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Mari Rodrigues

Quando seremos antitransfóbicos?

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Mari Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

12/09/2020 04h00

Acabo de ler "Sejamos todos feministas", o potente manifesto da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. E muitas questões vieram à cabeça. Tenho uma vida relativamente confortável e um emprego estável onde tenho um bom moral perante meus colegas. E esta conquista veio a duras penas, à base de trabalho árduo e de muitos olhares tortos. E me pergunto: e se eu tivesse permanecido um "homem"? Será que teria precisado de todo esse esforço?

Chimamanda vai nos falar sobre suas experiências na Nigéria, em que as mulheres não são cumprimentadas em lugares públicos e parece ser impossível para uma mulher ter uma posição de independência financeira, e ainda que a tenha, este feito será creditado a um homem. E mesmo em sociedades ocidentais, aparentemente mais "igualitárias", isto acontece. Porque ainda estamos presos à ideia de que o homem é o "provedor da casa" e a mulher a "cuidadora do lar", sem sonhos, sem opiniões, sem independência...

Os preconceitos que mulheres trans sofrem diariamente estão diretamente relacionados a esta figura do feminino. Ou melhor, à sua renúncia à figura do masculino. A mulher trans é vista como uma "traidora" nesse "maniqueísmo" criado entre o masculino e o feminino. Como assim uma pessoa que teria direito a todos os privilégios que nossa sociedade machista tem a oferecer a quem é homem "recusa" a esta oferta tentadora e debanda para o lado "inferior", menosprezado e sobretudo sem direito a nenhum privilégio?

Em outro departamento, um homem trans, quando atinge o status da "passabilidade", geralmente recebe o acolhimento dos outros homens, talvez por ter recusado à figura do feminino, vista como inferior. Estou sujeita a falar alguma incorreção, mas o que vejo é que alguns homens trans acabam por adquirir discursos machistas para "ficar bem na fita" com outros homens, e aqueles que rompem estes paradigmas machistas acabam sendo marginalizados, por de alguma forma, recusarem parcialmente à figura do masculino.

A discussão sobre a antitransfobia, a recusa completa aos pensamentos e preconceitos de nossa sociedade ainda extremamente transfóbica, está intimamente ligada à discussão sobre o machismo estrutural de nossa sociedade ainda extremamente machista.

Quem sabe quando tivermos a maturidade de pensar que uma mulher é independente porque pode ser independente, e pode almejar ter as mesmas oportunidades e os mesmos salários que homens nas mesmas condições, e que pessoas trans possam ter as mesmas oportunidades que pessoas cis, podemos nos livrar deste maniqueísmo masculino-feminino que tanto nos impede de ter um debate sadio sobre as questões de gênero e sexualidade.