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Mara Gama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Resíduo orgânico da cidade no combate à erosão do solo

melGreenFR/ Pixabay
Imagem: melGreenFR/ Pixabay
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

30/09/2021 06h00

Nos últimos 40 anos, cerca de 30% das terras agrícolas do mundo tornaram-se improdutivas devido principalmente à perda de matéria orgânica do solo. Cerca de 80% dessas terras sofrem de moderada a severa erosão, com 100.000 km² sendo perdidas todos os anos. Ao mesmo tempo, um terço da produção de alimento do mundo é perdido durante a colheita e o transporte ou desperdiçado por varejistas e consumidores.

O quadro torna mais difícil o desafio previsto para daqui 30 anos: até 2050, o mundo precisará produzir o dobro da quantidade de comida que produz atualmente, usando menos água e menos solo.

O empobrecimento e a erosão da terra cultivável têm implicações óbvias para a segurança alimentar do planeta, além de efeitos prejudiciais sobre o clima e relação direta com a indisponibilidade de água.

Um estudo promovido pelo ISWA (International Solid Waste Association), que reúne empresas de tratamento de resíduos no mundo todo, analisou a situação de cinco países: Austrália, Brasil, Chile, Itália e Reino Unido. Em todos eles, constatou que a produtividade agrícola é severamente afetada pela degradação do solo.

No Chile, a diminuição da produtividade agrícola foi de mais de 30%, com 93% dos municípios sendo afetados por processos de desertificação.

Segundo o estudo, o Brasil perde cerca de 800 milhões de toneladas métricas por ano devido à erosão hídrica do solo.

Isso pode aumentar em 20% em 2023 se a futura expansão agrícola resultar de desmatamento. A erosão do solo poderia ser reduzida em 20% se essa expansão recuperasse pastagens degradadas. Já são 180.000 km² de terra classificados como em severo e extremamente severo processo de desertificação no país, todas essas áreas no Nordeste.

Com dados do MapBiomas, o relatório aponta que de 1985 a 2018 foram perdidos 890.000 km² da vegetação nativa enquanto as pastagens aumentaram 37% e agricultura cresceu 150%.

Segundo o estudo, a erosão e a perda de matéria orgânica poderiam ser reduzidas significativamente através da aplicação de composto de alta qualidade no solo, aliadas a um conjunto de medidas que inclui mudança das práticas da agricultura, legislação de proteção do solo e aplicação eficaz de políticas agrícolas.

O relatório "Avaliação Global do Desperdício, Produção e Reciclagem Municipal de Orgânicos" aponta que cerca de um bilhão de toneladas de lixo orgânico são produzidas anualmente, o equivalente a cerca de 0,35 kg por habitante por dia. Uma proporção significativa é desperdício de alimentos.


O desafio seria, portanto, fazer coleta separada e eficaz de resíduos orgânicos, sem contaminantes, especialmente nas cidades, tratar esse material e destiná-lo à melhoria de qualidade nas terras agrícolas onde os alimentos são cultivados.

Resíduos orgânicos podem ser tratados por meio de compostagem ou processos de digestão anaeróbia. Os produtos resultantes têm diferenças. O produto resultante da digestão anaeróbia é visto como importante fertilizante orgânico.

O composto é melhor classificado como um melhorador de solo. Sua aplicação sistemática pode reduzir a compactação e aumentar a capacidade de retenção de água, aumentar a biomassa microbiana e sua atividade. Além disso, o composto é a mais potente forma de sequestrar carbono em solo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL