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Doação de sangue e um ensaio sobre o ódio

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Marina Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

09/05/2020 04h00

Na última semana, o Supremo Tribunal Federal provisoriamente formou maioria numa decisão bastante comemorada pelo público LGBT+: o fim das restrições à doação de sangue por esta comunidade. A decisão ainda vai terminar de ser votada, mas já podemos falar de algumas das ações e repercussões do processo.

Especialmente na época em que estamos, em que uma pandemia afeta toda a nossa vida, os estoques de bancos de sangue chegaram a níveis alarmantes. Pessoas sadias, que poderiam contribuir para reverter esse quadro, simplesmente são proibidas de doar sangue porque fazem sexo de forma diferente da esperada.

Parece que não saímos ainda dos anos 80, quando a epidemia de Aids causou histeria na população, pois os protocolos de saúde ainda consideram as pessoas homossexuais como "grupo de risco". Comportamentos de risco existem em todas as orientações sexuais, e acredito que os protocolos de testagem de sangue já são bastante rígidos para evitar que doenças sejam transmitidas; se não o forem, temos um problema, que não envolve a sexualidade de ninguém.

Lutamos diariamente por uma sociedade menos preconceituosa, onde os direitos fundamentais sejam válidos para todo mundo e não só para quem seja de determinada forma. Pensando nisso, mostra-se lamentável a reação do governo, que queria que a questão sequer fosse analisada. Natural vindo de quem apoia ações antidemocráticas que, o curso da história, rifam primeiro os direitos das minorias.

Então é a hora de falarmos de ódio. O mesmo ódio que vitima de morte centenas de pessoas LGBT+ no Brasil todo ano. E que vitima fisicamente e moralmente outras milhares. Que permite que o sistema de saúde trate parcela da sociedade como cidadãos de segunda categoria. Que priva de formação humanística contra o preconceito pessoas que vão cuidar de outras e que chegam a falar coisas absurdas e desprovidas de qualquer racionalidade.

Somente a erradicação do ódio, de qualquer forma civilmente possível, pode nos tirar da barbárie que vivemos, em que vidas tolhidas são literalmente menosprezadas, e vidas remanescentes são sujeitas a toda sorte de julgamentos ridículos.