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Mara Gama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Do medo da mata ao jardim sobre a laje, livro faz "DR" sobre o paisagismo

Livro "Paisagismo sustentável para o Brasil: integrando natureza e humanidade no século XXI" - Divulgação
Livro "Paisagismo sustentável para o Brasil: integrando natureza e humanidade no século XXI" Imagem: Divulgação
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

02/06/2022 06h00

Se fosse só pelo glossário, pelas biografias de defensores da vegetação nativa ou mesmo que só pelos verbetes didáticos sobre os biomas brasileiros, o livro "Paisagismo sustentável para o Brasil: integrando natureza e humanidade no século XXI" já valeria a leitura, por ajudar a suprir a falta de títulos sobre o tema no país.

Mas o paisagista e botânico Ricardo Cardim, autor do volume -- e do desenho da capa --, tem experiências interessantes para contar, fruto de suas pesquisas e atuação profissional, leu muito sobre o assunto e aproveitou a pandemia para encorpar seu texto com referências científicas atualizadas.

Nesse novo livro, que acaba de ser lançado pela editora Olhares, ele fala de seus projetos para florestas verticais, fachadas e telhados verdes, problemas da arborização urbana, como podas, estrangulamento de árvores e a disputa com as fiações, e faz uma introdução de fôlego sobre as raízes do paisagismo no Brasil.

O paisagista e botânico Ricardo Cardim é autor do livro "Paisagismo sustentável para o Brasil: integrando natureza e humanidade no século XXI" - Divulgação - Divulgação
O paisagista e botânico Ricardo Cardim é autor do livro "Paisagismo sustentável para o Brasil: integrando natureza e humanidade no século XXI"
Imagem: Divulgação

Mestre em Botânica pela USP, idealizador de várias Florestas de Bolso da Mata Atlântica em São Paulo, como a do largo da Batata, em Pinheiros, diretor de um escritório especializado em projetos para empresas, Cardim é autor também do belo trabalho de pesquisa com expedição que percorreu vários locais do país e que resultou no livro "Remanescentes da Mata Atlântica", publicado em 2018 também pela Olhares, e esgotado nas livrarias.

A primeira parte do seu novo livro é dedicada ao que poderia ser resumido como a história da guerra empreendida contra a natureza para a instalação dos agrupamentos que viriam a se tornar as cidades brasileiras atuais. Mostra que além do sangue de indígenas e dos escravizados africanos, a gênese das cidades tem rios de sangue verde nativo derramado.

Para tentar conter a exuberância tropical da flora e da fauna locais, primeiro os colonizadores europeus e, depois, os brasileiros dominados por uma elite para sempre colonizada se dedicaram a uma urbanização temente à flora e à fauna.

"O Brasil dos primeiros séculos ainda era um território de natureza que aparentava ser infinita. Desconhecido, misterioso, recoberto por milhares de quilômetros de espessas florestas e cerrados que cercavam e pareciam ameaçar os povoados", escreve Cardim. E conclui: "O medo perante a biodiversidade nativa foi algo solidamente construído e que continua ecoando em pleno século XXI".

Terreno no largo da Batata onde foram plantadas 400 mudas de 90 espécies diferentes da Mata Atlântica - Divulgação - Divulgação
Terreno no largo da Batata onde foram plantadas 400 mudas de 90 espécies diferentes da Mata Atlântica
Imagem: Divulgação

Para exemplificar esse temor já no início da colonização, o livro recupera atas da Câmara de São Paulo que mostram como o poder público se empenhava "na luta contra a vegetação na malha urbana" desde o século 16, com a imposição de multas para quem não aparasse a vegetação em seu terreno. "Nos primeiros séculos, o único verde aceito oficialmente nos núcleos urbanos do Brasil estava restrito aos quintais, nos fundos das casas, cercados de grossos muros de taipas ou pedras".

Num segundo período, que começa em 1860 até os anos 1930, há uma fase de valorização dos jardins privados e das plantas de origem europeia. Mais recentemente, com o boom das cidades, os rios são canalizados, várzeas são drenadas e loteadas, a vegetação urbana vai sumindo ainda mais e o império do automóvel se impõe. É nesse estágio que Cardim identifica o nascimento de um símbolo importante -- e triste -- da vida urbana: o jardim sobre a laje.

"Podemos dizer que a cidade verticalizada no Brasil é a cidade do jardim sobre a laje. Os prédios impermeabilizaram boa parte dos terrenos com garagens e sobre elas colocaram jardins que são caixas de terra com grandes vasos que não permitem árvores de bom porte e amplos benefícios ambientais. O resultado são jardins sem contato com o lençol freático e com pouca biomassa vegetal, que acabam sendo periodicamente destruídos para reformas de impermeabilização", escreve o autor. Para piorar, as calçadas são estreitas e áridas e não há uma "política de construção de áreas verdes".

A guerra contra a natureza não acabou. "Como atuo com projetos imobiliários, tenho um camarote para ver que grandes empreendimentos ainda tentam tirar ao máximo a vegetação nativa do local e trazer um jardim construído. É exemplo da mentalidade ditatorial com o jardim". Essa prática é insustentável e "expulsa a possibilidade de uma área verde que converse com toda a herança natural e com o direito da vida que nos precedeu", afirma Cardim.

Floresta de Bolso ?Bosque da Batata?, três anos após o plantio, em 2020, com árvores com alturas de 6 m a 8m - Divulgação - Divulgação
Floresta de Bolso "Bosque da Batata", três anos após o plantio, em 2020, com árvores com alturas de 6m a 8m
Imagem: Divulgação

Para mudar essa concepção, seria fundamental que acontecesse "uma revolução" nas mais diversas manifestações culturais, para inserir a biodiversidade nativa na ideia de brasilidade. "É espantoso quando você vai a uma loja de roupas e vê que os tecidos com estampas de plantas só têm espécies estrangeiras, ou vê mostra de decoração que só usa planta de fora como símbolo de beleza e sofisticação", exemplifica.

"Não temos mais desculpa para usar os jardins como mero capricho humano estético", diz. O paisagismo sustentável, em oposição, defende a multifuncionalidade do projeto, com foco na biodiversidade nativa, e que a vegetação sustente e preserve a paisagem geológica com seu solo, rios e rochedos, para o bem estar e a resiliência das cidades.

"O livro é uma DR: uma discussão sobre a relação entre as pessoas e a natureza do Brasil. Serve para todos que se preocupam com a natureza, não só nas cidades, mas nos paraísos naturais. É também um manual, mas não só. Tentei fazer um livro amplo, que fala do nosso território e que vale para as cidades tropicais do planeta, que têm problemas bem semelhantes".

Cardim dia que gostaria que o livro ajudasse a repensar o convívio com a natureza nos centros urbanos. "Enquanto a cidade for a cidade dos carros, ela será a cidade do jardim sobre laje", diz. "Trocar cidades permeáveis por esses jardins de laje mostra a força da ditadura do carro que a gente ainda vive. Ainda hoje, não podemos implantar florestas de bolso em São Paulo porque a legislação não prevê o plantio de trechos do bioma que é nativo da cidade", finaliza.

Serviço

"Paisagismo Sustentável para o Brasil"
Editora Olhares
Ano 2022
304 páginas
preço R$ 199