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Mara Gama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Auditoria aponta que embalagens encalham na reciclagem

Para o estudo, embalagens plásticas consideradas rejeitos pelas cooperativas foram separadas por marca de produto e fabricante responsável - Reprodução/"Rejeitos de plásticos - estudo sobre impactos e responsabilidades"
Para o estudo, embalagens plásticas consideradas rejeitos pelas cooperativas foram separadas por marca de produto e fabricante responsável Imagem: Reprodução/"Rejeitos de plásticos - estudo sobre impactos e responsabilidades"
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

28/10/2021 06h00

Você compra um produto, retira do invólucro, usa o conteúdo, limpa a embalagem e a separa para encaminhar para a coleta seletiva. O caminhão da coleta passa, apanha as suas embalagens e entrega para uma cooperativa ou uma central mecanizada. Fez sua parte, contribuiu para a reciclagem, protegeu o meio ambiente, certo? Nem sempre.

Se for uma embalagem de chocolate ou salgadinho, mesmo das marcas mais famosas do mundo, de empresas grandes que atuam em diversos países, as chances de seu trabalho de separação em casa dar em nada são grandes. E o desperdício de tempo, trabalho e dinheiro continua. O catador que vai receber essa embalagem vai ter de analisá-la e separá-la, gastando seu tempo, os custos de transporte entre sua casa e a cooperativa serão perdidos e aquele pacote, depois de passear por um longo caminho, gastando gasolina num caminhão que emite gases do efeito estufa, vai acabar num aterro ou num lixão.

"Nas esteiras das cooperativas de catadoras e catadores, há uma proliferação crescente de embalagens plásticas, a maioria de uso único - use e jogue fora! - classificadas como rejeitos por não serem passíveis de reciclagem".

A frase acima é do estudo "Rejeitos de plásticos - estudo sobre impactos e responsabilidades", lançado nesta quarta, 28. São chamados de rejeitos os materiais que não podem ser reciclados, seja por falta de mercado, seja por falta de tecnologia.

O trabalho, feito pelo Instituto Pólis com o apoio da Fundação Heinrich Boell, investigou os materiais que percorrem essa primeira parte do caminho da reciclagem - com os custos para as pessoas e para os municípios -, mas acabam não sendo reciclados. É uma análise qualitativa, que não tem efeito de amostragem percentual, mas faz uma radiografia importante desse caminho que poderia ser virtuoso, mas não é.

Foram três etapas de pesquisa. Primeiro, uma análise gravimétrica da composição dos rejeitos (os tipos de materiais e a participação de cada tipo no total) acumulados em um dia de trabalho em duas cooperativas, a Coopamare e a Cooper Viva Bem, em São Paulo. As duas não são conveniadas com a prefeitura da cidade e recebem seus materiais de convênios com empresas, condomínios residenciais e comerciais.

Depois dessa etapa, veio o levantamento das marcas das embalagens mais recorrentes e, em seguida, foi feita a análise dos rótulos das embalagens, para apontar se trazem informações suficientes sobre a reciclabilidade dos materiais presentes.

O estudo aponta que a massa de rejeitos plásticos é significativa. De acordo com a presidente da Cooper Viva Bem, Maria Tereza Montenegro, essas embalagens representam 15% do total de materiais que chegam à cooperativa. Num mês que a cooperativa recebe 300 toneladas, 45 toneladas seriam desses rejeitos.

Não há uma estimativa precisa dessa porcentagem, mas, ainda de acordo com o estudo, cooperativas do interior de São Paulo indicam percentuais maiores que variam de 24% a 30% do total recolhido.

Segundo o estudo, a presença de rejeitos indica separação inadequada nos domicílios ou pontos comerciais, e é causada por dois principais fatores que se somam: falta de conhecimento sobre o que é ou não reciclável e ausência de informação nas embalagens. A responsabilidade em prover informação para os consumidores através de educação ambiental e rótulos corretos seria das empresas que fabricam e envasam seus produtos em embalagens plásticas, afirma o estudo.

E o que encalha nas cooperativas? A pesagem dos rejeitos nas duas cooperativas indicou que a maior parte do que não vai para reciclagem é composta por plásticos (30,65%), mais isopor (2,42%), somando 33,07%; seguidos por papel misto (9,7%); metais ferrosos (1,2%); vidros (1,9%) e outros (54%).

A maior parte das embalagens (93,68%) não recicláveis é de alimentos. Num total de 190 produtos, foram identificados 39 fabricantes. As marcas mais encontradas no estudo qualitativo foram Nestlé, Mondelez, Pepsico e Sadia.

"Todos os rejeitos dos três principais geradores são embalagens de alimentos e a maioria é de chocolates: Nestlé, com Suflair e KitKat; Mondelez, com Diamante Negro, Ouro Branco e Bis (da Lacta). Os snacks vêm em seguida: Pepsico, com Elma Chips e Torcida; Mondelez, com Club Social e Trakinas. Entre os produtos da Nestlé, destacam-se também o achocolatado Nescau e o leite em pó Ninho".

Segundo o estudo, "Nestlé, Mondelez e Pepsico também ocupam os primeiros lugares nos rankings mundiais de auditorias de marcas realizados a partir de limpezas em áreas públicas e de convivência pelo movimento global Break Free from Plastic".

A diferença entre as auditorias internacionais do BFFP e a auditoria de marca realizada nas cooperativas é que os materiais foram separados para reciclagem.

O estudo aponta também que, apesar de haver uma norma da ABNT ditando que todas as embalagens deveriam trazer a identificação das resinas (ou tipo de plástico) de que são feitas no rótulo ou no corpo da embalagem, 50% delas não apresentaram a identificação da resina e 26,5% dos rótulos não tinham informação sobre o material da embalagem.

As outras embalagens traziam o símbolo de reciclagem, mas estavam entre os rejeitos. "Ficou evidente que nem as empresas que se utilizam desses materiais em suas embalagens se propõem a comprá-los de volta e reincorporá-los em suas cadeias produtivas. Ou seja, a responsabilidade sobre os resíduos sólidos determinada pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) é ignorada", aponta a pesquisa.

Na conclusão, o documento indica a necessidade de uma legislação sobre o tema mais rigorosa e a proibição do uso de materiais não recicláveis nas embalagens. "Iniciativas nesse sentido não faltam: entre 1995 e 2019 foram apresentados ao Congresso Nacional 135 projetos de lei que versam sobre limitações ao uso e comercialização de diversos itens de plástico de uso único, mas estão parados pela pressão do setor industrial".

"É fundamental que a sociedade se mobilize para pressionar o Congresso Nacional para que aprove com urgência uma lei nacional de banimento de plásticos de uso único, como mais de 100 países já o fizeram, e sua substituição por materiais amigáveis ao meio ambiente, tais como o vidro, papel e papelão, em embalagens que sejam efetivamente necessárias para a comercialização dos produtos", finaliza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL