PUBLICIDADE
Topo

Mara Gama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Grupos cozinham e doam alimentos como ação política

 A criadora do projeto "O Amor Agradece", com quentinha na mão, Rute Corrêa  - Djunior Ortega
A criadora do projeto "O Amor Agradece", com quentinha na mão, Rute Corrêa
Imagem: Djunior Ortega
Mara Gama

Mara Gama é jornalista e pós-graduada em Design. Trabalhou na MTV Brasil e foi repórter, consultora de texto e colunista de meio ambiente da Folha de S. Paulo. Fez parte da equipe que iniciou o UOL, onde foi diretora de qualidade de conteúdo e ombudsman. Atualmente é consultora de texto e estuda economia circular e sustentabilidade.

Colunista do UOL

01/04/2021 04h00

Cozinhar para quem precisa se apresenta como uma das poucas formas de mobilização possíveis durante o isolamento imposto pela covid-19.

Com a disparada das mortes, o aumento da fome, o crescimento da população em situação de rua e a incompetência dos governos diante do quadro, cresce o número de pessoas que se envolvem em projetos de feitura e distribuição de refeições prontas como forma de atuação política. Parece que há uma reação à piora da situação: quanto mais aumenta o isolamento e as condições se precarizam, mais pessoas buscam se engajar em ações do gênero.

Um dos mais interessantes exemplos desse tipo de movimento é a rede "O Amor Agradece", que está vendo aumentar o número de participantes neste mês e colocou mais de 1,7 mil refeições na rua na última semana, preparadas em cozinhas individuais.

O grupo, criado em 2018 no quintal de sua fundadora, a produtora cultural Rute Corrêa, com saídas iniciais de 150 refeições por semana, além de água e kits de higiene para distribuição junto com associações de vários bairros, cozinhou e distribuiu 54 mil refeições de abril a dezembro de 2020. Também no ano passado, foram entregues 1.010 cobertores e mais de 140 voluntários estiveram envolvidos na produção. Tudo isso com uma captação de recursos que não chegou a R$ 100 mil.

No começo as pessoas se reuniam para cozinhar juntas. O isolamento determinado pela pandemia impulsionou um novo formato atomizado de atuação. Hoje são mais de 40 famílias cozinhando em suas casas, com cerca de 90 pessoas envolvidas na operação. As marmitas são destinadas aos bairros da Bela Vista, Santa Cecília, Centro, Boi Malhado, na Vila Nova Cachoeirinha, Robru e para o Centro de Guarulhos.

A analista de sistemas Flávia Tiné, 52, cozinha todos os sábados, desde julho de 2020, em sua casa, 12 refeições a mais para doar para "O Amor". Flávia tem três filhos que estudaram na escola Alecrim, na zona oeste de São Paulo, e participa do grupo de mães de alunos e de ex-alunos da escola que também integram o bloco de Carnaval "O ano passado morri, mas esse ano não morro".

No núcleo de Flávia há cerca de 20 pessoas. "Na segunda-feira já começa no grupo a conversa sobre quem vai poder cozinhar, quanto vai fazer, quantas embalagens precisa, e quem vai levar as refeições para os locais onde haverá distribuição. Temos um doador que fornece orgânicos e uma conta bancária que recolhe dinheiro de quem quer participar mas não pode cozinhar e nem entregar", conta Flávia.

"Estávamos com uma demanda triplicada e metade dos voluntários atuando no começo do ano, mas, há três semanas, começou uma boa aquecida de doações e novas cozinheiras estão se juntando", conta Rute, a criadora do "O Amor". "O projeto hoje está a todo vapor, com comida na rua todos os dias", diz.

"O formato que o projeto tomou na pandemia foi muito orgânico. Mesmo pós pandemia, não vamos voltar ao que era no começo. A pessoa ter de trabalhar o dia todo e sair e se deslocar para uma base para cozinhar e entregar é muito mais difícil. Muito melhor é poder escolher a hora e o dia da semana adequados e fazer a comida em casa", pondera Rute.

Quentinhas - Flávia Tiné - Flávia Tiné
Risoto de shimeji, sobrecoxa assada e abóbora japonesa nas refeições preparadas no sábado 27 de março por Flávia Tiné, que participa de "O Amor Agradece"
Imagem: Flávia Tiné

Crescendo nesse formato, cada pessoa que entra dá a dica para outras, mesmo sem se conhecerem pessoalmente. "Nós nos tornamos uma rede. A gente manda as embalagens para as pessoas que vão cozinhar. Tem gente que não precisa dos insumos, mas tem quem esteja sem trabalho e que pode cozinhar mas não comprar por sua conta a matéria-prima. Essas a gente reembolsa, porque recebemos doações em dinheiro", explica Rute. "São várias demandas e a gente vai enxugando esse gelo com toalhinha de rosto", brinca ela.

Rute considera que esse tipo de iniciativa expressa uma necessidade de fazer alguma mudança real. "É uma maneira de um protesto, de militância. A gente não pode ir para rua militar e protestar, então é um jeito de mostrar para a sociedade o que esse povo está passando, que tinha de ter o que comer e onde morar", afirma. "Tenho uma relação com alimento de cura e afeto. Sempre cozinhei para os amigos. O projeto é uma forma de ampliar", finaliza Rute.

Lute como quem cuida.

MTSC - Divulgação - Divulgação
A chefe Caca Vicente e sua equipe na Ocupação Nove de Julho
Imagem: Divulgação

Toda quarta-feira, o grupo que cuida das refeições do projeto "Lute como quem cuida", que funciona na cozinha da Ocupação 9 de julho, do MSTC (Movimento dos Sem Teto do Centro) começa a receber pedidos para compras de quentinhas no domingo seguinte. É um outro exemplo de militância pela comida.

Os pratos são decididos por chefs convidados. Os ingredientes vêm de produtores orgânicos como Terra Viva e Instituto Chão e da própria horta da Ocupação, como couve e hortaliças para saladas. As refeições são preparadas por moradores da ocupação e pelo chef da semana, que atua de forma voluntária, no local, no domingo.

A comida é colocada em embalagens de papel e entregue pelo grupo Entregadores Antifascistas. Funcionários da cozinha são remunerados por hora trabalhada e os entregadores decidiram fazer rateio do total de entregas. Os moradores da ocupação têm desconto nas refeições, vendidas para eles por preço de custo.

Atualmente são feitas 200 refeições para venda e mais 300 para doações a instituições. A ideia é que cada um compre e ofereça uma refeição para uma das pessoas em situação de rua e vulnerabilidade que são atendidas. O cardápio é vegetariano e o preço é de R$ 30.

A cozinha já passou por várias fases desde 2017, quando começou a funcionar para trazer o público para conhecer a ocupação, um domingo por mês, sempre com o esquema de vendas para custear doações. Naquela primeira fase, foram produzidas 30 mil refeições. Desde que começou a funcionar por delivery, em setembro de 2020, com refeições todos os domingos, já foram oferecidas 3 mil quentinhas.

A cada semana, as doações são enviadas a uma comunidade, conta Marcelo Calheiros, que atua da cozinha ocupação desde o início, como voluntário, auxiliando na contabilidade e na logística. Calheiros, que é engenheiro, faz parte da rede ativista Aparelhamento.

Os voluntários, por causa da covid, não são incentivados a participar na feitura das refeições. A demanda pelas quentinhas da ocupação só cresce. Na última semana, os pedidos se esgotaram no sábado.

Como ajudar?