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Mari Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É possível ter vaidade no meio da pandemia

Mari Rodrigues no Instagram - Reprodução/Instagram
Mari Rodrigues no Instagram Imagem: Reprodução/Instagram

Mari Rodrigues

03/04/2021 06h00

No momento em que escrevo, as notícias continuam desoladoras. Mas há pontinhas de esperança. Nesta semana, Monalisa Rocha, trabalhadora de limpeza numa unidade de saúde em Alagoas, é a primeira pessoa trans a se vacinar naquele Estado. E em breve tantas outras pessoas trans se vacinarão e deixarão para trás um de seus muitos fatores de risco de vida numa sociedade ainda extremamente transfóbica como a nossa.

Queria falar sobre outra coisa hoje, como clama o grande Ricardo Kotscho: vamos parar de falar de vírus e daquele que se diz nosso presidente. A pessoa me dá tanta ojeriza que fiz uma reprogramação mental em que não consigo sequer falar seu nome.

Mas vamos seguindo. Esta semana, num ímpeto de consumismo e vaidade ocasionado pela repentina paixonite que me atacou no tempo que se passou, e sobre a qual falei no último texto, comprei algumas roupas. Postei o resultado numa outra rede social, conforme pode-se ver abaixo.

E lembrei-me de uma outra amiga, que recentemente se admitiu mulher trans e começou o processo de transição de gênero. Pedi a ela que me contasse sobre como foi realizar este processo em plena pandemia. Ela me responde que foi complexo, pois experimentar roupas imediatamente não era possível e muitas coisas que comprou não serviram, ou precisaram ser ajustadas, ou ela não gostou. Está ainda descobrindo o que cai bem nela.

E me lembro de como foi a minha transição, nos longínquos anos de 2012 e 2013. Fiz escolhas, algumas não muito corretas, e fiquei esquisita por um tempo. Mas com o tempo fui me ajustando. E assim espero que ela se ajuste.

A questão é: nunca me considerei uma pessoa vaidosa. Sempre fui adepta de vestir-me e portar-me da forma mais natural possível, sem escandalizar. E até hoje me visto sem a mínima vaidade. O que não me torna mais ou menos "feminina". Mas com o tempo, percebi que poderia ser mais vaidosa, poderia me mimar, digamos assim.

Engraçado é o fato de que este ímpeto tenha ocorrido no meio de uma pandemia, em que não podemos nos mostrar fisicamente a outras pessoas, como se precisássemos de uma legitimação externa de nossa vaidade. Experimentar roupas, maquiagens e adereços se tornou algo para consumo interno.

E agora me dirijo a vocês: a vaidade é algo que pode surgir no meio de uma catástrofe? Será apenas um subterfúgio para esquecer toda essa situação? Existe clima para nos mimarmos? Ser pessoas melhores implica em nos amarmos primeiro? Em busca de respostas, vamos nos cuidando, e vamos recuperando uma vaidade que estava adormecida, e que talvez não possa esperar a volta a uma relativa normalidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL