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Mari Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que ainda querem nos dizer o que vestir?

Mulher escolhe que roupa vestir em frente ao guarda-roupa - Getty Images
Mulher escolhe que roupa vestir em frente ao guarda-roupa Imagem: Getty Images

05/03/2022 15h06

Ainda ecoando o "Devir cachorra", de Itziar Ziga, sobre o qual falei na semana passada, ficaram algumas partes ainda a ler, e sobre uma delas vou me debruçar.

Neste Dia da Mulher, que será relembrado agora no dia 8, muito se fala sobre a liberdade para a mulher ser e usar o que quiser. Mas será que essa liberdade é liberdade mesmo? Ziga faz esse questionamento quando traz a questão do hijab das mulheres muçulmanas, esse item polêmico para a cultura ocidental e que já gerou diversos debates calorosos na Europa, onde há forte imigração muçulmana.

Como não sou nenhuma profunda estudiosa da cultura muçulmana, não farei juízos de valor sobre o hijab nem sobre o que ele representa naquele meio e muito menos sobre o que ele representa no meio ocidental. É uma indumentária comum naquela cultura e pronto.

Devemos entender que o conceito de liberdade não é tão universal quanto pensamos ser. Essa liberdade irrestrita defendida no mundo ocidental já trouxe sérios danos à sociedade ocidental. Mas preferimos falar do traje da muçulmana, que é sempre oprimida, como se ela não tivesse voz própria. Isso pode ser até verdade em certas famílias, mas como aponta Ziga em seu livro, há mulheres muçulmanas que vivem longe de uma opressão patriarcal ou que lutam contra ela abertamente (ou nem tanto) e que defendem para si o uso do hijab no dia a dia.

E pode-se então fazer um paralelo com a minissaia, o "suprassumo" da liberdade feminina ocidental. São dois exemplos bastante díspares, mas que mostram um ponto comum: o patriarcado ainda insiste em dizer o que devemos vestir, para sermos consideradas esposas ou "putas".

Devemos sempre lembrar que há mulheres empoderadas de minissaia ou de hijab, e a vestimenta não torna uma mais livre que a outra. Todas seriam "putas" para o patriarcado.

Especialmente em certos países europeus, como a França, onde o polêmico debate se centrou na laicidade do Estado, mas de certa forma, na islamofobia e no racismo presente na cultura do país, o hijab tornou-se um símbolo de resistência dessas mulheres cujas narrativas foram caladas em nome de valores que lhes são alheios.

Mas por que estou falando de tudo isso? Porque ainda existem certos feminismos que, em nome de valores ocidentais de liberdade, calam e querem impedir a autodeterminação de mulheres, como se minissaia e hijab fossem por si só indicativos de opressão.

Assim como existem mulheres que se sentem bem de minissaia e nem por isso deixam de ser feministas, há mulheres que não gostam de usá-la, e está tudo bem. Da mesma forma, usar hijab em lugares onde o uso dele não é imposto ou proibido (esses dois casos sim, indicativos de opressão) é uma expressão de cada mulher e como tal deveria ser respeitado.

As reflexões que deixo hoje são duas. Quando vamos parar de decidir o que a mulher deve ou não usar? Quando o corpo da mulher deixará de ser público, sob total escrutínio de quem quiser opinar, e sua autodeterminação enquanto mulher será respeitada?