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Mara Gama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Redesign do mercado de alimentos é vital para combater crise do clima

Plantação de milho em fazenda em Itapeva - Alfribeiro/iStock
Plantação de milho em fazenda em Itapeva Imagem: Alfribeiro/iStock
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

14/10/2021 06h00

A indústria de alimentos é responsável por um terço das emissões globais de gases do efeito estufa (GEE) e a maior causadora da perda de biodiversidade no planeta. Por causa dessa imensa parcela de responsabilidade, mudanças no sistema atual de produção, organização, logística, distribuição e vendas de comida são essenciais para combater o aquecimento global. Como esse mercado é hoje dominado por grandes conglomerados que controlam pelo menos o meio e o fim da cadeia, está nas mãos desses gigantes do setor mudar o rumo de todo o sistema e combater a crise do clima.

Esse é o mote de um novo estudo Fundação Ellen MacArthur, "O grande redesenho de alimentos: regenerando a natureza a partir da economia circular", lançado no fim de setembro.

O relatório usa como modelo para avaliar impactos do poder das grandes marcas os mercados da União Europeia e do Reino Unido. Nesses dois universos de análise, 40% das terras agrícolas fornecem ingredientes para as dez principais marcas de alimentos e supermercados. São esses negócios que determinam o que será consumido e, portanto, orientam as decisões de produtores desde o início no campo, na agricultura, avicultura e pecuária.

Transformar toda a cadeia de produção para combater as mudanças climáticas e a perda da biodiversidade requer, segundo o estudo, tomar um conjunto de medidas organizado em quatro diretrizes: 1) diversificar os cultivos, 2) focar em culturas de menor impacto, 3) recuperar materiais das perdas da cadeia de suprimentos e 4) usar produtos da agricultura regenerativa.

Assim, a ampliação dos cardápios para o consumo pode trazer maior resiliência no campo, com maior segurança para a cadeia alimentar.

Segundo o estudo, apenas quatro culturas fornecem 60% das calorias consumidas mundialmente: trigo, arroz, milho e batatas. Para apoiar a recuperação da diversidade ambiental, as empresas deveriam incorporar muito mais tipos de ingredientes em suas linhas de produtos. Um dos exemplos seria a adoção de adoçantes de fontes diversas com safras perenes como tamareira, alfarroba, coco, e ampliar o uso de adoçantes naturais como a estévia.

Como exemplo de uso de ingrediente de menor impacto, o estudo avaliou que substituir a farinha de trigo convencional por farinha de ervilha na composição de um preparado de cereais matinais pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 40% e a perda de biodiversidade em 5%.

"Transformar o sistema alimentar exigirá tempo e investimento, mas há benefícios significativos se ações ousadas forem tomadas agora. As empresas podem aproveitar as oportunidades de crescimento criando ofertas que atendam à crescente demanda dos consumidores por produtos nutritivos e benéficos para a natureza. A escala dessas oportunidades é ilustrada pelas vendas de alimentos e bebidas orgânicos, que atingiram US$ 129 bilhões em 2019, com as Marcas de Vida Sustentável da Unilever crescendo 69% mais rápido do que os demais negócios da empresa", diz o estudo.

"Grande parte dos alimentos que consumimos são desenhados, projetados, já na escolha dos ingredientes, para ter o sabor, a textura e aparência que têm. Um novo design de alimentos tem de incorporar a lente da economia circular", diz Luisa Santiago, líder para a América Latina da Fundação Ellen MacArthur.

"E o relatório aponta esse potencial das grandes marcas de alimentos e do varejo de mudarem o sistema através do design de alimentos", afirma.

Pelo volume que movimentam, os gigantes do setor seriam o motor da mudança. "Não estamos falando dos produtos finais, mas do design do sistema inteiro, na potência que eles têm de influenciar o campo", diz Luisa. "Além de ser causadores eles são afetados pelas consequências e por isso o relatório quer apontar as oportunidades que elas têm de criar um sistema resiliente para elas", afirma.

O sistema linear atual, extrativo e "tóxico por definição", é o que mais contribuiu para a crise climática. Por isso, é mais imperativo que os atores desse sistema coloquem em prática os chamados que a gente fez nesse relatório. O que faz com que as empresas ganhem dinheiro é também o que coloca em risco o próprio sistema, com potencial perda de dinheiro, além do problema de custos de saúde.

Alimentação não é um assunto novo para a Fundação. Em junho de 2019, foi lançada uma iniciativa sobre o tema com foco no trabalho com governos municipais, associações e empresas (Cities and Circular Economy for Food). "Percebemos que para a ambição que temos não bastaria ter esse trabalho com cidades. Para ter a escala que precisamos dar, entendemos que é necessário acionar o potencial desses players e do varejo em influenciar o sistema inteiro através do design de alimentos", diz Luisa.

Após o lançamento desse mais recente relatório, a Fundação se organiza para abordar um grupo maior de empresas para traçar planos de implementação e um possível acordo geral em torno dessa pauta, como foi feito no Compromisso Global sobre os Plásticos.

"Mas já estamos vendo mudanças. Nos últimos dois anos, a Nestlé, por exemplo, passou a adotar a ideia da agricultura regenerativa, que já estavas em algumas marcas, em nível global. Empresas como Pepsico, Danone, Walmart e Unilever, que já estavam inclinadas a adotar algumas dessas medidas, estão se adiantando e lançando compromissos nesse sentido", afirma Luisa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL