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Mara Gama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Recuperação econômica pós-covid terá ajuda da economia circular na AL

Pixabay
Imagem: Pixabay

Colunista do UOL

11/02/2021 04h00

Um grupo de países latino-americanos quer enveredar de forma colaborativa na direção de um futuro mais verde e inclusivo, com menos desigualdade social, numa das regiões mais abundantes em recursos do mundo, porém marcada pela dependência excessiva de atividades extrativistas e do valor de suas commodities no mercado global.

No último dia 1º de fevereiro, após dois anos de preparação auxiliada pelo Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) uma reunião virtual durante o Fórum de Ministros do Meio Ambiente selou o lançamento da Coalizão de Economia Circular: América Latina e Caribe, união de governos da região para desenvolver formas de crescimento mais sustentáveis.

A recuperação econômica e social pós-covid foi tema de fundo do primeiro encontro. A economia circular é entendida como ferramenta essencial para esse processo, por atacar na raiz os desafios globais da perda de biodiversidade, da poluição e da crise do clima.

Eliminar o desperdício e a poluição, manter produtos e materiais em uso e regenerar os sistemas naturais são três pilares da economia circular. A transição deve partir do design.

A missão inicial da Coalizão é estabelecer uma plataforma regional de cooperação interministerial e multissetorial que incremente o conhecimento sobre economia circular e facilite a capacitação e assistência técnica para o desenvolvimento de políticas públicas nesta direção.

A Coalizão apoiará financiamento por parte de governos e do setor privado, com ênfase especial nas pequenas e médias empresas, para promover a mobilização de recursos de inovação e a implementação de projetos específicos na região.

A ideia é que o bloco evolua da economia linear para a circular, desvinculando o crescimento econômico da degradação ambiental e da extração desmedida de recursos naturais, melhorando o bem-estar humano e contribuindo para o cumprimento da Agenda 2030 e do Acordo de Paris.

A economia de baixo carbono e a máxima eficiência energética são fundamentais para um mundo mais circular, mas não resolvem tudo. É preciso mudar a maneira de produção de produtos e alimentos e o uso do solo.

O maior país do bloco, Brasil, infelizmente, não mostrou interesse. Pode vir a aderir no futuro - porque a coalizão está aberta a todos - mas, pelo que demonstram as atitudes truculentas da diplomacia atual e sua obtusa visão a respeito dos demais países do continente, só numa nova encarnação, que esperamos, venha logo. Se possível, antes de 2022.

Colômbia, Costa Rica, Peru e República Dominicana são os líderes da primeira gestão da Coalizão, que dura dois anos e é rotativa. Os quatro países têm experiências avançadas em planejamento e ações para a economia circular.

Criar uma visão regional da economia circular, desenvolver indicadores, oferecer oportunidades de capacitação e fazer projetos pilotos são metas da primeira gestão.

Foram anunciados seis grupos setoriais para estudo e elaboração de planos e recomendações: plásticos, eletrônicos, alimentos e agricultura, cidades e construções, turismo e simbiose industrial.

Para ilustrar o conceito da simbiose industrial, o representante do ministério da indústria, energia e mineração do Uruguai, Walter Verri, fez uma importante colocação durante o lançamento da coalizão: "Cada resíduo tem suas particularidades e nem todas as possibilidades de aproveitamento são rentáveis. Os dirigentes das empresas e indústrias têm de ter uma visão sobre todo o ciclo de vida dos produtos e sensibilidade para financiar e facilitar as oportunidades para os novos negócios que tratem do passivo ambiental de suas atividades".

Verri também salientou que "a mudança cultural é o maior desafio. Romper o modelo linear que tem na obsolescência programada o dinamizador da comercialização de bens". "Os custos econômicos da transição, financiamentos, prazos especiais, marcos normativos são desafios. Mas sem o consumidor de produtos sustentáveis não se faz. A capacitação dos consumidores é necessária. E a integração dos países pode ajudar nisso", disse ele.

"Os padrões de consumo e produção insustentável são a causa das três crises planetárias que enfrentamos hoje - mudança climática, poluição e perda de biodiversidade. Temos uma oportunidade única de repensar nossa economia linear e remodelar nossos padrões", afirmou o diretor regional do Pnuma, Leo Heileman, durante o lançamento da Coalizão.

Para Luísa Santiago, líder para a América Latina da Fundação Ellen MacArthur, parceira da Coalizão, a nova plataforma regional vai permitir elevar o nível de conhecimento sobre o conceito e as práticas da economia circular e alinhar as agendas dos países.

"A mudança tem de ser sistêmica. Uma empresa sozinha não vai transitar para a economia circular. Ela vai medir suas práticas, incluir princípios da economia circular em suas operações, serviços e produtos, mas se o formulador de políticas públicas colocar uma barreira, se o técnico que sai da faculdade não tem essa habilidade, não vai haver mudança", exemplifica Luisa.

A Fundação Ellen MacArthur acaba de lançar um manual, com cinco Objetivos Universais para Políticas de Economia Circular, para auxiliar no desenho de políticas públicas.

"Um dos temas do nosso último estudo é justamente o da colaboração, e a Coalizão, por ser interministerial e intersetorial, concretiza esse objetivo. Ela vai facilitar diálogos entre empresas e países e criar uma direção comum. A pauta não é apenas ambiental. É transversal. Une também o setor industrial, energético, de infraestrutura", diz Luísa.

Volto ao tema dos cinco objetivos universais na próxima coluna.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL