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Mari Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A revolução de um crepe em formato de genital

Gigi e seus crepes com massa caseira e formato de genital - Mari Rodrigues/UOL
Gigi e seus crepes com massa caseira e formato de genital Imagem: Mari Rodrigues/UOL

Mari Rodrigues

23/10/2021 12h49

Há algum tempo, li num jornal sobre um novo negócio que causava furor na Espanha: num famoso bairro boêmio de Madri, com grande frequência do público LGBTQIA+, abria-se uma venda de waffles em formato de pênis, com vários recheios e coberturas. Pensei comigo: para isso chegar no Brasil é um pulo!

Qual não foi a minha surpresa na última semana, quando saindo de um corriqueiro programa gastronômico, me deparei com um quiosque escrito "erotic food". E ali via diversos quitutes em formato de pênis e vaginas. Estava acontecendo! Como adoro ouvir uma história, parei no lugar e comecei a conversar com sua dona, a simpaticíssima Gigi. Ela me contou que adorava fazer brincadeiras com esses apetrechos com os quais crianças não devem brincar. Tinha o sonho de abrir uma sex shop junto com o marido.

Enquanto conversávamos e ela fazia a preparação, uma massa folhada de fabricação própria, recheada com morangos e creme de avelã, relembrando os famosos crepes que sempre comemos em festejos, várias pessoas, curiosas com o formato ousado das comidas, paravam e tiravam fotos e perguntavam coisas.

Ela me disse que o lugar onde se instalou, um quiosque num conhecido ponto gastronômico da rua Augusta, em São Paulo, era propício para este tipo de negócio. Afinal, ali há uma grande frequência de um público LGBTQIA+, tanto quanto um público de mente mais aberta e que entende (assim se acredita) a mensagem que se quer passar.

Pode-se considerar que isso é uma exaltação do genital, o que entra no debate sobre a supervalorização do sexo na nossa sociedade, que é bastante válido. Estamos num tempo em que tudo, mas absolutamente tudo, remete a uma conotação sexual. Mas pelo relato da Gigi, podemos ir mais além nessa discussão. Ela acredita que isso pode ser um momento de naturalizarmos a existência de pênis e vaginas, como elementos amorais da nossa anatomia.

A colunista Mari Rodrigues com seu crepe em formato de pênis - Mari Rodrigues/UOL - Mari Rodrigues/UOL
A colunista Mari Rodrigues com seu crepe em formato de pênis
Imagem: Mari Rodrigues/UOL

Num momento em que precisamos discutir uma forma saudável para introduzir o ensino de educação sexual nas escolas, mas não sob a conotação de ensinar as crianças a "fazer sexo", como os conservadores tentam fazer acreditar, mas sim para ampliar o autoconhecimento das pessoas sobre o próprio corpo, e que mesmo professores se sentem relutantes em falar sobre o assunto, essa naturalização é o começo da discussão.

Acabo de comer o meu crepe em formato de pênis e saio refletindo sobre o quão revolucionária é essa ideia de trazer um conceito lúdico à imagem do genital. O quanto ainda podemos usar isso como uma forma de mostrar que a imoralidade só é incutida em nossa cabeça para que não pensemos no nosso corpo como um todo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL