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Mari Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A quem interessa ridicularizar a militância?

Mari Rodrigues

13/02/2021 04h00

Há um tempo, um amigo comentou que uma das maiores qualidades dos meus textos é que eles não soavam como "militante". Por tempos, eu também não gostava dessa qualificação de "militante", que me parecia algo muito parecido com movimentos organizados ligados a partidos políticos. Quando alguém quer dizer que você está reclamando demais, automaticamente lhe tacham de "militante".

Fico me perguntando quando a militância se tornou algo tão tenebroso que a simples menção à palavra remete a coisas ruins. A quem interessa essa ridicularização? Apenas às estruturas de opressão, que ficam intactas, enquanto nos digladiamos por preconceitos que ainda nos envolvem em nossos discursos.

Em movimentos auto-organizados como aqueles dos quais eu faço parte, de alguma forma estamos fazendo algum tipo de militância por nossos direitos. Infelizmente, parece que a tal "militância" foi tomada por gente com atitudes muito ruins que vira a cara desses movimentos.

E vou voltar à distração. O BBB, com suas pessoas em tese bastante engajadas em movimentos sociais e identitários (a ridicularização dessa outra palavra será falada em momento mais oportuno), está mostrando que os tais "expoentes" dos movimentos não são tão "desconstruídos" assim. E isso é extremamente danoso para quem realmente está na luta, lidando com problemas sérios, como perseguições e ameaças, para que a nossa existência enquanto minoria social seja um pouco mais palatável.

E isso traz uma conclusão bastante interessante: por que personalizamos os movimentos? Por que endeusamos os expoentes dos movimentos? Como movimento auto-organizado deveríamos pensar no movimento como uma coletividade e não como o movimento de fulano ou sicrano.

Assim como na política essa personalização teve efeitos terríveis no nosso convívio social, na militância isso tem trazido dificuldades para que nossas pautas sejam minimamente respeitadas.

Trago um exercício final: vamos parar de tratar qualquer coisa como militância. Às vezes é só um chilique. Militância é algo sério, organizado, respeitoso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL