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Mari Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pink money e a pauta que só dura um mês

Hanrrikson de Andrade/UOL
Imagem: Hanrrikson de Andrade/UOL

Mari Rodrigues

10/07/2021 06h00

Estava sem ideias e pedi ajuda de pessoas amigas para escrever hoje. Uma pessoa chegou e me mandou este tuíte, que gerou grande rebuliço nas redes sociais.

Cenas como essa nos fazem pensar se o compromisso com a aceitação da diversidade, tão veementemente gritado durante o mês do Orgulho LGBTQIA+, é genuíno ou pura estratégia de marketing. Tanto se fala na nossa comunidade sobre o tal "pink money", e sobre como o sistema capitalista é perito em se apropriar de pautas importantes e reduzi-las a mera moeda de troca.

Não duvido que existem empresas que fazem trabalhos sérios de proteção da diversidade étnico-racial, de gênero, de identidades e de capacidades. Há uma série de compromissos criados por algumas entidades para tornar os quadros das empresas, inclusive em cargos de liderança, mais representativos da nossa população, altamente diversa e miscigenada. Mas o que se vê é que em muitos casos, esse "compromisso" é só da boca para fora.

Quantas pessoas negras ou assumidamente LGBTQIA+ você conhece que são líderes em empresas grandes? Eu conto nos dedos. Não há estatísticas oficiais sobre o tema, até porque esta parece não ser uma grande preocupação. Aliás, a falta de estatísticas oficiais (e talvez a falta de interesse em criá-las) contribui para as fracas políticas públicas de inclusão que, aliadas ao desinteresse do não-governo em ouvir as populações minorizadas, quando esse extingue conselhos e conferências populares e ainda se vangloria do feito, só nos deixa sem um norte.

Há alguma coisa que ainda é mensurada, e me traz um pouco de esperança: este ano, pela primeira vez, a maioria das pessoas que ingressou na Universidade de São Paulo, a mais conceituada (e mais elitista) do país, é de escola pública. Este fato talvez ajude a melhorar as ainda insuficientes ações de permanência de estudantes mais vulneráveis, entre os quais se incluem as pessoas LGBTQIA+, para que os quadros ali formados ocupem mais espaços de liderança no empresariado e na intelectualidade.

Me deixei fazer tantas digressões, mas sempre para retomar o tema principal: valorizar a diversidade não é algo que se faz apenas em um mês, e sim no ano todo. Ações como a dessa prefeitura que trocou a faixa de pedestres só depõem contra as entidades que as realizam, fazendo-nos questionar qual a sua real intenção ao colocar logomarcas com as cores do arco-íris. Quais empresas e entidades governamentais têm iniciativas sólidas de proteção da diversidade, e quais apenas querem ter dividendos rápidos com isso?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL