natureza. Pelo contrário. É missão da livraria incluir, divulgar, promover o acesso a todas as manifestações culturais, e acreditamos ter um histórico que comprova isso.

Entramos em contato com as referidas clientes e prosseguiremos com os esforços de sermos sempre democráticos e acolhedores. Com todos.

O vídeo com as imagens do circuito interno da livraria serão entregues à Polícia para dar subsídio à investigação do fato e esclarecer o ocorrido. As imagens não corroboram a narrativa da cliente."