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Mara Gama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Casulo" une design e ativismo para aquecer quem está na rua

Casal Laísa e Johnatan recebe o primeiro protótipo do casulo em 16 de abril - Bibi Fragelli
Casal Laísa e Johnatan recebe o primeiro protótipo do casulo em 16 de abril Imagem: Bibi Fragelli
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

06/05/2021 06h00

"Com o frio, aumenta a sensação de injustiça de ver gente na rua enquanto estamos em casa", diz Bibi, a Beatriz Fragelli, modista e idealizadora de um saco de dormir para as pessoas que vivem nas ruas de São Paulo.

Não é um objeto para usuários que enfrentam apenas o relento, como num acampamento comum. Além do desamparo, da falta de dinheiro e da fome, essas pessoas sofrem, não poucas vezes, a violência de passantes, vigias e policiais que os acossam, jogam jatos de água, saqueiam ou confiscam seus colchões, cobertores e demais pertences.

Os números sobre pessoas em situação de rua em São Paulo estão desatualizados. O último censo, de 2019, aponta 24,3 mil, sendo que metade estaria albergada e metade sem teto. Havia aumentado 53% em relação ao penúltimo censo, de 2015, quando as pessoas na rua somavam 15,9 mil.

Mas o dado de 2019 não pega a crise da covid-19. As organizações que trabalham com assistência a essa população estimam que tenha havido grande crescimento no número de moradores de rua, porém não há uma contagem abrangente e verificável. A prefeitura anunciou recentemente que vai antecipar para o segundo semestre deste ano a realização do censo específico - que era realizado a cada quatro anos - devido ao agravamento da pandemia.

O Casulo

casulo 1 - Claire Castelano - Claire Castelano
Ítalo, o primeiro a receber o casulo aperfeiçoado, em 01/05
Imagem: Claire Castelano

"Quando pensei em fazer um saco de dormir, imediatamente me lembrei daquelas cenas de horror de guardas jogando jatos de água nas pessoas da rua. Pensei então que teria de ser uma bolsa, leve e com alça, porque bolsa os policiais não poderiam tomar", conta Bibi. Ao explicar o plano para a roteirista e ativista Patricia Curti, mais uma exigência para o design do produto: os fechos deveriam ser simples e facilitar uma saída apressada. Velcro neles. As pessoas que dormem na rua são muito atacadas e roubadas.

Patricia tem capacidade de articulação e experiência em iniciativas do tipo. Atua nos projetos "Banho para a Geral", que fornece banhos, mudas de roupa e kits de higiene para vulneráveis; no "Mesa Solidária", de doação de marmitas, e no "Coletivo Pop Rua Sul", que ajuda a buscar emprego, atendimento médico e psicológico e distribui roupas e alimentos na região de Santo Amaro.

"No dia que eu ia encomendar os materiais para os primeiros protótipos, vi um casal com a mulher grávida com a barriga no chão. Então imaginei que os sacos deveriam se conectar, permitindo que casais dormissem juntos. Daí o nome Casulo", conta Bibi. O nome nas redes é @casuloprarua.

Passados 20 dias da entrega da primeira peça-piloto, no dia 16 de abril, a iniciativa já se alastrou pelas redes sociais e angariou apoios, doações de dinheiro para custear material e mão de obra para produzir mais casulos, sugestões de adaptações e pedidos de instruções para fabricação em outros bairros de São Paulo, outras cidades do Brasil, além de uma encomenda de peça para ser reproduzida em Nova York. No caixa, mais de R$ 50 mil em doações.

Para atingir os mais necessitados, a iniciativa está se conectando a outras organizações que já têm mobilização e presença consolidada em regiões mais carentes, como a Pastoral do Povo da Rua, do Padre Julio Lancellotti.

Artistas plásticos passaram a contribuir enviando com imagens que serão impressas nos próximos casulos. Com o apoio dos designers do estúdio Ovo, foi criado um tutorial de corte e costura do casulo e criada a etiqueta, que ensina a forma de usar e dobrar o casulo para transforma-lo em bolsa. A ideia é que as pessoas possam usar os moldes e instruções para fabricar casulos em suas regiões de atuação e organizar elas mesmas as formas de distribuição.

O preço de custo de cada casulo está orçado em R$ 148. Para ajudar você pode fazer o depósito de qualquer quantia na conta Itaú Agência 0073 Conta 50437-5 Panda Produções Artísticas CNPJ 55369060/0001-78 PIX = CNPJ (favor enviar comprovante com seu nome para o e-mail: casuloprarua@gmail.com)

casulo 2 - Alice Vergueiro - Alice Vergueiro
César recebe o casulo e mostra a etiqueta com instruções
Imagem: Alice Vergueiro

Backpackbed

Um dos projetos de atendimento aos sem-teto mais premiados é o australiano "Backpack Bed for Homeless", com sete prêmios internacionais de design de produto e exemplares de seus sacos de dormir adquiridos por quatro museus.

A instituição, criada em Melbourne 2007 por Tony Clark e Lisa Clark, criou o produto em 2011 e o fabrica e distribui com doações públicas, dedutíveis de impostos locais. Projetos com o mesmo formato foram implementados em mais sete países - EUA, Reino Unido, Nova Zelândia, Alemanha, Canadá, África do Sul e Espanha.