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Mari Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A quem interessa ridicularizar a linguagem neutra?

Getty Images
Imagem: Getty Images

Mari Rodrigues

05/06/2021 06h00

No mês do Orgulho LGBTQIA+, a gente sempre se sente na obrigação de tratar temas importantes para a nossa população. Alguns até se tornam repetitivos, de tanto que a gente precisa falar. O tema de hoje é um deles.

Mais uma vez, esta última semana presenciei ridicularizações do uso da linguagem neutra, inclusive de pessoas minimamente versadas e literatas. Algumas pessoas explicam o que é, e outras pessoas apenas riem e fazem piada.

Sinceramente, não tenho mais paciência para explicar o que é linguagem neutra, pois já falei sobre o tema aqui, aqui e aqui. Poupem meu tempo e leiam esses textos antes de virem falar bobagens para mim.

Para algumas pessoas que ainda têm essa noção de que a língua tem um guardião e que deveria ser protegida do povo, a linguagem neutra é um acinte à língua. Acintoso é esse comportamento elitista e preconceituoso.

Recordo-me da celeuma criada em torno do livro "Por uma vida melhor", em 2011, que atacava diretamente o preconceito linguístico contra pessoas pobres que não têm o completo domínio da norma padrão da língua. O livro era voltado à Educação de Jovens e Adultos, e como tudo aqui no Brasil, foi tirado de contexto e acusado de ensinar as pessoas a falar "errado".

O que é o certo e o que é o errado? Quem define o que é certo e o que é errado? O Estado, formado em sua maioria de velhos brancos? A Academia Brasileira de Letras, formada em sua maioria de velhos brancos? Será mesmo que teremos uma vida melhor se todo mundo falar à Machado de Assis? Será que ninguém percebe o caráter excludente de nossa educação precária, que não nos prepara para imergirmos em todos os ambientes, inclusive aqueles que a maioria de nós relegamos a segundo plano?

Não estou aqui falando que não deve ser ensinada a norma padrão da língua nas escolas, tampouco estou conclamando as pessoas LGBTQIA+ a enfiarem um 38 na cabeça de quem não usa pronomes neutros, como ouço dizer por aí de gente supostamente "inteligente".

Repito, os pronomes e artigos neutros são uma parte ínfima da discussão sobre uma linguagem inclusiva, que mais que um artigo e um pronome, representam todo um exercício de suplantar o sexismo da nossa amada última flor do Lácio, inculta e bela.

Ninguém aqui despreza o português, e ninguém está impondo nada artificialmente. Até porque a última reforma ortográfica, esta sim artificialíssima, foi aceita quase sem contestação por vir das elites, e a linguagem inclusiva é odiada por vir das camadas marginalizadas pela sociedade.

Então, proponho um exercício: veja até que ponto você usa de estruturas de linguagem sexistas e tente superá-las. Procure não ridicularizar os pronomes e artigos neutros, e sim, considerar porque algumas pessoas a usam. O que pra você é "pura frescura" pode representar um alento para outras pessoas se sentirem acolhidas em seus ambientes.

Mais uma vez, este texto foi escrito em linguagem não-sexista. Os olhos de vocês queimaram lendo isso? Acredito que não.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL