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Mari Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nunca nos proibiram de sermos ruins

Participantes do BBB 21 conversam - Reprodução/Globoplay
Participantes do BBB 21 conversam Imagem: Reprodução/Globoplay

Mari Rodrigues

06/02/2021 04h00

Uma voz interior me diz que não deveria escrever sobre coisas de que apenas ouvi falar. Porém tanto ouvir falar de uma mesma coisa me faz ter de tomar algum partido sobre essa coisa.

Queria falar sobre a histórica entrevista da Erika Hilton no "Roda Viva" da TV Cultura, mas ainda não a assisti. Poderia também falar sobre a situação acintosa de acossamento e ameaça a ela e a outras duas vereadoras, mas isso seria chover no molhado: o ódio e o preconceito estão envolvidos nisso. E talvez tenha algum nexo com o que vou desenvolver.

Ecoou em vários grupos de que participo o festival de atitudes vergonhosas tomadas por participantes dessa grande distração nacional que é o BBB. Eu não assisto, e não julgarei quem assiste, assim como não concordarei com quem fala hipocritamente que é melhor ler um livro. Mas, como simulacro de uma fotografia sociológica do nosso país, é claro que temos muito a comentar, assistamos ou não ao programa.

E, por osmose, ficamos sabendo da pessoa 1 da minoria x, que faz tortura psicológica com pessoa 2 da minoria y. Ficamos sabendo da pessoa 3 que se escandaliza com atitude da pessoa 4 e faz um grande discurso. Não vou comentar as atitudes individuais dos participantes, porque, como já disse, não acompanho o programa.

Mas o fato que mais me ficou na cabeça é o julgamento absurdo que fazem em cima de minorias quando elas fogem do padrão "sou uma pessoa perfeita e incorruptível, um exemplo, um cristalzinho". Algo que com pessoas privilegiadas no nosso sistema social desigual também acontece, mas de forma muito menor.

Não estou aqui para contemporizar ou minimizar as atitudes que as pessoas podem ter tomado no programa, e que serão alvo do escrutínio público, talvez não da melhor forma. Mas uma coisa precisa ser lembrada: não nos proibiram, nunca, de sermos pessoas ruins. Somos pessoas reais, de carne e osso, e não seres iluminados com cheiro de baunilha e gosto de marzipã. Falhamos. Cometemos imprudências, como as que eu já cheguei a comentar anteriormente.

Precisamos parar com essa história de que x, por ser y, é inerentemente boa, e que w, por ser z, é inerentemente ruim. Esses estereótipos, resultado de nossa sociedade desigual, de alguma forma apropriados pelas pessoas oprimidas, só criam distorções nos entendimentos e frustrações para quem acredita neles.

Como muita gente diz, ninguém nasceu desconstruído, e ninguém se desconstrói da noite para o dia. Assim como anos de condicionamento social criaram construções por vezes problemáticas, o desafio de superar esse condicionamento é diário e gradual, e espero que essas pessoas que são ruins aprendam porque são ruins e tomem alguma atitude. Se não tomarem, uma pena, serão convenientemente tratoradas pela situação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL