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Lia Assumpção

Logística reversa aplicada

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

04/10/2020 04h00

Semana passada falei aqui que quando alguém me diz que algo é feito com material reciclado ou reciclável, inicia-se na minha cabeça uma chuva de perguntas intermináveis a respeito de quem será responsável pela reciclagem (o produtor, o estado, uma empresa privada de reciclagem ou você, consumidor). Acontece essa precipitação de perguntas também, quando leio a respeito da logística reversa aplicada no ciclo produtivo de alguma empresa. Aconteceu isso outro dia quando uma amiga me mostrou, animada, a notícia a respeito de uma empresa de cosméticos, que dedica-se a soluções mais sustentáveis há bastante tempo, e que agora está implementando a logística reversa em seus processos. Logística reversa, a grosso modo, é o instrumento que garante que materiais não sejam descartados mas que voltem para o ciclo produtivo, sendo reciclados e voltando a serem produtos.

A notícia, porém, me pareceu mais uma promoção do que uma mudança no jeito de produzir. Isso porque a ideia é que você leve 5 embalagens vazias nas lojas dessa empresa e troque por um presente. As 5 embalagens que você levar, voltarão ao ciclo produtivo e serão recicladas graças à parceria com empresas de reciclagem (e isso é lindo), mas perguntas começaram a chover na minha mente: será que eles vão implementar postos de coleta espalhados pela cidade ou receberão apenas nas lojas? Quanta gente será que vai de fato vai levar as embalagens de volta? Se esse número de devoluções for baixo, dá pra chamar essa ação de logística reversa mesmo? Por que não tem muito como mensurar quanta gente vai pegar suas embalagens de shampoo vazias e levar lá até a loja deles, confere?

Minha amiga me acusou de estar sendo chata de pensar assim, afinal, nas palavras dela, tem tanta gente que nem pensa em reciclabilidade!; além disso, essa empresa sempre propõe soluções inovadoras que pouco a pouco vão construindo nos consumidores uma consciência a respeito dos resíduos e tal… Seu último ponto era o de que, para além da reciclagem, eles estão gerando empregos… E ela está certa em todos os pontos, mas justifico minha chatice:

Logística reversa me faz pensar que há zero descarte ou algo próximo disso. Isso porque, já falamos aqui, ela é parte chave da economia circular; é por meio dela que embalagens, por exemplo, voltam ao início do ciclo produtivo. Em outras palavras, a ideia da economia circular é que a embalagem de plástico do seu shampoo, por exemplo, seja sempre um resíduo e nunca lixo, afinal lixo é algo que não tem mais uso, enquanto resíduo é algo que pode servir de matéria prima ou ganhar outros usos por aí.

Então, a ideia do consumo consciente (e da economia circular mesmo) é um pouco a de que não tratemos nada que é resíduo como lixo. Ou seja, a embalagem de shampoo, que é feita de material reciclável, é o resíduo do shampoo que você usou. Depois que você lavar muitas vezes o seu cabelo, e o shampoo acabar, a embalagem tem dois destinos possíveis: 1) voltar a ser plástico, caso você faça coleta seletiva na sua casa ou leve ela de volta para a empresa que te vendeu, como é a proposta dessa empresa que citei no início do texto; 2) virar lixo, caso você a trate como lixo e não como resíduo e não separe ela do que não é reciclável na sua casa. Queremos cada vez mais a opção 1 e não a 2. Aliás, não queremos a 2, nunca.

A coisa é que a opção 1, precisa de ajuda (de logística!). Por que o lixo que você separou tem que chegar até a empresa que vai reciclá-lo. E isso nem sempre é tarefa fácil. Se o processo de coleta fosse facilitado, tenho pra mim que os números de reciclagem daqui seriam mais altos. E se esse processe fosse também lucrativo, como no caso do alumínio, mais pessoas estariam interessadas em que ele acontecesse. A lei de resíduos sólidos compartilha essa responsabilidade entre poder público, privado e consumidores; cada um faz a sua parte no processo. Mas tem partes, que não ficam muito claras de quem é a responsabilidade, então fica aí um buraco no meio do caminho. É nesse buraco que mora o meu incômodo com a notícia que minha amiga apresentou. Por que o processo de coleta não é facilitado, então a logística reversa acaba contando demais com a boa vontade/consciência/disposição do consumidor.

Na Alemanha tem um sistema de coleta que funciona assim: quando você compra algo, o valor da embalagem e do produto que você comprou está separado. E em todos os mercados existe uma máquina grande, como essas que vendem refrigerante, em que você pode devolver a sua embalagem vazia e a máquina te dá o valor correspondente à embalagem que você devolveu. Tem um atrativo econômico para quem vai devolver a embalagem, mas principalmente, um facilitador geográfico. Você faz compras ali frequentemente, leva de volta as embalagens no dia da compra.

A Alemanha é conhecida por ser um país com altos índices de reciclagem. Lá, 50% do lixo é reciclado, enquanto aqui em São Paulo, somente 7%. Todas as diferenças que temos como país torna quase impossível uma comparação entre nós e eles, porém, não tenho dúvidas de que a logística aplicada por lá tem papel determinante na circularidade dos materiais.

Um outro exemplo é o da Loop, uma empresa inglesa, que fez parcerias com grandes empresas (tipo Unilever e Coca-cola) para eliminar embalagens descartáveis. Eles basicamente separam o valor do conteúdo do valor da embalagem e você faz uma espécie de assinatura que garante que quando o amaciante acaba, você não joga a embalagem fora, mas espera o pessoal trazer o novo conteúdo para você. Um pouco nos moldes do leiteiro de antigamente que trazia leite na garrafa de vidro: ele levava a vazia quando te trazia a cheia.

Esses são exemplos em que a logística e dos materiais é facilitada o que aumenta a circularidade de seus ciclos; por esta razão, depende bem menos da boa vontade/consciência/disposição do consumidor. Talvez quando eu leia "logística reversa" em uma notícia, eu espere encontrar algo mais próximo disso, daí minha má vontade.

Acredito que a mudança de consciência — que passa por consumidores, modos de produzir e legislação — é um caminho a ser trilhado no qual empresas, como essa que citei no início do texto, tem papel fundamental. Então, apesar da má vontade inicial, sigo valorizando iniciativas que ajudam a construir o caminho até a notícia em que a palavra reciclagem ou logística reversa empreguem os conceitos em toda a sua complexidade. Mas nem por isso deixo de compartilhar exemplos de caminhos mais avançados do que o nosso, para ajudar a circular ideias e encontrar soluções locais.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.