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Mari Rodrigues

Retomar a conversa sobre HIV é necessário

Há várias reclamações de que as campanhas atuais de prevenção contra as infecções não atingem públicos LGBTI+, e especialmente os homens gays e bissexuais - iStock
Há várias reclamações de que as campanhas atuais de prevenção contra as infecções não atingem públicos LGBTI+, e especialmente os homens gays e bissexuais Imagem: iStock

Mari Rodrigues

05/12/2020 04h00

Quando eu era mais jovenzinha, sei lá, uns 11, 12 anos, volta e meia tinha palestras na minha escola sobre as então doenças sexualmente transmissíveis, hoje chamadas infecções sexualmente transmissíveis. Falava-se sobre prevenção e todo aquele papo que já ouvimos antes. E esse é um papo que sempre precisamos ter com os jovens, e que não sei se está se perdendo.

Há várias reclamações de que as campanhas atuais de prevenção contra as infecções, em especial o HIV, não atingem públicos LGBTI+, e especialmente os homens gays e bissexuais, ainda o maior contingente de casos no Brasil. Escuto muito pouco sobre campanhas de prevenção, e mesmo nas rodas de conversa de pessoas jovens pouco se fala sobre formas de prevenção, e sobre conscientização do viver com o HIV. Parece até que este tema virou novamente um tabu entre a gente, pelo menos no Brasil.

Mesmo nos Estados Unidos, que têm legislações polêmicas sobre divulgação de sorologia para parceiros sexuais, este parece ser um tema bem mais leve de se conversar sobre, em contraponto ao caráter quase ritualístico que esta divulgação toma em terras tupiniquins. O medo do estigma, que nenhuma campanha nacional parece ter trabalhado com êxito até hoje, ainda existe e ainda assombra as pessoas soropositivas.

Conheço pessoas que vivem com o vírus, e têm vidas incríveis e cheias de saúde. Mas no imaginário popular, ainda se está com aquela visão típica dos anos 80 e 90 da pessoa magricela, corroída por várias doenças, a ponto de morrer. E a ver por essas pessoas, o vírus já não é mais uma sentença de morte, e o tratamento, se feito corretamente, inibe transmissões por via sexual.

Infectologistas de todo o mundo insistem na prevenção combinada; apenas o uso da camisinha, fixação obsessiva das campanhas governamentais, já não é suficiente. E esse é um outro tema: parece que as pessoas baixaram a guarda e pararam de se prevenir. Certa gente já não quer saber da camisinha e tampouco de outros métodos de prevenção de infecções, como a profilaxia pré-exposição (PrEP).

E os números estão aí para comprovar: esta é uma epidemia para a qual, mesmo com vitórias, continuamos perdendo. Somente com campanhas focadas nos problemas que realmente temos para combater as infecções poderemos diminuir drasticamente os números que ainda são bastante altos e diminuir estigmas em cima do vírus e das pessoas que com ele vivem.