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Mari Rodrigues

Deixem nossos corpos em paz!

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Mari Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

03/10/2020 04h00

Esses dias, uma amiga me contou de uma situação bem constrangedora. Ela foi de noite no supermercado próximo de sua casa e foi abordada por um tarado que a seguiu por dentro do mercado como fosse a coisa mais normal do mundo. Desde então, ela passou a ir ao supermercado em horários mais diurnos.

O que podemos inferir disso? Mais uma vez, chegamos à discussão sobre os limites que o patriarcado impõe à liberdade feminina. Se não podemos sequer ir a um supermercado fazer algo tão trivial sem sermos importunadas, eu fico imaginando em que outras situações os homens se sentem donos de nossos corpos e no direito de nos importunar.

A liberdade feminina trouxe vários avanços, é claro. Podemos votar, podemos trabalhar sem precisar do consentimento de ninguém, entre outras coisas. Porém séculos de cultura machista não se dissolvem da noite para o dia, e ainda temos que conviver com situações grotescas nestes mercados.

Qual mulher já não ouviu em entrevistas de emprego sobre vontade ou possibilidade de ter filhos, algo que nada tem a ver com capacidade ou competência laborativa? Quanto às mulheres trans, qual delas nunca foi compelida a fazer uma pequena palestra sobre o assunto em plena entrevista de emprego?

Isso está mudando. Recentemente, recebi anúncios de vagas de emprego voltadas a pessoas trans, e isso me deixou muito contente. Significa que algumas empresas estão se tocando de que a diversidade é importante para dar novo gás às suas equipes. Mas e a equidade? Será que estas pessoas serão tratadas da mesma forma que pessoas cis pelas chefias e pelos colegas de setor? Fica o questionamento.

Voltando ao caso da minha amiga, creio que vale refletir sobre os papéis de gênero que o feminino e o masculino exercem em nossa sociedade ainda. Como falei num texto anterior, precisamos deixar de inferiorizar a figura do feminino e deixar de tratar o corpo feminino como público e sujeito a importunações se queremos combater uma sociedade desigual. Quem sabe assim, poderemos fazer nosso mercado em paz.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.