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Mara Gama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Humanidade transforma em lixo 91,4% de tudo que produz e usa

vchal/iStock
Imagem: vchal/iStock
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

27/01/2022 06h00

A humanidade transforma 91,4% de tudo o que produz e utiliza em lixo. Os 8,6% restantes têm algum tipo de reaproveitamento, e não necessariamente o mais eficiente possível. Em 2017, esse percentual de aproveitamento, chamado de índice de circularidade, era de 9,1%. Ou seja, a situação está piorando.

Os dados estão na quinta edição do Circularity Gap Report, estudo que faz um raio x dos fluxos da economia mundial compilando informações de diversas fontes e que saiu no último dia 19 de janeiro. É elaborado pela Circle Economy, iniciativa que faz esse tipo de levantamento e análise para empresas e gestores públicos e privados.

Segundo o documento, a economia global consome 70% mais materiais virgens do que o mundo pode repor com segurança: o uso anual de recursos foi de 89,8 bilhões de toneladas em 2016, ultrapassou os 100 bilhões em 2019 e está estimado em 101,4 bilhões em 2021.

O relatório aponta que as metas climáticas dos países se fixam na redução de combustíveis fósseis, mas dão pouca ênfase ao peso da extração de matérias virgens e às formas de consumo insustentáveis, sendo que 70% das emissões de GEE são relativas à produção e ao uso de todos os tipos de produto.

De outra parte, a economia circular figura em muitas políticas e objetivos governamentais e multilaterais (como o Plano de Ação da Economia Circular da União Europeia) apenas como um outro nome para a reciclagem, que tem suas limitações na contenção das emissões.

Para avançar na direção de uma circularidade mais abrangente e na eficaz redução de emissões, o relatório aponta 21 soluções em alimentação, comunicações, cuidados de saúde, consumo, mobilidade e habitação que podem ajudar a cumprir a meta do Acordo de Paris, de limitar o aquecimento global a 1,5 °C até 2050.

Em cada uma delas, há uma estimativa de economia de emissões e materiais. Somadas, as 21 soluções dariam 22,8 bilhões de toneladas (22,8 Gt) de emissões de gases do efeito estufa.

Para implementar essas soluções, é preciso um equilíbrio de políticas, incentivos financeiros e responsabilidades individuais. "Podemos consertar o clima se pudermos consertar a economia", disse o diretor de estratégias da Circle Economy, Marc de Wit, no webinário de apresentação do relatório.

"Os governos nacionais e locais precisarão fornecer orientação e condições favoráveis, os consumidores precisarão fazer escolhas que encorajem a circularidade e as empresas precisarão redesenhar seus processos desde o início", aponta o documento.

As soluções seguem quatro princípios fundamentais: extrair menos matérias primas virgens e recursos, usar produtos por mais tempo, desenhar produtos e materiais com vistas à desmontagem e reciclagem, regenerar solo, agricultura e investir em energias renováveis.

Elas se dividem em sete eixos baseados nas necessidades humanas: habitação, alimentação, mobilidade, produtos de consumo, serviços, assistência médica e comunicação.

"A necessidade que representa a maior pegada de recursos e emissões é a construção e manutenção de casas residenciais, especialmente em países de baixa renda", diz o estudo. Em segundo lugar no ranking, está a alimentação, por seus ciclos de vida curtos na economia. Em terceiro, a necessidade de mobilidade que consome dois tipos de recursos: materiais para construir o transporte em tecnologias de veículos como carros, trens e aviões e os combustíveis para alimentá-los.

As propostas sobre alimentação poderiam contribuir para cortar 10 bilhões de toneladas de emissões globais, basicamente com: a) produção alimentar sustentável; b) redução do consumo excessivo e c) adoção de uma dieta mais saudável. De acordo com o relatório, as empresas podem agir antes que os governos nacionais ou locais estabeleçam metas, construindo transparência em suas cadeias de suprimentos.

As 21 propostas do Circularity Gap Report 2022

1- Design eficiente nos aparelhos eletrônicos >> economia: 0,19 Gt de emissões e 0,33 Gt em uso de material.
Estratégias: Comprar menores e mais leves dispositivos eletrônicos, aumentar digitalização, privilegiar computação em nuvem.

2- Equipamentos de saúde circulares >> economia: 0,21 Gt de emissões e 0,27Gt em uso de material.
Estratégias: Reparação, manutenção e design durável de equipamentos médicos, substituir artigos médicos descartáveis por reutilizáveis, assistência médica virtual, reciclagem de resíduos médicos.

3- Consumo consciente de produtos duráveis >>economia: emissões de 0,18 Gt e uso de material de 0,27 Gt.
Estratégias: Reparação, manutenção, compartilhamento e uso de segunda mão de têxteis, eletrodomésticos, móveis, maquinaria e equipamentos.

4- Projeto e uso eficiente de produtos de consumo >> economia: emissões de 0,30 Gt e uso de material de 0,80 Gt.
Estratégias: uso menor ou mais eficiente de papel, plástico, móveis, produtos eletrônicos e uso mais eficiente de têxteis mais naturais.

5- Melhorar utilização dos veículos >> economia: 1,83 Gt de emissões e uso de material de 1,64 Gt.
Estratégias: Condução mais eficiente para economia de combustível, compartilhamento de veículos.

6- Veículos circulares >> economia: 1,50 Gt de emissões e 3,33 Gt de uso de material.
Estratégias: Reciclar veículos em fim de uso, usar metais e plásticos reciclados na reparação de veículos.

7- Maior durabilidade de veículos >> economia: 1,23 Gt de emissões e uso de material de 2,18 Gt.
Estratégias: Reaproveitamento de componentes de veículos automotores, design visando produção de veículo durável, veículo desenhado para reparo e manutenção.

8- Melhorias em projetos de veículos >> economia: 1,22 Gt de emissões e uso de material de 1,24 Gt.
Estratégias: Veículos mais leves e menores, condução autônoma (por ser mais segura, não exige carros resistentes a colisões).

9- Menos produtos químicos nos veículos >> economia: 0,96 Gt de emissões e uso de material de 2,50 Gt.
Estratégias: Usar bioplástico, usar menos plástico, usar menos produtos químicos.

10- Itens de consumo circulares >> economia: 0,31 Gt de emissões e uso de material de 0,45 Gt.
Estratégias: Reciclar plásticos, usar papel para escrever reciclado, aumentar o uso de materiais reciclados em móveis, reciclagem de malhas de fibras sintéticas.

11- Reduzir viagens >> economia: 2,41 Gt de emissões e 1,96 Gt uso de material.
Estratégias: Teletrabalho, reduzir transportes de carga.

12- Produção sustentável de alimentos>> economia: 2,07 Gt de emissões e uso de material de 3,40 Gt.
Estratégias: Produção de alimentos orgânicos, sazonais e para consumo regional e local, incentivo à produção familiar de alimentos, uso de biomassa na alimentação.

13- Reduzir desperdício na produção de alimentos >> economia: 2,07 Gt de emissões e uso de material de 3,40 Gt
Estratégias: Substituir rações de proteína animal por produtos agrícolas recuperados para as culturas, usar menos embalagens em produtos alimentares.

14- Dieta saudável >> economia: 1,32 Gt de emissões e 0,42 Gt de uso de material.
Estratégias: Consumir principalmente dietas à base de plantas, comer menos açúcar em alimentos e bebidas, comer menos alimentos processados.

15- Fogões limpos >> economia: 0,97 Gt de emissões e 0,41 Gt uso de material.
Estratégias: Substituir fogões poluidores por tipos não poluentes.

16- Recursos eficientes na habitação >> economia: 1,96 Gt de emissões e 0,79 uso de material.
Estratégias: aproveitamento melhor da insolação, economia de água quente, medições inteligentes de temperatura, melhor isolamento térmico, menor uso de aquecimento.

17- Recursos eficientes na construção civil >> economia: 3,45 Gt de emissões e uso de material de 4,05 Gt.
Estratégias: projetos mais leves com uso de materiais de construção locais.

18- Soluções naturais na habitação >> economia: 6,47 Gt de emissões e uso de material de 3,07 Gt.
Estratégias: Telhados verdes, construção passiva (que aproveita e armazena os recursos de água e energia e aproveita a temperatura ambiente), com produção própria de energia renovável.

19- Habitações menores>> economia: 3,16 Gt emissões e 8,38 Gt uso de materiais.
Estratégias: Uso de habitações compartilhadas, uso de espaços multifuncionais, limites de estoques residenciais e de expansão habitacional nas cidades.

20- Aumento de durabilidade das habitações >> economia: emissões de 2,15 Gt e uso de material de 5,28 Gt.
Estratégias: Renovação e reformas para salvar imóveis da demolição.

21- Circular materiais de construção >> economia: 1,14 Gt de emissões e uso de material de 3,55 Gt.
Estratégias: Construção com matérias-primas fruto da reciclagem, reúso de resíduos de construção e de demolições.